terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Ponto nos is e ponto parágrafo

 


Palavras - 10 e 12 da manhã, tomo um cafezinho, acendo um cigarro, ligo o notebook: o parceiro trava. Fumante passivo, meu sócio costuma me cancelar nesses momentos. Levanto-me da rede e vou pegar o jornal, a Tribuna do Norte. Volto: o parceiro está solto. Dou uma corujada na Folha e no Estadão, entro no Instagram e encontro Fernanda Torres falando das sandálias havaianas, enquanto, abaixo, nos comentários, picuinha e narrativa disputam uma partida de imbecilidade apitada pelo patético. Dou uma rolada na tela, aparece o deputado federal Sóstenes Cavalcante. O deputado fala da bufunfa de 430 mil reais encontrada no apartamento dele. Papel-roteiro na mão, o deputado gagueja a explicação: a bufunfa viera da venda de um imóvel. “Minha Nossa Senhora”, escuto dos botões, ao ouvirem etcetera e tal como base para explicação. Entro nos comentários do vídeo e me deparo com o que está me fazendo escrever estas tolices. Curtinho o comentário: “É só pôr o pingo nos is e veremos que o deputado acha que somos pacóvios”. Desconheço o vocábulo pacóvio, mas o contexto me leva

Como nasceu o sinal que mudou a história

 


Dois carpinteiros, numa pequena oficina não muito longe do Templo, estão aplainando duas peças de madeira. Uma delas é maior do que a outra. A encomenda fora feita por alguém do palácio de Pilatos.

Os dois operários trabalham em silêncio, com suas ferramentas: a lâmina de ferro dentado para serrar, a lâmina polida para aplainar. Pouco depois, colocaram uma das peças cruzando com a outra.

Antes do meio-dia, virão buscar aquele instrumento de tortura e ignomínia, no qual deverá morrer um condenado de última hora. Na véspera, haviam entregue duas encomendas iguais para que nelas morressem dois ladrões, um de Jerusalém, outro de Samaria.

O trabalho termina: a cruz está pronta. Deixam-na do lado de fora, é um objeto que não será roubado por ninguém. Os judeus nem sequer a tocariam, sabiam

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Jakeline Santiago+Voltaire+Dostoiévski+Nietzsche+Garagem

 


Que título esquisitão é esse, gente? Vou explicar a esquisitice.

Jakeline - escritora potiguar. Voltaire – escritor e filósofo francês. Morreu em 1778. Dostoiévski – escritor e filósofo russo. Morreu em 1881. Nietzsche – escritor e filósofo alemão. Morreu em 1900.

Pensamento marcante do Voltaire: “Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo”. Pensamento marcante do Dostoiévski: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. Pensamento marcante do Nietzsche: “Deus está morto”.

Há diversos pensamentos marcantes na literatura de J Santiago, mas ela não está aqui em razão deles, mas de uma resenha que escrevi sobre o seu histórico Jumento Fantasma (post Emblemático julgamento STF, abaixo deste. Recomendo a leitura). Na resenha, repito o meu clichê predileto, que julgo em sintonia com os marcantes pensamentos desses festejados filósofos. Apreciem o clichê:

“Liberdade não é um conceito humano. É o preceito divino criador do universo. Tudo de bom no mundo é fruto da liberdade. E tudo de ruim é fruto da distorção da liberdade”.

Pois é. Deus criou o universo – e não só o mundo dos humanos – a partir do amor infinito e incondicional, cuja palavra síntese chama-se liberdade e cujo veículo propagador chama-se espírito. Acontece que a distorção da liberdade vem ganhando de goleada da divina aplicação dela. É preciso entender que Deus colocou o livre-arbítrio – a alternativa de o ser humano abandonar atitudes inconsequentes - no pacote da liberdade. Sabia Deus do risco de confundirem liberdade com ilegitimidade. É preciso entender, ainda, a complexidade do termo liberdade. A genuína liberdade, atentem pra isso, consiste em você não fazer o que quer fazer. Uso a liberdade quando quero fumar e não fumo, por exemplo.

Agora vejamos o que disseram os caras ali de cima:

“Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo”. Se Deus não existe, então tudo é permitido”. “Deus está morto”.

