segunda-feira, 9 de novembro de 2020

POR UMA TAÇA DE VINHO

 

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POR UMA TAÇA DE VINHO

 

Voltei, gente.

Voltei com novidades: uma taça de vinho pra vocês. “POR UMA TAÇA DE VINHO” é o meu novo rebento. Vai estar indisponível nas piores livrarias do mundo. Nas melhores também. E igualmente nas do meio. Só por meio de mim é que podem se servir dela. Taça de cristal, digo logo. O endereço do boteco é tcarneirosilva@gmail.com. Mas está fechado, gente. A chave está com a revisora, a Angélica. Não venham agora. Avisá-los-ei (gostaram?) no momento oportuno.

Por enquanto, tomem três goladas do delicioso. Mas nada impede que o julguem enjooso.

 

PRIMEIRA GOLADA. Começa assim:

 

Acontece na terceira caipirinha, no Boteco 891, em 2010:

Silvana põe o copo na mesa, suspende o blá-blá-blá e fixa-se em mim. O olhar é só insolência.

Vem coisa aí, pensei, acionando a prudência verbal. Prevenção que me acompanha desde a adolescência. Conselho de minha avó materna:

Escute, meu lourinho danado. Não corte a palavra de ninguém e demore uns segundinhos para se pronunciar. Além de manifestar respeito, está dizendo ao interlocutor que aquilo que vai falar não será de afogadilho. Sobretudo se o falante for mulher. Mulher odeia ser interrompida e adora o homem que a escuta olhando nos olhos.

Sabe, TS, somos apenas bons amigos, então eu...

Silvana deve ter notado o rascunho de sarcasmo no meu rosto, tanto que deu uma titubeada na voz. Percebi bem a reprovação no olhar dela. Mais uma vez, por isso o rascunho, os conselhos da vó batiam com a realidade:

Quando, do nada, uma mulher lhe disser que “somos apenas bons amigos”, entenda a frase como declaração amorosa. É que mulher é pragmática. Ela fala isso se estiver percebendo que você não a quer. Seja porque não a quer mesmo, seja porque amá-la não pode. Então ela usa o pragmatismo como proteção sentimental, uma espécie de autoengano. Falei “do nada”, meu lourinho, porque se uma mulher falar os “bons amigos” num contexto de romântico assédio, tudo leva a crer que ela o veja como apenas bons amigos mesmo. Digo tudo leva a crer, porquanto, mulher, além de pragmática, é...

 

SEGUNDA GOLADA. Lá pras tantas:

 

Dez pra tudo o que falou, meu homem. Você é mil em sexo. E não apenas falando.  Eu também sou mil, não sou? Na teoria, por enquanto. Agora, nunca encontrei a resposta para a pergunta que vivo me fazendo. Desde os anos de exilada. O que faz o sexo ser superpoderoso? Como se explica a extrema perfeição do ato sexual? “Devido ao extremado prazer que proporciona”. Isso é o que leio por aí. Chamo “isso”, meu homem, porque isso não é resposta. Porra! Prazer é consequência. E o que eu quero é a causa. Por que o peste é tão eficiente? Já se fez essas perguntas, meu homem?

Engraçado, há dois minutinhos você pronunciou uma palavra que entra no contexto da resposta, Sylvia.

Como é? Entra no contexto?

Tenho a resposta, Sylvia.

Ah, meu pai. Meu nome é Sylvia Ouvidos das Ouças. Vou até me sentar no seu colo. Fale, fale.

O poder do sexo, Sylvia, vem do fato de a cópula ser a única atividade humana realizada sob delegação de competência para o interesse e para o egoísmo. O sexo pede que os humanos deleguem todos os poderes a esses dois atributos. Delegam entre si. Simultaneamente, por óbvio. É uma prova de confiança entre os copuladores, Sylvia.

Minha nossa. Delegação de competência. Prova, confiança. O que é isso, meu homem?

Entenda, linda. Interesse e egoísmo. Atributos pessoais, costumam andar juntos, certo? O interesse pode ser delegado. Para um advogado, por exemplo. O egoísmo, não. Ninguém pode ser egoísta no lugar de ninguém. O que fez o sábio sexo? Delegou os dois atributos, já que, delegado o egoísmo, o ego ficar zerado dele. E ele, o egoísmo, delegado que foi, ficar inoperante na mente alheia. O egoísmo fica perdidão. Fica no mato sem cachorro, está compreendendo?

Mais ou menos. Continue.

Funciona assim. Que tal eu e você como exemplo? Em que estamos interessados? No orgasmo, certo? Então eu lhe delego o interesse de ter orgasmo. E você me delega o interesse de ter orgasmo. Estou nas suas mãos e você nas minhas, trocando em miúdos. Está entendendo agora, minha delegada?

Estou. Beleza. E o egoísmo? Por que foi delegado junto com o interesse?

