domingo, 22 de novembro de 2020

Bate-papo com pretenso casal de leitores

 



De volta, pessoal,

Leiam a apresentação de “Por uma Taça de Vinho”. São três páginas, gente. Vão encarar?

Um abraço,

Tião

 

Bate-papo com pretenso casal de leitores

 

Martinha mostrou o livro a gente, Sr. Tião. A capa é linda. Não vejo o momento de me deleitar com o jantar à luz de velas e de me comover com o tilintar das taças de vinho. Sou incurável romântica, Sr. Tião. Tem jantar, não tem? Por que o senhor não bota o romance nas livrarias para vender em consignação?

Não me levem a mal, Sra. Y e Sr. X, mas julgo melhor entrarmos. Vamos ficar aqui no jardim. Não convém facilitar a tarefa da bandidagem.

Engraçado, Sr. Tião, quando falou maravilhas de seu romance, a Martinha disse que o senhor não era muito chegado a vinho, não, mas o título e a capa do livro desmentem ela. Mas numa coisa a Martinha está certa: o senhor é realmente brincalhão. Por isso não causa surpresa alguma em ficar nos chamando de Sra. Y e de Sr. X.

Fiquei matutando. Parece-me prematuro ver jantar romântico na expressão “Por uma taça de vinho”. Igualmente prematuro concluir que sou chegado a vinho tão somente em razão da capa e do título do romance. Juntei tudo e cheguei à conclusão de que a senhora não era lá essas coisas em percepção linguística. O que me chateou, mesmo, porém, foi ela ter me chamado de burro. Detesto determinados por quês. Sobretudo os de entonações atrevidas. O “Por que o senhor não bota o romance nas livrarias para vender em consignação” chegou-me abarrotado de atrevimento. Mas ficou no cuspe a resposta: “Por que não quero, ora bolas”. Engoli a deselegância, mas cuspi-lhe direta indireta:

Martinha é leitora sagaz. Atributo indispensável para o leitor aferir que não comprou gato por lebre. Tão sagaz que as aparências literárias não a enganam. Martinha está certa, Sra. Y. Sou realmente brincalhão. Agora, tratá-los por Sr. X e Sra. Y não está sendo simples brincadeira. A brincadeira é séria.

Nossa. Brincadeira séria? Pode nos falar o motivo?

Melhor não, Sr. X. Certamente ficarão constrangidos, posto eu precisar contextualizá-lo.

Ficaremos não. Pode falar.

Tem certeza, Sra. Y? Pressinto que vão desconjurar meu livro.

Desconjurar? De onde tirou a absurda palavra, meu amigo?

Quis responder que da Martinha. Martinha, entretanto, deu-me apenas sinais, conquanto tenha usado um termo mais forte: amaldiçoar:

Oi, Tião. Falei de seu romance a um casal amigo. Eles quiseram saber onde comprá-lo e tal. Disse-lhes que apenas o autor estava vendendo o pirado e forneci o seu endereço. São meios avoados, Tião. Pegue leve com eles. Além disso, são castos e... Ah, deixe pra lá. Depois a gente se fala. Acho até, Tião, que vão amaldiçoar o livro. Especialmente na parte em que você mete o reio em certos governantes e chama o nosso maluco de maluco.

Martinha encerrou a ligação e caiu na risada. Agora, ali, na minha frente, a romântica moça me fazia rir. E o conjunto da obra fazia-me dar razão à Martinha. Achei por bem presenteá-los com o livro e assim encerrar a conversa.

Vou apanhar o livro. Presente, tá?

Às vezes, a gente  pensa em fazer um giro e faz um jirau. Fi-lo, como diria o outro:

Obrigada, Sr. Tião. Falar em presente, o presente só ficará completo se nos explicar por que iríamos desconjurar o livro e disser por que está me chamando de Sra. Y.

Não queria esticar a conversa, mas foi o jeito. Tirei a máscara. Mas não a contra o coronavírus. O casal permaneceu com a do peste caindo no pescoço. Com a voz mais amena do mundo, comecei a açoitar verbos:

Então, Sra. Y. Martinha me avisou que viriam aqui. Tomava um cafezinho e olhava as câmaras quando vi um carro estacionando no outro lado da rua. Motorista e passageiro desceram e ficaram olhando para o meu portão. O casal do livro, pensei, indo recebê-los.