O que esses caras disseram é que sem as diretrizes e a crença num legislador universal, Deus, o mundo

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

A caveira e o jumento fantasma num emblemático julgamento do STF

 


“Segunda-feira, 18 de junho de 1962. Brasileiros ainda pulam de alegria. Afinal, a seleção brasileira é bicampeã mundial de futebol. No domingo, no Chile, vencera a Tchecoslováquia por 3 a 1. Nas Rocas, peixeiro bairro de Natal-RN, coisa de nove horas da manhã, um rapazola bebe água na bodega do Zezão, levanta a vista, vê brilhosa placa num poste e...

Não, Juquinha, grita o Zezão.

Depois, o Zezão diz que Juquinha ficara curioso com o vermelhão da placa e fizera menção de dar um pulinho para verificar se a tinta estava realmente fresca. Juquinha vivia dando pulinhos de sobrevivência na feira das Rocas, onde botava balaio de compras na cabeça para deixar nas residências do entorno. Juquinha também estava eufórico: havia feito o segundo frete. Ia dar um pulinho em casa a fim de deixar o dinheiro pra mãe comprar o feijão do almoço.

Juquinha não vai pra casa. O apavorante grito do Zezão chega tarde. Juquinha tinha dado o último pulinho da vida.

ATENÇÃO. NÃO TOQUE AQUI da placa parecia ao Juquinha tão só um monte de garranchos de tintas frescas. Mas o toque foi fatal. Seu frescor dos 17 anos desfizera-se em cinzas, já que os reluzentes garranchos nada mais eram que gravetos jogados no fogo do analfabetismo pelo poder público”.

São esses os primeiros parágrafos do Jumento Fantasma (Editora Nozes, 1972), histórico livro de R F Fontoura, pseudônimo da escritora potiguar Jakeline Santiago. O livro

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Quem sair por último pode deixar a porta aberta

 


É especulação marcar no calendário o dia em que surge o primeiro mal advindo de fenômenos naturais. E em especial quando são dois os fenômenos. E essa especulação se torna apelativa quando os fenômenos surgem no mesmo país e no mesmo dia. Assim como é colossal especulação garantir a causa desses fenômenos. Mas a Folha de São Paulo, de 28 de dezembro de 2026, reportou isso tudo. A Folha é jocosamente apocalíptica na manchete.

A humanidade já era. Quem sair por último pode deixar a porta aberta.

A Folha desdobra assim a manchete:

“O primeiro mosquitinho, logo apelidado de brochante, apareceu em Brasília, na tarde do 17 de dezembro de 2026. Na mesma tarde, apareceu em São Paulo, capital, a primeira cobrinha, logo apelidada de BFL. A soma desses aparecimentos chama-se vingança divina. A humanidade não aprendeu a lição da covid. Então o Criador achou por bem fazer uma limpa nela”.

Obviamente que não vou transcrever a matéria da Folha. Destaco, porém, alguns pontos. A Folha diz que o motivo da limpa do Criador é a “dabundância” do “D” – desdém, desconfiança, desumanidade - e sai nomeando os representantes do trio.

Como representante do desdém, nomeia um parlamentar carioca que foi para os Estados Unidos desdenhar do próprio país. Como representante da desconfiança, o nomeado é um banqueiro paulista que guardava 17 milhões de reais embaixo do colchão por desconfiar do próprio banco. Como representante da desumanidade, a nomeada é uma senhora pernambucana que trocou o amor de mãe por dinheiro ao mandar matar a própria filha.

Outros destaques da manchete:

A primeira vítima da cobrinha BFL foi um diretor da Fiesp. A cobrinha estava em cima dum notebook. Dali a duas horas o diretor estava morto. A BFL mede entre 17 e 22 centímetros e apresenta-se conforme a cor do ambiente. O tempo médio de vida do picado é de 3 horas. A BFL aparece do nada e do nada uma começa a comer outra. E é igualmente comum nascerem dois filhotes de cada comida. A pauta da imprensa nacional é noticiar mortes causada pela infeliz. A solução seria importar botas e luvas dos Estados Unidos. Ocorre que a importação desse kit não estava sendo possível, visto aquele citado desdenhador ficar botando areia na importação. No terceiro dia de mortes, surge abençoado alento. Descobre-se que a BFL é um ofídio brasileiro e urbano. Isso quer dizer

terça-feira, 11 de novembro de 2025

A Conferência da Dra. Angelicitina Duarte Alcifis

 

Apresentam a Dra. Angelicitina como a revolucionária pensadora do século 21. “Festejada no mundo inteiro”, acrescenta o panfleto. Vale a pena conhecer certas informações sobre a conferência.

