sábado, 21 de julho de 2018

HISTÓRICO BARRACO



Resultado de imagem para imagem de histórico barraco


HISTÓRICO BARRACO

Hoje, 21 do 7, faz 69 dias que não apresento nada aqui. Concentrado na Copa do Mundo (Viva a Copa), deixei o tempo passar. Porém, mal terminou a Copa, pensei em redigir um texto esculachando o goleiro francês por ter feito aquela lambança no segundo gol da Croácia, jogo final da Copa (ia ganhar um Bolão, gente, 900 paus, porquanto ter apostado na França ganhando de 4 a 1).
“Esse número 1 da França é fuleiro, nojento e babão da Kolinda, a presidente da Croácia”, gritei, dando um murro na mesa, derramando cerveja pra todo canto. Pra que falei isso, gente! Gritei e logo surgiu na minha cara um dedão com o número 3 desenhado na unha. O tal de maior-de-todos esticou-se num gesto obsceno, berrou um vtnc e jurou vingança: “Vais pagar pelo desaforo, TC. Tu é quem é fuleiro, idiota”, esbravejou e sumiu.
Tô vendo coisa. É a bebida, pensei.
Pois bem,
os dias passam, dou o surreal episódio por esquecido, até que sexta-feira, dia 13, ligo o notebook a fim de escrever algo sobre o Dia do Amigo, a ser comemorado dali a uma semana, dia 20 do 7. O Dia do Amigo, sabem os senhores, é comemorado nessa data em alusão à chegado do Amstrong, Aldrin e Collins à lua. Por sinal, o trio foi recepcionado por mim.
Sabiam disso também, senhores?
Pois! Abraçaram-me e o azoreta do Neil logo brincou, entregando-me uma cápsula de aguardente: “E aí, Aluado, como estão as coisas?”
Pois bem de novo. Abro o word e começo a redigir a prosa do amigo. Mas, quando vou teclar a data “20 do 7”, os dedos travam. Encarquilham-se, gente. Não saía nada. Como se os algarismos estivessem resfriados, respirando no ventre da imaginação, fugindo do artificial sol do computador. Nisso, escuto o risinho irônico e a piada: “Escreve algarismos, TC. Escreve. Escreve, imbecil”. Era o sacana do 3 sacaneando comigo.
A ficha caia, a vingança do peste do 3 se consumava. O 3 era amigo do algarismo 1 do goleiro da França e do restante da numerada.
Foi essa a primeira manifestação de corporativismo da história.
Disso também sabiam os senhores?
Pois! Ocorre que quem tem rabo preso deve botar a barba de molho na bacia de certos assuntos. E eles, os algarismos, tinham telhados de vidro. Vou desmascará-los. Postarei aquele barraco, matutei.
Mas havia um problema. Para expor o barraco, eu precisava digitar os danadinhos de 0 a 9. Não podia falar da baixaria do 5, por exemplo, sem o 5 digitar, concordam? Mas como digitá-lo se os dedos travavam na hora? Matutei, matutei e pimba.
Chamei minha neta Bia (só tenho uma neta, gente, por isso não botei vírgula), meu amigo Ben e expus a situação. Ben, pessoal, é como chamamos o bem-te-vi que vive mexendo nas coisas daqui de casa. Ben ama a Bia. Fica um tempão se sacudindo pra ela. Pula nas perninhas dela e canta: Ben, ben, ben. Te-vi, te-vi, te-vi.
Pois bem novamente. Digitei o barraco, inclusive o texto agora editado, e deixei os espaços para pôr os algarismos. Então. Desde sábado, que hoje, 21 do 7, faz oito dias, que é este o nosso ritual: acocoro-me com o notebook nas pernas, e a Bia e o Ben ficam preenchendo os espaços com algarismos por mim indicados.
Deu certo, já que a Bia adora dizer que vai fazer um aninho com o dedinho indicador e o Ben ama bicar objetos.
Foi assim, gente.
Agora vou jogar pro mundo o barraco da numerada.
Leiam.

