sábado, 20 de outubro de 2018

O NOVO PRESIDENTE DO BRASIL



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O NOVO PRESIDENTE DO BRASIL

O homem acomoda-se estrategicamente no bar do hotel. Joga iscas de observação. Quem chega ao hotel cai na malha dele. É bom nisso. É seu esporte preferido. Em minutos, é capaz de dar um parecer sobre qualquer indivíduo. Acerta com impensável precisão: esse é vendedor, aquela é servidora pública, aquele é médico, aqueloutro, advogado.
É preciso higienizar a mente, minha nobre Eileen, diz ele, quando a namorada caçoa da mania.
O homem está no Mandala Hotel Berlin. Espera a amante. A moça tinha ido ao Mall Of Berlin. O homem não gosta de Shopping Centers, daí ter preferido esperá-la ali. Almoçariam e viajariam para Hamburgo, onde residem. Vieram visitar parentes da namorada. Ele aproveitou para votar, até porque as redes sociais alertavam para problemas nas urnas eletrônicas do consulado brasileiro em Hamburgo.
O homem não é um homem comum. É gênio da comunicação, do disfarce, da escrita.
O homem não comum escreveu apenas um livro, mas que só perde em vendas para a Bíblia. Especialista em comunicação de massa e internet, o homem vive mundo a fora criando sucesso para empresas e para candidatos a cargos públicos. O primeiro trabalho na política partidária se deu aos dezesseis anos, quando concebeu o Caçador de Marajás, em 1989, na eleição do Collor, que viria a ser presidente do Brasil. Já o último trabalho foi eleger o presidente francês, o Macron. Trabalho de cunho remunerado, diga-se, posto ter dado uma canja para o Witzel chegar ao segundo turno na eleição de governador do Rio de Janeiro. Puro diletantismo, visto o próprio candidato desconhecer a benfazeja providência.
O homem não é um homem comum. Tem o privilégio de mexer nos acontecimentos. No mais das vezes viajando no porvir, mas não raro recolocando a verdade nos equívocos. Detém tamanho poderio mental, que preferiu viver no anonimato, haja vista a abundância de assédios a que diuturnamente era submetido. Apenas a amante alemã (tem amante em todo os lugares), a administradora de sua agenda literária e econômica, tem noção de seu poder mental e intelectual. Noção, sim. Simples noção é o sintagma exato, mesmo ela testemunhando o namorado levantar uma falida empresa de refrigerante com a simples frase: “E já provou o novo”? Simples noção, ainda que ela tenha ficado sem internet por duvidar dele:
“Tudo originado do homem é mutável, nobre Eileen. Tudo pode ser negociado, tudo pode ser alterado, tudo pode ser desfeito. Você pode desfazer um relógio dando-lhe marteladas, ou desfazê-lo peça a peça. Então, posto a internet ter sido feita, desfeita pode ser. Não com marteladas e sim com o desmonte pecinha a pecinha. Como todas as coisas, basta saber bulir no seu Padrão Básico (PB) para as funções serem desmoronadas, tais quais pedras de dominó entre si escoradas”.
Falou assim o homem
após retirar do ar a internet (e reativá-la meia hora depois) duma cidade alemã, já que a Eileen teimava em mexer no celular, mesmo quando, rindo, ele a ameaçava deixá-la sem internet.
"Ich glaube nicht, ich glaube nicht, ich glaube nicht", ficou repetindo a alemãzinha boca-aberta.
Não é um homem comum o homem que tira a internet do ar. Daí o cuidado com a segurança pessoal.
Não é um homem comum o homem que mantém chamego com a intuição e é sócio do interesse e do contexto nos negócios da vida. Daí o cuidado com a higiene mental.
“Se os humanos escovassem a mente na intensidade em que escovam os dentes, eliminariam muitas cáries de informação. Sem esforço algum, mastigariam, por exemplo, a salada de sentimentos englobados nas palavras interesse e contexto - as mais significativas da linguagem universal. Tal rotina reduziria bastante as banais desavenças do cotidiano, minha nobre Eileen”.