Título: “TORNE-SE PLENO EM 20 MINUTOS”. Local: Centro de Convenções de Natal-RN, em 10/11/2025, às dez horas. Inscrição: 20 mil reais. Vagas: 71. Público: apenas políticos e empresários masculinos. O inscrito precisa aguardar 72 horas para saber se a inscrição foi aceita. A conferência será mostrada ao vivo por todas as plataformas digitais.

E eis que às 10 horas em ponto a Dra. Angelicitina chega ao auditório. Relevem os clichês a seguir, pessoal. É que preciso ser fiel à beleza estonteante e às curvas sinuosas da conferencista. A conferencista é loura, tem cerca de 30 anos, transporta excesso de beleza e é expositora de luxúria: está usando apenas calcinha e sutiã. Ajustadinhos ao corpo, os vermelhinhos obstáculos parecem artes de um Picasso libidinoso. Dá pra ouvir o sacolejar de água na boca da velharia e de se enojar com babas manchando paletós.. Dra. Angelicitina é tremenda provocadora:

“Bom dia, vermes criaturas e criaturas vermes. Vermes distintos, mas com algo em comum: a idiotice. Devo uma informação, aliás, aos 227 idiotas que não foram selecionados. O nível de torpeza dos senhores é ótimo, mas preferi selecionar aqueles com grau de repugnância maior. Então. Como autênticos idiotas, estão pagando mil reais por minuto para assistir a uma conferência que promete tornar os senhores plenos. Mas plenos de quê? Conferência, lembrem-se, que está sendo transmitida por todas as plataformas digitais. Desperdício de dinheiro e esbanjamento de vaidade, não? De mais a mais, simples clique no Google teria lhes informado

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Benedito, seu danado

 


Este textinho só fará sentido para quem leu o “Será o Benedito?”, post abaixo. Daí que lhe sugiro dar uma espiada agora no Benedito debaixo.

Sucede que alguns leitores do “Será o Benedito?” passaram-me reprimendas em razão do texto não conter vírgulas, pontos, parágrafos, essas coisas. E outras. “Sua loucura passou do ponto, macho. Não entendi nadica de nada”, disse-me uma leitora de Fortaleza. Tem razão. Os diabinhos literários fizeram-me exagerar na pegadinha. É que os pestinhas adoram furar bolhas, pessoal. Espero que a nobre cearense me devolva a lucidez com a resenha a seguir. Leiam:

 

Benedito, gente, é um filosófico e poético vira-lata. Benedito deixa pegadas contextuais

sábado, 25 de outubro de 2025

Será o Benedito?

 


certo é que exceções ganharam o estatus de obviedades e estas foram rebaixadas para exceções de regras viajando pras cucuias é preciso respirar fundo nas pausas da preguiça do contrário fica como bosta nágua sem entender a razão daquele cara ter dito que tinha beijado a boca dela para sentir o doce das palavras dela e que tinha beijada a sola dos pés dela para encontrar o caminho dele quando seria mais lógico dizer que beijou a boca dela porque tava excitadão e que beijou a sola dos pés dela porque é um pervertidão respirando parando e andando deu de cara com caras feias quando insinuou que quanto mais via os livros de religião mais da religião se afastava e que quanto mais botava os olhos na ciência mas pertinho de deus ficava aí teve que sair correndo babando e respirando até que parou numa encruzilhada indeciso qual caminho pegava só sabia que o do medo o da covardia e o da depressão não pegava aí sem confiança teve a ideia de mijar espalhando

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Você não escolheu Jesus

 


Prezado anônimo, excluí seu comentário sobre a postagem “Ufa! A valorização do professor”. Inadvertidamente, juro. Mas julguei tão agressivo o comentário que resolvi me defender publicamente com esta publicação. “Anônimo”, pessoal, é como o Pocilga chama o comentarista que preferiu não se identificar. Não, anônimo – ou seria anônima? -, não desrespeitei nossos mestres. Você me esculhambou porque fiz linda professora e bela ex-aluna se assarem na cozinha ao mesmo tempo em que o marido da professora e uma assanhada aluna dele corriam para um quarto a fim de apagar fogo. E amplificou a esculhambação ao ler o escrito da assanhadinha na porta do quarto: “NÃO PERTUBEM. VALORIZANDO O PROFESSOR”. Essa sentença é desrespeitosa, casto anônimo? (Postagem abaixo desta, pessoal).