Vocês atravessavam a rua e eu soltava um “caramba, meu”. Subiam a calçada e quase esbarravam em duas moças, por distração delas, já que caminhavam se beijando. Num claro gesto de empatia, as moças abriram um sorriso e deixaram vocês passarem. Os dois fecharam a cara e, antes mesmo de me apresentar, vomitaram um “A gente vê cada uma, viu”.

Naqueles segundos, Sra. Y, antessenti que o romance não lhes seria do agrado. A certeza chegou com cinco, seis minutos de conversa.

Nossa, Sr. Tião. Seu romance é assim julgador?

Não é o caso de julgar ou de  criticar. É o de se adequarem ao ideal do romance. Não lhes seria do agrado, pois o livro vai de encontro ao que, em segundos, vocês demonstraram ser. Não custa lembrar, Sr. X, que o senhor é o somatório de suas prioridades. E que o arguto observador soma rápido.

Bom. Imaginem dois carretéis de linha sendo desenrolados simultaneamente. Andando pra trás, alguém vai desenrolando um carretel chamado educação. No lado oposto, alguém desenrola o carretel chamado sexo. Entre os carretéis, garbosa dama supervisiona o trabalho. Competentíssima árbitra de entrelinhas, falemos dessa forma. O nome dessa árbitra é consciência, Sr. X. E “Por uma Taça de Vinho” é a imagem da história, Sra. Y.

Agora vejam a soma. Vocês estacionam o carro e atropelam a imponente árbitra, já que deixam o carro na frente da garagem do vizinho. De mais a mais, usam no pescoço o instrumento protetor e de proteção contra uma pandemia.

Nessas alturas, a consciência, coitada, deve estar inconsciente numa UTI.

Caminhemos, Sr. X. Vocês chegam ao portão censurando a sexualidade de duas mulheres.

Nessas alturas, o boboca do preconceito deve estar nas alturas de uma roda-gigante, ou da gigante roda, espremendo-se de tanto rir.

Vamos em frente, Sra. Y. Estamos nos vendo pela primeira vez, há cerca de quinze minutos conversando, e embora eu tenha dito “Sou o Tião”, vocês nem sequer informaram que eram o casal Tição.

Nessas alturas, e dado o contexto de poucos minutos, a educação deve estar pondo em ordem as letras “e, s, p, i, t, o, u, d”.

Nossa, Sr. Tião, está pegando pesado com a gente, não?

Não, Sr. X. Quem está pegando pesado é a obviedade. O livro é obviedade do começo ao fim. Naturalmente que a imbecil da estupidez fica dando rabanada pra ela.

Voltemos aos carretéis. Veja o da educação, Sra. Y. A senhora sabe quantos milhões de analfabetos existem no mundo? E no Brasil, a senhora sabe, Sra. Y? Segundo o IBGE, no ano passado, 2019, eram onze milhões de brasileiros e brasileiras (como dizia o outro outro), acima de quinze anos, que não sabiam ler e escrever ao menos um ridículo bilhetinho de amor. Como danado esse povo vai viajar na cidadania, pegar carona na consciência e se pendurar no pensamento crítico?  Esse povo tem culpa de ter vindo ao mundo no Brasil? Os governantes que deem seus pulinhos e arrumem um jeito de ir consertando a coisa, né, não?

A babaca da estupidez, Sra. Y, fica fula da vida em razão de o carretel da educação desmascará-la.

Agora, Sr. X, veja o carretel do sexo. Antes, gostaria de fazer uma pergunta aos dois. Como é a vivência de vocês na horizontal? Na cama, pra ser mais reto.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

POR UMA TAÇA DE VINHO

 

                                                                        Imagem google

POR UMA TAÇA DE VINHO

 

Voltei, gente.