O homem não comum é um escritor brasileiro de quarenta e dois anos. Reside em Hamburgo, Alemanha, com a assistente e namorada, a Elieen. Escritor, não. Intuitor hiperfísico, autodenomina-se. Intuitor hiperfísico porque acessa estados mentais alheios e os altera a seu bel-prazer.
O homem incomum chama-se Abraão e usou o pseudônimo Bião para escrever o best-seller Intuitor Bião, um Homem de Palavra (Editora Protexto).
É hora de oferecer simplicíssima amostra de como funciona a mente do incomum Abraão. Antes, permitam-me um parágrafo de contexto. Conceito, aliás, bastante usado pelo Abraão.
Então, a uma semana da eleição presidencial no Brasil, a Eileen recebeu a Sra. Jilvanete, assessora do candidato Haddad. Negociaram um contrato de vinte milhões de reais, no qual o Abraão se comprometia a eleger o Haddad no segundo turno. Caso não ganhasse no primeiro, por óbvio. Mas, igualmente por óbvio, o Haddad já antevia a derrota. Não tinha nada a perder o candidato, já que o Abraão tem por norma devolver os recursos na hipótese de revés do candidato. Negociaram, porém a quitação do valor (e a assinatura do contrato) ficou marcado para a segunda feira, oito do dez, no Brasil, em Natal, torrão natal do Abraão, num hotel a ser definido.
Bom, o Abraão almoçava e dava orientações a assistente:
Escuta, nobre Eileen. O Bolsonaro deve nos procurar, apesar de ganhar no primeiro turno. Elabore um contrato pra ele. Faça um copiar/colar do contrato do Haddad e pronto.
Quê? Como assim, Abraão. Não já fechamos com o Haddad? Tudo bem que, por precaução, é normal o ganhador do primeiro turno nos sondar, mas nunca aceitamos sequer um trabalho. Jamais pusemos nossos honorários em leilão, meu querido. Não estou entendendo. Ou é mais um de seus mistérios?
Abraão riu e comentou:
Fique tranquila, nobre Eileen. Quero apenas conversar com os dois representantes juntos, criar um contexto de confronto, embora afável, espero.
Conversar com eles? Essas tratativas não são sempre comigo?
Dessa vez o comando será meu, minha nobre. O plano é o seguinte. Fale com a Sra. Jilvanete, desmarque a reunião de amanhã e diga que depois dirá a nova data. Mas a tranquilize: informe que estou elaborando o episódio que fará o Sr. Haddad ganhar a eleição.
Outra coisa. Marque o encontro com o assistente do Sr. Bolsonaro, que deve nos procurar de amanhã pra depois, para a segunda-feira, dia quinze, às três horas da tarde, no Rifoles Praia Hotel, em Natal. Em seguida, combine o encontro com a Sra. Jilvanete para o mesmo horário, no Serhs Natal Grand Hotel. Eu e você ficaremos hospedados no Ocean Palace Beach. Não leve a mal, mas já fiz a reserva. Serei o Sr. Heleno e você a Sra. Helena.
Sabe, querido, nunca vou entendê-lo. Por que implicar três hotéis?
Não quero correr o risco de os dois representantes se encontrarem antes da conversa comigo.
Com você? Essas tratativas não são sempre comigo? Sabia que existe WhatsApp, e-mail, celular? Por que não usar um desses facilitadores e acertar o encontro para o nosso hotel, o Ocean?
Porque o risco de se encontrarem permaneceria, a menos que marcássemos o encontro para horários distintos. Déssemos um intervalo de meia hora, digamos assim, entre um e outro. Nesse caso, porém, um deles teria de ficar esquentando cadeira durante os minutos desse intervalo. E detesto fazer alguém esperar, sabe disso você. Demais, por uma questão de civilidade, porquanto o contato físico é ótimo sinal de interesse, minha nobre. Por isso, você deve estar às três horas no hotel da Sra. Jilvanete. Pede desculpa pelo transtorno e a leva para a nossa suíte no Ocean. Procederei de igual forma com relação ao assessor do Bolsonaro, apresentando-me como adjunto do Abraão. Pelos meus cálculos, devo chegar ao Ocean dez minutos antes de você. Estamos entendido, minha nobre?