Desconheço o ano do evento, mas sei que se tratava de um seminário sobre aritmética. Árabes, romanos e afins reunidos, numerada na maior festa, e eis que, cheios de goró, o 5 e o 7 começam a sacudir os traçados para a amante do 2, a curvilínea “Duas”. A propósito, apenas dois algarismos, o 2 e o 1, têm amantes. A amante do 2, já falei, é a curvilínea “Duas”, e a concubina do 1 é a esbelta “Uma”. D. Uma, digo logo, gosta de dar uma puladinha de cerca. Mora com o 1, mas mantém um caso com o quase vizinho, o trepidante 3. É por isso que aqui, acolá a gente encontra a expressão “três em uma?”
Então, quando o 2 pressentiu o cheiro de queimado armou o primeiro barraco da história. Embriagadíssimo, foi tirar satisfação com o 5 e o 7. Tomou logo o tracinho que o 7 carregava entre as pernas e pegue porrada em quem encontrava pela frente. O 4 armou-se com quatro pedras nas mãos e o 3 com uma baladeira. De nada adiantou: apanharam feitos mulher de malandro. O 0, coitado, tirou o dele da reta, recolheu-se a sua insignificância e se escondeu atrás de uma das retas de Euclides. O 2 arremessou a outra reta do Euclides no 8. A reta pegou embalo, tirou fino no delta do bundão 6, atingiu de raspão o cabeçudo do 9 e pegou em cheio o teorema de Pitágoras. Tão em cheio que espalhou hipotenusa pelo resto do mundo. Até hoje a reta de seu Euclides viaja. Está procurando o infinito.
Falar em infinito e retas do Euclides é bom passar a limpo aquele mito de que duas retas paralelas vão se encontrar no infinito. Isso foi o 7 (mentiroso nato) quem espalhou mundo a fora. Elas se encontram do infinito pra dentro, essa é a verdade. A mentira veio à tona pelos estudos do Leonel, irmão do Euclides. Leonel provou por A e mais B que duas retas paralelas passam do infinito e vão se encontrar no quinto dos infernos, num lugarejo chamado Curva do Vento, precisamente onde o Judas perdeu as botas.
Nem vou perguntar se os senhores sabiam disso.

As botas... Ah, deixa pra lá.
Bom, mas quem sofreu mesmo foi o nosso amigo 5. Levou tremenda surra, foi chamado de cachorro e perdeu o status de PI. Antes do barraco, gente, o PI era exato 3,15. A monumental surra o despedaçou de tal forma que o moleque perdeu a posição para o 4 e cedeu lugar à incerteza. Hoje o PI é conhecido por 3,14 e tome algarismos.
Certa feita, D. Uma, que, como falei, vivia maritalmente com o 1, o qual dela já vinha desconfiando, mandou uma mensagem secreta para o 3. Pedia-lhe um encontro no local de conversão das linhas do trem. O 3 captou a mensagem e correu pra lá. Lá, após estimulantes e primitivos equacionamentos, D. Uma deu a seguinte orientação ao amante.
Escuta, 3, adorei reencontrá-lo, mas vamos redobrar os cuidados, pois o 1 anda meio esquisitão. Quando a coisa esfriar, você pode vir a minha tabuada, certo? Aqui entre essas linhas estaremos seguros, mas...
 A partir do encontro de D. Uma com o 3, entre as linhas do trem, começa a se falar de entrelinhas como algo dissimulado, subentendido, oculto. Sobretudo na escrita.
Os senhores sabiam disso também?
Outra coisinha que começou ali foi a jocosa e pérfida expressão “pular a cerca”. Tudo porque para chegar às linhas do trem, D. Uma e o 3 precisavam pular a cerca de arame protetora da conversão férrea.
Sabiam também disso os senhores?
É isso.
Engraçado é que quando entro no blogue a fim de fazer a postagem, a Bia chega se arrastando, com o Bem no cocuruto, e ficam, os dois, me observando. Certamente queriam aparecer como coautores do texto. Do Ben, avoado que só ele, não arrisco previsão. Mas da Bia, bisbilhoteira toda, não tenho dúvida de que leva jeito pra essas amalucadas coisas da literatura.
Então tá.

Julho/18,
TC, Bia e Ben