Por precaução. Sabedoria do sexo, Sylvia. Se o meu egoísmo tivesse ficado em mim, talvez eu não conseguisse fornecer orgasmo a você, dada a preocupação em me satisfazer antes. Mesmo procedimento de você em relação a mim, certo de novo? Egoísmo é egoísmo, não é, linda? É o que acontece na solitária cópula da masturbação. O sexo fornece o orgasmo, mas, de posse do egoísmo, o masturbador ou a masturbadora fica incapaz de repassá-lo a quem de direito. A rigor, na cópula saudável e espontânea, eu e você somos tão somente pedaços de carnes famintas. Ficamos zerados de discernimentos, porquanto a atividade mental ter se afastado levando a tiracolo egoísmo, interesse, sobrosso, ponderação. A única coisa que ela não leva, Sylvia, é o instinto. Até porque o instinto é o guia da viagem.

Em resumo. Não há um pingo de egoísmo numa cópula. Pelo contrário. Altruísmos gotejam do começo ao fim. Os copuladores sabem que sentirão o supremo prazer, mas não copulam pensando em si. Doam-se por completo com a exclusiva ideia de satisfazer o outro, de ver a expressão de júbilo do comparte. Entregam-se de corpo e alma com o objetivo de escutar sons ininteligíveis. Pertencimento total. A sua palavrinha, Sylvia.

Como reforço, Sylvia: o que mais quero foi delegado a você, da mesma forma que foi delegado a mim o que você mais quer. Não pode dar errado. São Francisco pegou o corolário da ideia e propagou o “É dando que se recebe”. Genial, não?

Genialíssimo. Mas me fala. Desculpe a advocacia sacana. Não pode dar errado, disse você. Mas às vezes dá. Por quê?

 A delegação de competência é um pacto, Sylvia. Os copuladores precisam cooperar. Se um deles, ou os dois, não cooperar e ficar com uma nesga de egoísmo, por exemplo, a operação tenderá ao insucesso, pois o sexo não pode obrigar ninguém a nada. Daí o lugar comum: sexo pode muito, mas não pode tudo. Beleza?

Beleza. Pra encerrar, meu homem: como sabemos que a delegação de competência vai funcionar? Ou que esteja funcionado?

Por sinais. O homem mostra anomalias anatômicas visíveis a olho nu. Os sinais da mulher são mais sutis e diferenciados. Vejamos você. Ainda que não estivesse me chamando de meu homem, a respiração pesada...

Pausei e ri. Sylvia não é de deixar barato certas coisas. Esperava a sorridente réplica mais ou menos nestes termos:

OK, meu homem. Agora a pergunta que não quer calar, Conselheiro Acácio. Por que não há egoísmo numa transa?

Estava pronto para responder:

Em razão da ancestral cultura do pertencimento e da herança social advinda, quiçá, de Adão e Eva. O primeiro sexo, porque celestialmente orientado, há de concordar, Sylvia, deu-se na linha da desambição.

Depois da primeira:

Como se faz isso?

Assim, ó. Posicionem-se, só pensem no outro e encostem os beiços nos beiços do consorte. Beleza! Isso, isso, isso; desse jeito, desse jeito, desse jeito; assim mesmo, assim mesmo, assim mesmo. A partir dos ensaios coletivos, a coisa caiu no leito do costume e foi passando de geração a geração até chegar a você e a mim, Sylvia. Costume é a palavra resposta.

Sylvia, entretanto, nada perguntou. Entregava os pontos. Não raciocinava, pensava somente naquilo. Desfez-se do roupão e tentou me botar nos braços. Não podia comigo. Mas pude com ela. Caminhávamos pra cama, ela sussurrava:

Odeio egoísmo e abomino egoísta, meu homem.

Não demorou muito e estávamos gaguejando:

Delegação de competência dez, minha delegada.

Operação realizada com sucesso, meu delegado.

 

 

TERCEIRA GOLADA. Lá pras tantas das tantas:

 

Antes me tire uma dúvida. Faça o seguinte, seu esquadrinhador. Não é bem dúvida, mas... Bom, pegue lápis, papel e escreva três palavras que, no seu julgamento, é claro, mais representam a vida em sociedade. Três palavras, cujas vísceras vivam transportando sentimentos de distintas gradações. Três palavras de cujas seivas ninguém passa ileso. Escreva, afinal, as três palavras mais importantes da língua portuguesa. Língua portuguesa já que no Brasil estamos, mas a importância se equivale em todas as línguas.

Você escreve em português e eu em espanhol. Precisa de tempo ou já pode escrever, Antônio?

Tenho as três na ponta da língua. Quer apostar um cacho de pitombas como nossas respostas serão coincidentes?

 

 




Um comentário:

Tião Carneiro disse...

Teste na nova plataforma..