Sua cachola cognitiva, anônimo, foi incapaz de inferir o contexto da irônica espezinhada no poder público, que fica dando tempo ao passado com a promessa de valorizar o professor. É certo que, publicada, toda peça literária passa para o domínio do leitor. Daí que não questiono a sua avaliação de texto prolixo e promíscuo. Mas essa prerrogativa não lhe concede o direito de me rotular de idiota, carnal e abre-alas da laia dos pervertidos.

Agora preciso comentar a forma de seu atabalhoado comentário. Misturou tudo, anônimo. Imprecisão lógica e analfabetismo conceitual deram na canela do atabalhoado:

“Não me leve a mal, TC”. Disse você. Você, anônimo, fala cobras e lagartos de mim e ainda pede que não o leve a mal. Me poupe. “Quem sou eu pra julgar. Minha crítica é construtiva, TC”. Porra, anônimo. Você não julga. Não julga, mas critica. Já viu alguém criticar sem antes julgar? Todo mundo julga, anônimo. Só e unicamente um ser não julgou. E permanece

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Ufa! A valorização do professor

 

Acontece na tarde de sábado, 11 do 10 deste 25.

Miraia e o Carlão bebem vinho assistindo a um filme na TV. Miraia e Carlão são casados. Ele com ela e ela com ele, que fique claro. São professores de português em colégios distintos. O WhatsApp do Carlão bate palmas, Miraia lê a mensagem:

“Uma tal de Fifi”.

Carlão lê:

“Boa tarde, professor. Vc tá no ap? Gostaria de tirar umas dúvidas sobre aquela redação. Posso ir aí”?

Carlão comenta com a Miraia:

Pedi que a turma treinasse para o Enem com o tema “O desafio de valorizar o professor”. Aí essa sem noção quer discutir a redação logo agora. Vou dizer que estou no shopping.

Que que tem, amoreco? Mostra que é uma aluna interessada. É bonita?

É linda. Não posso negar.

Então ela tem curvas sinuosas, rosto diagramado e atitudes fidalgas. Bonita de tudo e charmosa.  Não é esse o seu conceito de mulher linda?

Sim. Mas isso não quer dizer que...

Sei bem o que isso quer dizer, amoreco. Me poupe. Ela mora aqui por perto?

De carro, uns cinco minutos.

Como você sabe? E como a Fifi sabe que moramos aqui?

Já dei carona a ela, Miraia. Mostrei-lhe o condomínio naquela noite.

Entendi. Deu carona a ela naquela noite. E ela? Já lhe deu à noite também?

Ah, Miraia, você está de brincadeira. Dê-me o celular. Vou dizer...

Agora é tarde. Acabo de dar o número do apartamento. Precisamos valorizar o bom aluno, amoreco. Mas troque esse calção cabeçudo e a regata vazando cheiro de macho. A Fifi é muito da espertinha, viu?

Como assim, Miraia?

Oh, amoreco. O Enem

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Soltem-me, soltem-me, soltem-me

 

Educação, consciência, liberdade. Esses assuntos têm presença cativa em meus rabiscos ficcionais. Mas este rabisco não é ficcional, ainda que presente o filosófico trio ECL. Sobretudo a liberdade. A fim de esmiuçá-la, contudo, preciso que conheçam o novo costume deste aluado: ler comentários de redes sociais. Ler esses abençoados, nobríssimas, é decifrar o intelecto do brasileiro médio. Faça de conta que está assistindo a este vídeo do Instagram.

O pai pergunta como o filho se saiu no vestibular e quantas vagas tem o curso dele. “60 vagas. Mas 10% são para as cotas”, responde o filho. Qual foi a sua colocação, filho? “2148, pai”. Aqui o vídeo dá um close na irônica reação do pai:

“Cotas filhas da puta”.

Contei os comentários, nobríssimos: 51 esculachando o pai por ser contra cotas, 22 apoiando a política de cotas, 8 com KKKK. E apenas 4 exaltando a ironia do pai, posto os 10% das cotas não terem culpa alguma da colocação 2148 do filho.

Esmiucemos a liberdade? Então. Liberdade não é uma palavra. É o preceito transcendental da criação do mundo (sugiro a leitura abaixo, o Bião e o JC). Tudo de bem no universo é saboroso fruto da liberdade. E tudo de mal é podre fruto da transgressão da liberdade.