É claro. Enquanto fico aqui para me encontrar com o bolsonarista, você fica numa boa em Natal, certamente se encontrando com as brasileirinhas. Viaja para o Brasil de madrugada, não?
Sim. É a vida. Contextos circunstanciais, nobre Eileen.
E assim foi. Não com dez minutos, mas com onze minutos a Eileen e a Jilvanete chegavam à suíte. O broche “Haddad Presidente” na blusa da mulher alfinetou a desconfiança do Sr. Erivan, o preposto do Bolsonaro:
Que é isso? O que essa comunista faz aqui, Sra. Eileen?
Eu é que pergunto. O que esse aprendiz de ditador faz aqui, Sra. Eileen?
Ditador, não. Seu candidato é quem é aluno do Maduro e...
Ficaram uns dez minutos trocando farpas. Impassíveis, o Abraão e a Eileen não falavam uma nem duas. Mas a Eileen sabia que o Abraão estava se falando por dentro, divertindo-se. Até que se deu por satisfeito. Foi duro:
Sr. Erivan e Sra. Jilvanete, por favor.
Meu nome é Abraão. Certamente...
Quê? O senhor é o homem que sabe de tudo? Nossa senhora. Que honra!
Não sei de tudo, Sra. Jilvanete. Apenas desenvolvi certos poderes. Foto não, por favor.
Agora escutem-me, por gentileza. Certamente não conhecem os escritos do filósofo Bertrand Russel. Ele adorava esta frase. “Os homens nascem ignorantes e não estúpidos. Para se tornarem estúpidos, são necessários muitos anos de educação”. Pergunto: precisaram de quantos anos?
Sabem o adjetivo para quem se porta com descortesia, incivilidade? Estúpido, senhores - permita-me a redução gramatical para o gênero masculino, Sra. Jilvanete. Os senhores são adversários, não inimigos. Não custa nada abandonarem a criancice e se cumprimentarem. E não se atracarem verbalmente. Pensar é penoso. Do contrário, os senhores teriam concluído que só estamos juntos porque assim eu quis.
Mas imagino que mente oca e deseducação sejam atitudes herdadas de seus líderes, inconsequentes que são. Quer um exemplo, Sra. Jilvanete? Não se deve brincar com as palavras, senhores. E seu líder, senhora, foi irresponsável brincalhão ao espalhar “o nós contra eles”. Expressão de absurda carga mental conflituosa. Isso, Sra. Jilvanete, não é fala de líder. É fala da estupidez. Argamassa para contexto de violência.
E o seu, Sr. Erivan, ao tomar conhecimento de agressões praticadas pelos seus seguidores, disse que lamenta, pede que não façam aquilo, mas que não tem o controle. E arrematou: “O que tenho a ver com isso?”. Isso, Sr. Erivan, não é discurso de líder. É discurso da estupidez. Argamassa para contexto de selvageria.
E não me venham, senhores, chamarem de retórica a falação de seus líderes. Só se for a retórica dos sofistas da Grécia antiga. Na verdade, senhores, o contexto discursivo de seus chefes é irreal e todo na direção de iludir o eleitor, seja com vantagens econômicas, seja com juramentos religiosos, seja com promessas políticas. O nome disso? Sofisma, senhores. A reunião de mediocridade, ridículo, felonia, desfaçatez, hipocrisia, patranha. Reunião, cuja ata foi protocolada no cartório do indiscernimento, situado na rua do analfabetismo.