Voltei com novidades: uma taça de vinho pra vocês. “POR UMA TAÇA DE VINHO” é o meu novo rebento. Vai estar indisponível nas piores livrarias do mundo. Nas melhores também. E igualmente nas do meio. Só por meio de mim é que podem se servir dela. Taça de cristal, digo logo. O endereço do boteco é tcarneirosilva@gmail.com. Mas está fechado, gente. A chave está com a revisora, a Angélica. Não venham agora. Avisá-los-ei (gostaram?) no momento oportuno.

Por enquanto, tomem três goladas do delicioso. Mas nada impede que o julguem enjooso.

 

PRIMEIRA GOLADA. Começa assim:

 

Acontece na terceira caipirinha, no Boteco 891, em 2010:

Silvana põe o copo na mesa, suspende o blá-blá-blá e fixa-se em mim. O olhar é só insolência.

Vem coisa aí, pensei, acionando a prudência verbal. Prevenção que me acompanha desde a adolescência. Conselho de minha avó materna:

Escute, meu lourinho danado. Não corte a palavra de ninguém e demore uns segundinhos para se pronunciar. Além de manifestar respeito, está dizendo ao interlocutor que aquilo que vai falar não será de afogadilho. Sobretudo se o falante for mulher. Mulher odeia ser interrompida e adora o homem que a escuta olhando nos olhos.

Sabe, TS, somos apenas bons amigos, então eu...

Silvana deve ter notado o rascunho de sarcasmo no meu rosto, tanto que deu uma titubeada na voz. Percebi bem a reprovação no olhar dela. Mais uma vez, por isso o rascunho, os conselhos da vó batiam com a realidade:

Quando, do nada, uma mulher lhe disser que “somos apenas bons amigos”, entenda a frase como declaração amorosa. É que mulher é pragmática. Ela fala isso se estiver percebendo que você não a quer. Seja porque não a quer mesmo, seja porque amá-la não pode. Então ela usa o pragmatismo como proteção sentimental, uma espécie de autoengano. Falei “do nada”, meu lourinho, porque se uma mulher falar os “bons amigos” num contexto de romântico assédio, tudo leva a crer que ela o veja como apenas bons amigos mesmo. Digo tudo leva a crer, porquanto, mulher, além de pragmática, é...

 

SEGUNDA GOLADA. Lá pras tantas:

 

Dez pra tudo o que falou, meu homem. Você é mil em sexo. E não apenas falando.  Eu também sou mil, não sou? Na teoria, por enquanto. Agora, nunca encontrei a resposta para a pergunta que vivo me fazendo. Desde os anos de exilada. O que faz o sexo ser superpoderoso? Como se explica a extrema perfeição do ato sexual? “Devido ao extremado prazer que proporciona”. Isso é o que leio por aí. Chamo “isso”, meu homem, porque isso não é resposta. Porra! Prazer é consequência. E o que eu quero é a causa. Por que o peste é tão eficiente? Já se fez essas perguntas, meu homem?

Engraçado, há dois minutinhos você pronunciou uma palavra que entra no contexto da resposta, Sylvia.

Como é? Entra no contexto?

Tenho a resposta, Sylvia.

Ah, meu pai. Meu nome é Sylvia Ouvidos das Ouças. Vou até me sentar no seu colo. Fale, fale.

O poder do sexo, Sylvia, vem do fato de a cópula ser a única atividade humana realizada sob delegação de competência para o interesse e para o egoísmo. O sexo pede que os humanos deleguem todos os poderes a esses dois atributos. Delegam entre si. Simultaneamente, por óbvio. É uma prova de confiança entre os copuladores, Sylvia.

Minha nossa. Delegação de competência. Prova, confiança. O que é isso, meu homem?

Entenda, linda. Interesse e egoísmo. Atributos pessoais, costumam andar juntos, certo? O interesse pode ser delegado. Para um advogado, por exemplo. O egoísmo, não. Ninguém pode ser egoísta no lugar de ninguém. O que fez o sábio sexo? Delegou os dois atributos, já que, delegado o egoísmo, o ego ficar zerado dele. E ele, o egoísmo, delegado que foi, ficar inoperante na mente alheia. O egoísmo fica perdidão. Fica no mato sem cachorro, está compreendendo?

Mais ou menos. Continue.