Tampem as ventas para esta frutinha podre no caçuá do Instagram.  Tem a ver com

terça-feira, 16 de setembro de 2025

O pirado Bião e o tantã JC

 


TC, primo velho do meu coração, espero que ao receber estas mal tecladas linhas esteja a gozar da mais perfeita saúde. Por aqui, vou indo como Deus quer e consente.  Tô de porre desde 30 de agosto, primo. Desgosto grande.

A Eduarda, primo. A duas caras ia pros jogos do ABC comigo, sempre de boa e de beijos, mas não segurou a euforia quando o ABC caiu pra série D. Flagrei a Eduarda gravando pra alguém um “Chupa ABC, viva o América”. Dei-lhe as contas na hora. Não dá pra dormir com uma traíra de valores. Mas não deixarei de frequentar a lanchonete onde ela trabalha. O hamburger da Eduarda é incomparável, cara.

Acontece que agosto passou o desgosto para setembro. Voltei até a fumar cachimbo e a mascar fumo. Tudo pra ver se passava a vergonha de ter visto aquela bandeirona dos Estados Unidos na Av. Paulista. Logo no dia da nossa independência. Porraé, primo. Pior é que vi pessoas dizendo na TV que estavam lutando pela liberdade, direito, democracia, essas coisas, já que os brasileiros viviam numa ditadura. Um repórter perguntou a certo dirigente partidário se o público estava correspondendo à expectativa do partido. O Yes do entrevistado e o thanks do entrevistador embrulharam-me o estômago. Corri pro banheiro, primo velho.

Ditadura, primo. Ditadura em que milhares de indivíduos vão pra rua enrolados com a bandeira de outro país e fazem gato-sapato das autoridades do seu?  Fiquei com a impressão de que aquele povo implorava por uma ditadura de verdade para combater uma ditadura de mentira. Minha inquietação só foi embora com a chegada de um amigo das antigas, o JC. O JC me pegou dando uma cusparada de fumo. Não disse uma nem duas. Só fez sorrir.

Falei pra ele da vergonha por causa da bandeirona paulista e perguntei o que tinha achado daquilo:

- Ah, Bião. Coisas da liberdade. Já te falei dessas coisas. Esqueceste? Vou te explicar de novo.

Deixe-me explicar umas coisinhas sobre o JC, primo velho. O JC ama vinho de pinha

sábado, 30 de agosto de 2025

A VERDADE, A MENTIRA, O POÇO E A BEATRIZ

 


Imagino que já tenham lido o reflexivo texto sobre o encontro da Verdade com a Mentira, já que bastante exibido na internet. O autor, dizem, é indiano. Mas há quem diga que é brasileiro. Seja quem for, a verdade é que o texto ficou capenga, pois não mostra o final da história.

Vou colocar entre aspas o texto famoso e abaixo o cheiroso desfecho da história.

“Segundo uma lenda do século XIX, a Verdade e a Mentira se encontram um dia. A Mentira diz à Verdade: "Hoje está um dia maravilhoso!" A Verdade olha para os céus e suspira, pois o dia era realmente lindo. Elas passaram muito tempo juntas, chegando finalmente ao lado de um poço. A Mentira diz à Verdade: “A água está muito boa, vamos tomar um banho juntas!” A Verdade, mais uma vez desconfiada, testa a água e descobre que realmente está muito gostosa. Elas tiraram a roupa e começaram a tomar banho. De repente, a Mentira sai da água, veste as roupas da Verdade e foge.
A Verdade, furiosa, sai do poço e corre para encontrar a Mentira e pegar suas roupas de volta.

O mundo, vendo a verdade nua, desvia o olhar, com desprezo e raiva.
A pobre Verdade volta ao poço e desaparece para sempre, escondendo nele sua vergonha. Desde então, a Mentira viaja ao redor do mundo, vestida como a Verdade, satisfazendo as necessidades da sociedade, porque, em todo caso, o mundo não nutre nenhum desejo de encontrar a verdade nua”.

Como eu disse, essa história não acaba assim.

O que acontece. Uma galera grega, liderada pelo Sócrates, fica fazendo panegíricos a fim de resgatar a Verdade. Resgatar não é bem o termo, já que eles não sabiam que a Verdade padecia num poço. A Verdade num poço? Nem pensar.

