sexta-feira, 19 de julho de 2019

A VERDADE, O POÇO E OS DEUSES




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A VERDADE, O POÇO E OS DEUSES

Olá, pessoal,
Quem é vivo aparece, né não?
Li o texto abaixo no facebook da amiga Pollyanna, com comentário da Ednalva, e me deu vontade de aumentá-lo. Coisa de gente besta. Leiam o texto dela e passem os olhos no meu. Ou leiam apenas o dela, é claro.

Segundo uma lenda do século XIX, a Verdade e a Mentira se encontram um dia. A Mentira diz à Verdade: "Hoje é um dia maravilhoso!" A Verdade olha para os céus e suspira, pois o dia era realmente lindo. Elas passaram muito tempo juntas, chegando finalmente ao lado de um poço. A mentira diz à verdade: “A água esta muito boa, vamos tomar um banho juntas!” A verdade, mais uma vez desconfiada, testa a água e descobre que é realmente está muito gostosa. Elas se despiram e começaram a tomar banho. De repente, a Mentira sai da água, veste as roupas da Verdade e foge.
A Verdade, furiosa, sai do poço e corre para encontrar a Mentira e pegar suas roupas de volta.
O mundo, vendo a verdade nua, desvia o olhar, com desprezo e raiva.
A pobre Verdade volta ao poço e desaparece para sempre, escondendo nele sua vergonha. Desde então, a Mentira viaja ao redor do mundo, vestida como a Verdade, satisfazendo as necessidades da sociedade, porque, em todo caso, o Mundo não nutre nenhum desejo de encontrar a Verdade nua.


Acontece que a história não acaba assim, nobríssimas Pollyanna e Ednalva. Sucede que uma galera grega, liderada pelo Sócrates, fez mil e um encontros a fim de resgatar a Verdade. Esse povo era obcecado pela verdade, sabem vocês, não? Resgatar não é bem o termo, já que, na verdade, eles não sabiam que a nossa amiga se encontrava num poço. Portanto, queriam encontrá-la, não a resgatar. Pois bem, num desses panegíricos, chega a Aleteia, a filha mais nova do Zeus. Aleteia, sabe, né, Pollyanna, sabia de tudo. O problema dela era o irmão, o tal de Pseudólogo, vulgo Dolo. O bicho era nó cego. Aqui, acolá, queria passar a perna na irmã. No sentido figurado, entenda, Polly.  Bom, aplausos, beijinhos e a pergunta do Aristóteles:
E aí, Aleteia, dás notícias da Verdade?
É claro, Ari. A Verdade está no Brasil. Numa cidade por nome Natal, num poço chamado Dentão. Local praieiro, perto do Forte dos Reis Magos.
Aleteia deu a informação e detalhou a história que a Pollyanna postou, entendeu, Ednalva?
Logo no Brasil? Misericórdia! Não acredito. Puta que pariu, porra, cacete. Esses foram os palavrões mais palavrinhas, garotas. Eles supunham a Verdade ali pela Grécia, Roma. Naquele entorno, afinal. Sim, a Aleteia narrou o episódio do entrevero da Verdade com a Mentira, mas incorreu em brutal equívoco. Influenciada pelo irmão, o Dolo, é verdade. Aleteia disse que a Mentira tinha sete pernas. Mentira. Na verdade, a Mentira não tem pernas. Tem asas. Mentira voa, gente. Certo é que começa ali o dito de que sete é conta de mentiroso.
Pois muito bem. Os caras, os gregos, gostariam
muito de resgatar a Verdade, mas, numa pindaíba desgraçada, não podiam vir ao Brasil. Filósofos, Pollyanna, vivem sempre lisos. A não ser que sejam também outras coisas, tipo escritor, astrólogo etc. Daí que, por sugestão do Sócrates, passaram a bola para os brasileiros. Bola não, mandaram um zap descrevendo tudo e pediram que os colegas daqui fizessem vir à tona a infeliz Verdade. Nasce desse zap, Ednalva, a expressão “A verdade vem à tona”.
Então o que acontece. O pessoal a quem Sócrates e galera pedem o favor não são filósofos. São deuses da mitologia brasileira: deus Irjá, deus Ogirdor, deus Ovalu, deus Alul, deus Airod e a deusa Amlid. E deuses são diferentes de filósofos, Pollyanna. Filósofo pensa, deus é penso; filósofo é cético, deus e séptico; filósofo é assim, deus é assado. Mesmo assim, os deuses acolheram a missão.
Missão pra lá de nobre, televisão do mundo inteiro noticiando o inusitado, quem não aceitaria? Começam as reuniões, discussões, estratégias. Na quinto encontro, apenas uma definição: a deusa Amlid entregaria as vestes à Verdade. Não cairia bem, afinal, um marmanjo entregar calcinha e apetrechos diversos a uma dama. De mais a mais, a Verdade costuma ser escandalosa. Você tem mais jeito pra isso, Amlid, foi a sentença unânime.
Na sétima reunião, restava definir somente um ponto, Pollyanna: quem entraria no poço para subir com a Verdade. Povinho medroso, viu? A foto seria histórica, mas o medo os imobilizava. Aí o Alul apresentou a salomônica saída:
Vamo (ele tem uma rixa com o s, Ednalva) decidir na porrinha. A gente joga na beira do poço. Quem ficar por último pula nele e sobe com a Verdade.
E assim se deu. Melhor, dar-se-ia. Cinco horas da manhã do dia seguinte estavam na beira do poço. Imprensa isolada, palitos nas mãos, mãos pra trás, queixos batendo, suor frio, e eis que o mundo assiste a um helicóptero pousando. Desce um moço barbudo e se põe a balançar um papel e a gritar: parem, parem, parem. Vinha com a ordem judicial para suspender a operação, Pollyanna. O juiz plantonista do Supremo Tribunal de Factoides (STF) aceitara a tese da Empresa Brasileira de Unificação de Entulhos (Embrulho), segundo a qual os entulhos marinhos só podem ser retirados com dados de localização autorizados pela Justiça. Como a localização da Verdade fora feita com dados compartilhados, a operação estava suspensa, entendeu, Pollyanna? Cancelada definitivamente, aliás, pois havia o agravante de que as informações haviam sido compartilhadas por suspeita associação filosófica do exterior, a Verdades Advindas do Silogismo (Veras).
Vão recorrer, quiseram saber os jornalistas.
Estou me convencendo de que dessa vez a Justiça está certa, respondeu o deus Alul. Respondeu e recebeu vertical e eloquente balançado de cabeça dos deuses colegas.
Terminou assim o imbróglio daquelas duas, Pollyanna. Pelo menos foi o que o Esopo me segredou.

Julho/19
TC

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