Imagem Google
O DESUMANO
Estamos sozinhos. Eu no sofá, ela
na cadeira de balanço. Eu de olho nela, ela de olho em mim. De pernas cruzadas,
ela mostra o véu branquinho adornando a espevitada rainha. De pernas descruzadas, mostro a oculta coroa
do buliçoso rei. Só desvio a visão por dever de ofício: beber encantamento. Ela
só a desvia por involuntária obrigação: bebericar vinho. Ela enfeitiça pelo
fogo do corpão. Eu prendo pela fumaça da ilusão. Ela é médica e poeta. Eu dou
trabalho a médicos e distraio poetas.
Acabávamos de chegar do lançamento
de um livro. A discussão começara lá. Por quê? Do nada. Ela sempre foi assim,
mas ultimamente está impossível. Do nada, costuma vir com tudo pra cima de mim.
Mas do nada fica boa e vem pra cima de mim com tudo.
Ela alisa um isqueiro com formato de
caneta, fita-me de forma pidona e afasta os ruivinhos da testa.
Vejo nesses sinais a certeza de que
ela está súper a fim, embora se expresse raivosamente. Estava careca de
assistir àquele filme. Contradição é de sua natureza. Jogou-me na cara:
Disse que eu não fazia a menor
noção do que era amor, que
eu era tão só e simplesmente um aproveitador e que seria
incapaz de amar alguém.
Dei uma de ofendido, mas no íntimo
dei-lhe razão. Insensibilidade é de minha natureza. Joguei-lhe na cara:
Afirmei que era ela quem se
aproveitava de mim, que quando menos eu esperava ela me escondia das colegas,
como se leproso, e que ela sempre manteve um pé atrás com relação ao nosso relacionamento.
Você tem vergonha de mim. Tem ou não tem?
Ela admitiu o comportamento
reservado e confessou que em algumas ocasiões se sentia incomodada com a minha desenvoltura,
que eu me aproveitava disso para jogar fumacinhas sedutoras em suas amigas e
que as incautas terminavam se incendiando da erótica vontade. Você quer pegar
todas. Quer ou não quer?
Disse que era mulherengo, sim, que amigas
dela me pegavam, sim, mas que só algumas, posto a maioria viver tapando o nariz
pra mim.
E apelei. Você sabe disso, pois não
faço nada escondido. Ao contrário do que certa pessoa faz com um tal de Don Porfírio.
Ela sentiu o golpe. Empalideceu e tentou
fugir pela tangente.
Afastei-lhe o ponto mentiroso assim:
e faz tempo que o cara é seu amante, viu, doutora?
Ela molhou os olhos, disse que já
largara o Porfírio, que fora imatura, que o Porfírio era muito forte, que a deixava
sufocada, que a deixava de peitos doloridos, que a deixava de garganta irritada,
que, que e que. Por fim, pediu perdão.
Perdoa-me? És o meu gostosão, és
quem me alivia, és quem me dar prazer, és quem...
Cortei o rosário de “quem” com filosófico
discurso.
Não lhe dou prazer. Dou-lhe
sensação prazerosa. Prazer é intransferível, é único, é divino, é individual.
Igual a muita gente, você confunde sensação prazerosa com prazer. Confunde
consequência com causa. Orgasmo não é prazer. É sensação prazerosa. O orgasmo
não é a causa de alguém transar com alguém. É a consequência disso. A causa,
razão de ser, é o prazer. A prova? A espécie humana. A sensação prazerosa fica
pulando de galho em galho, a exemplo de você e Porfírio. Mas o prazer fica. Se não ficasse, a
efemeridade da sensação prazerosa, a rotina do ato e o livre-arbítrio dos
atores fatalmente adormeceriam o apetite sexual. E daí para a extinção da
espécie seria um pulo.
Por mais que goste de futebol, de peças
teatrais, do calorzinho do álcool, pode chegar o momento de o indivíduo
cansar-se dessas coisas e abandoná-las. Abandona porque o que sentia era
sensação prazerosa e não prazer. Como disse, o prazer é único e exclusivo do
sexo.
Ela não esperava o arroubo
filosófico, de maneira que se limitou a deixar o queixo caído. Cansado de sua
oscilação de humor, cheio daquela cara trombuda, como se fosse eu a causa dos
dissabores dela, aproveitei para impingir-lhe insensibilidade.
Só quero quem me quer, querida.
Ao contrário de você, não faço o
menor esforço para que alguém fique comigo.
Ao contrário de você, não cultivo o
temor de não ser aceito por me diferenciar dos outros.
Ao contrário de você, sinto-me envaidecido
por ser poderoso.
Veja, querida, estava por sentir toques
mais carinhosos que os seus. Seu embevecimento por mim é de injetar ciúme em
qualquer mortal. Suas chupadas, então! Mas...
Como assim estava por sentir? E por
que o suspense?
Sapequei-lhe escandalosa mentira. Fui
desumano:
Ia lhe dizer amanhã, mas o momento
é oportuno. Aconteceu ontem, num boteco. Experimentei toques dez mil vezes mais
carinhosos que os seus e conheci lábios de sugadas infinitamente mais gostosas
que as suas. Você pode me largar agora, querida.
Então, em prantos, ela perguntou o
nome da piranha:
Como se chama essa piranha, essa, essa,
perguntava, caminhando para o sofá. Perguntava-me, agarrava-me, chamava-me de
mentiroso e dizia que eu queria desestabilizá-la emocionalmente.
Fiquei na minha. Imobilidade é de
minha natureza.
Ela não conseguiu ficar na dela. Instabilidade
é da natureza dela.
Ainda não havia chegado a hora de a
Dra. Glorinha largar o cigarro.
&&&
Certo é que a Dra. Glorinha levou a carteira de cigarros para a cadeira de balanço, abriu-a, tirou um cigarro e o acendeu. Trêmula, o isqueiro quase lhe queimava o polegar.
Certo é que a Dra. Glorinha levou a carteira de cigarros para a cadeira de balanço, abriu-a, tirou um cigarro e o acendeu. Trêmula, o isqueiro quase lhe queimava o polegar.
Fumou dois cigarros em dez minutos.
Alternando-os com vinho, naturalmente.
ô vício danado o tal do tabaco, viu?
Novembro/16
TC
Nota: Don Porfírio é uma marca de
cigarrilha.
Nenhum comentário:
Postar um comentário