quarta-feira, 3 de outubro de 2018

O CANDIDATO DO BIÃO



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O CANDIDATO DO BIÃO

Portão eletrônico aberto, o bicho entrou de garagem a dentro. O pessoal da obra parou as atividades e ficou em posição de alerta. Um dos serventes não se conteve e falou. Baixinho, é certo, mas soltou: Porraé!
O portão-garagem aberto se explica porque um servente estava pondo entulhos numa caçamba. Entulhos da obra, evidentemente. A obra é uma área de lazer que estou construindo nos fundos da casa. Esse é o motivo, aliás, de fazer um tempão que não posto nada aqui. É que cristão algum aguenta a fofocagem de marquita, serra, martelo, furadeira. Esse povinho se junta com os parentes e tome blá-blá-blá. O cabra já escreve ruim no, com licença da palavra, silêncio sepulcral, imagine...
E a posição de alerta do pessoal? Foi em razão da feiura do bicho, gente. O bicho em questão era meu primo Bião, conhecidíssimo dos leitores antigos desta Pocilga. Daí que nem vou descrevê-lo. O Bião é feio e pronto. Ou não acreditam em mim? Pois! Pior que, pra variar, o infeliz estava bêbado.
Bião não falou uma nem duas e foi direto para a cervejeira. Pegou uma piriguete, tomou-a de uma golada e abriu o protocolo da maledicência com a irritante segunda pessoa.
Já vi cerveja melhor nessa geladeira. Legal, primo. Vais me chamar para a inauguração, não vais?
Sim, é claro, respondi, armando-me de paciência, preparando-me para os por quês. Bião gosta de me azucrinar com o interrogativo por que. Pronuncia-o com
tanta má-educação, tamanho sotaque depreciativo, que deixa a arrogância olhando pros lados, a procura de um buraco pra se socar. É a forma indireta de me chamar de burro. No mais das vezes, dou sonoro pqp e mando-lhe educado vtnc. Hoje, porém, encontrou-me de pachorra.
O sujeito passa um tempão planejando a coisa, a compra dum carro, por exemplo, aí chega um bucéfalo e lhe joga um “por que não comprasse carro tal? É bem mais econômico”.
Foi de burro que o Bião me chamou:
Por que compraste um churrasqueira, primo? Minha irmã mandou fazer uma...
Porque.
Bião ficou sério, mas caindo na risada por dentro. Tenho certeza disso.
Por que não fizeste o piso de porcelanato? Um amigo meu...
Porque.
Aí o peste deu uma escapadinha da obra:
Em quem vais votar pra presidente, primo?
Tô pensando, Bião. Procuro um candidato que não tenha certos costumes.
Não vais achar, primo. Todo mundo tem costume. Eu, tu, a torcida do Fluminense... O que procuras para presidente é um bom nome, primo.
Certos. Falei certos costumes, Bião.
Certos, errados, determinados, bons, maus, ilícitos, éticos, profanos, castos e por aí vai. Todos temos costumes, firmamos jurisprudência. Bote isso na cabeça, primo.
Você tá bêbado, Bião.
É? Escuta só. Deixaste de fumar maconha e cheirar um pozinho?
Quê? Tá maluco? Nunca fui dessas coisas. Você sabe disso, Bião.
É lógico que sei, primo. Tens o costume de não fumar maconha, de não cheirar cocaína, de não roubar, de manter gelada uma cervejinha para as visitas, de nos servir gostosa galinha caipira, de frequentar a igreja aos domingos e por aí vai. Nasceste com essas coisas, primo, ou foste pegando o costume?
Homem!
Ora, homem! O que procuras é um bom nome para presidente, repito.
Acho que é isso mesmo, Bião. O que acha do Haddad, o terceirizado do Lula?
Péssimo nome, primo. O cara tem muito “d” no nome. Se chegar à presidência vai ficar cheio de dedos. Se o Lula, que tinha menos dedos, deu no que deu, imagine...
E o Bolsonaro?
Tá maluco? Um presidente, cujo nome começa com bolso? Só tu mesmo, primo.
O Meireles, então.
O Meireles não, pelo amor de Deus. De novo, a mesma linha do Bolsonaro. O nome do Meireles é Henrique, primo. Sempre foste ruim de verbo, mas te pergunto. Sabes qual é o imperativo afirmativo de enricar? Enrique. Enrique ele, entendeste?
Então nem vou falar do Boulus, Bião, porque...
É bom, primo. É outro nome sem futuro. O que esperar dum presidente de nome Boulus? Bolo, né, não?
É verdade, Bião. O cabo, o Daciolo, seria um bom nome, não?
Esse? Nome de xarope de gripe, primo. Tome uma dose de daciolo três vezes ao dia. Nossa! De mais a mais, está provado que presidente terceirizado é uma roubada, primo.
            Mas o Daciolo não é terceirizado, Bião.
            Não é? Terceirizado de Deus, primo. De cada três falas, uma é o “Glória a Deux”. E “Deux me mandou”. Nunca ouviste?
Tá difícil, Bião. A Marina, o Ciro, o Amoedo, o...
Para, primo, pediu ele, indo buscar mais uma cerveja. Sabe o que acontece, ao menos comigo? Não voto apenas pelas propostas, até porque tenho claro que são propostas lorotas. Analiso outras variáveis, meu irmão. Preciso ter empatia com o candidato, preciso de alguém que não me deixe na mão nas horas incertas, preciso que role alguma cumplicidade, entendeste? Dos nomes que falou aí... Marina, por exemplo, apesar do radical Mar, é muito sem sal. O Ciro, pelo contrário, tem muito sal. O Amoedo vem de amoedar, quer dizer transformar em moedas, monetizar, essas coisas. Tenho minhas restrições a esses nomes, primo. Não acho bons nomes, na verdade.
Quem abarrota seus requisitos, então?
Meu candidato, meu nome é o Álcool em Mim, primo.

Outubro de embriagadíssimas eleições,
TC, o abstêmio.