Indiscernimento, senhores, que abarrota os seus candidatos, não somente nas questões nacionais, mas também no plano mundial. Não enxergam o novo ordenamento internacional. Ordenamento socioeconômico, sociocultural, organizações de controle social, Ongs as mais diversas. É essa turma que sai com a internet, toma uma com a imprensa ativa e forma a mais eficaz governança global. É essa turma que dá aos governantes tão somente o status de administradores. No plano econômico, o mais visível, são as pragmáticas reuniões dos grandes grupos econômicos, dos fundos de investimento e dos agentes correlatos quem ditam as regras do jogo. Mandam, senhores, em razão dos sinais de confiança que recebem. Ou, vale dizer, pelos sinais emitidos pelo resto do mundo. Mas para emitir esses sinais é preciso que o governante tenha a virtude anfíbia. Virtude anfíbia significa o balanceio entre engolir e rejeitar sapos. Em alguns momentos é preciso engoli-los, noutros, rejeitá-los. É ridículo abaixar as calçolas para o capital, assim como é ridículo usá-las muito acima da cintura.
Tínhamos candidatos com esse perfil, mas o descalabro imposto ao país pelo seu líder, Sra. Jilvanete, fez com que muitos eleitores não os enxergassem e vissem a salvação em quem desse um murro na mesa. A esses eleitores não frutifica nenhuma tentativa de convencimento, pois só escutam o que lhes interessa. E o que lhes interessa é a própria opinião, a do murro na mesa. 
Murro desproporcional, é certo. Murro sinalizador de quem não engole sapos. Na contramão, há um candidato extremamente subserviente. Sintoma de grande engolidor de sapos.
Ambos são carentes da virtude anfíbia. Não os deixarei governar o meu país, pois o risco é descomunal.
“Não deixarei?”, indagaram ao mesmo tempo o Sr. Erivan e a Sra. Jilvanete, num tom de voz que deixaria a vergonha doida pra se socar em algum buraco.
Não deixarei, senhores.
Seu candidato, Sr. Erivan, tem ejaculado esbranquiçados fluidos de autoritarismo, de intolerância. Contexto comportamental de quem é incapaz de engolir sapos. 
E o seu, Sra. Jilvanete, tem lançado babados líquidos de submissão, de subserviência. Contexto comportamental de grande engolidor de sapos.
Não me interessa pular nos quadrados ideológicos dos senhores, de maneira que encerro por aqui o desabafo e lhes informo que não vamos pegar o serviço de nenhum dos senhores.
Desculpem, senhores, há um pormenor que tenho de mencionar. É em relação à campanha de seu candidato, Sra. Jilvanete. O Sr. Haddad chamou os brasileiros de idiota. Veja. Começou dizendo que ele era o Sr. Lula e o Sr. Lula era ele. E era mesmo, tanto que o Sr. Haddad se reunia semanalmente com o Sr. Lula. Contudo, mal terminou o primeiro turno, passou-se a dizer independente. A tal ponto de abandonar os símbolos de seu partido, Sra. Jilvanete. Pior, independência sugerida pelo Sr. Lula. É de deixar D. Idiota tachando-se de imbecil ou não? É muito sapo, moça.
É isso, senhores. Gostaria...
Não deu pra se conhecer de que o Sr. Abraão gostaria, pois a TV apresentava a alarmante chamada de edição extraordinária do Jornal Nacional. Willian Bonner noticiava:
Não precisamos votar no segundo turno. O Brasil já tem novo presidente, acaba de informar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A presidente do TSE, ministra Rosa Weber, fará um pronunciamento em instantes. Mas, segundo apuramos, ocorreu uma tremenda falha no sistema de apuração dos votos do primeiro turno. A falha diz respeito aos números dos três candidatos mais votados. Deu-se com os números 17, 13 e 12:
Os votos no número 51 foram divididos por 3 e computados para o número 17. Outra falha aconteceu quando o sistema pegou os votos 51, subtraiu os votos 12 e dividiu por 3, computando-os, portanto, para o número 13.
Feitos os ajustes, o candidato de número 51 obteve 69, 6% dos votos válidos. O novo presidente do Brasil é o candidato de número 51, o Cabo Daciolo.
De queixo no chão, a Sra. Jilvanete e o Sr. Erivan não entenderam o Glória Deus da Eileen:
Ehre Sei Gott.

Outubro eleitoral e democrático de 2018,
TC