Pois bem. Num desses panegíricos, encontra-se a lindíssima e sábia Beatriz, a filha mais nova do Zeus. Aristóteles se dirige à Beatriz:

E aí, Bia, dás notícias da Verdade?

A Verdade está no Brasil, padrinho Ari. Numa cidade

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

O dia em que a roda grande passou por dentro da pequena (sem nem triscar)

 


Natal, Brasil, quinta-feira, doze de agosto.

Quase meia-noite, Josélia assiste a um documentário pela TV. Jorgel, o marido, lê Machado de Assis. Joana e Jonas, gêmeos de treze anos, lancham na cozinha. O casal dá aquela cochilada. Josélia acorda. E acorda o marido, pois não consegue ler a legenda do documentário. Jorgel também não:

Não tenho a mínima ideia dessa língua. Escutei barulhos na cozinha, Jó, diz Jorgel, levantando-se da cama e indo chamar um dos filhos. Vem os dois:

“A liberdade não é...”, lê a Joaninha.

“Nada de garrancho na tela, mãe. Puro português. Foi tão forte a coisa que mexeu com o juízo de vocês? Misericórdia”, brinca a filha sapeca.

Leia aqui, pai, pede a sapeca, pegando o Alienista na cama. Jorgel não lê. Josélia também não.

O que fazer? Lavar o rosto, respirar fundo, tomar um café forte, essas coisas? Essas coisas - e outras - são feitas, mas: mas o casal só enxerga garranchos ao sair olhando os escritos da casa.

A ficha da família jota começa a cair pingando lágrimas.

Jonas pede que Josélia ligue pra mãe. “A vó pode conhecer algum chá, mãe”. Josélia não tem o número da mãe memorizado. Precisa da agenda do celular. Jonas faz a ligação. Dona Judite está dormindo.  Acorda. Acorda e acorda o “quem era” do marido. Dona Judite e Seu João acabam de se tornar analfabetos acidentais. Vão se juntar aos analfabetos originais.

Ressalvados os contextos culturais e geográficos, Dona Judite e Seu João ilustram bem como grande parte da população mundial fica analfabeta durante a passagem daquela quinta-feira para a sexta-feira. A pequena parte da população - a dos ainda alfabetizados - é composta pela molecada de até quinze anos e pelos indivíduos que por circunstâncias diversas ficam acordados da quinta pra sexta-feira. Esses, porém, haverão de dormir em algum momento. Mas acordarão na grande parte. A molecada, contudo, acorda “de boa”. Zero de analfabetismo, dez de surpresa.

É óbvio que a população não perde a prática do fazer. Mas é igualmente óbvio

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

O VIZINHO DA ESQUERDA

 


Desse vizinho, Jorgel e Josélia só conhecem o som alto de música sertaneja.

Do da direita, conhecem apenas um senhor que fica na calçada coçando minúsculo e ridículo bigodinho.

O vizinho da esquerda sempre liga o som alto por volta das dez horas da noite. Mas o som é desligado tão logo o casal chega à calçada a fim de reclamar. O peste advinha, brincam os recém-casados.

Jorgel e Josélia estão casados há dois meses. Moram naquela casa há uma semana. A casa precisa de boa reforma. Dizem que é mal-assombrada e tal, mas o baixo preço de compra tinha dado a coragem para o casal peitar assombrações.

Até que naquela tarde-noite de sexta-feira, o casal está se apeando da moto no momento em que o vizinho da esquerda está subindo num táxi:

“Quero falar com vocês”, gritou.

“Que homem mais feio. É todo mal repartido”, falou a Josélia, apoiando-se no marido, como a antever algo perigoso.

Deve vir se desculpar pelo som alto, sussurrou o Jorgel.

Preciso do PIX de vocês.

Quê? PIX? Pra quê? Nem nos conhecemos... Como assim PIX? Pensamos que o senhor estava querendo se desculpar pelo som alto. O senhor podia...

O PIX, homem. Todas as noites escuto vocês fazendo planos para a reforma da casa. Quero ajudá-los. Adoro vocês. Formam um casal lindo. Agora me dê o PIX.

Não podemos..., gaguejou o Jorgel, mas o desfecho do gaguejo foi brecado por encoberto beliscão, visto a Josélia imaginar o marido conjugando um verbo errado depois do podemos. Josélia trocou o suposto verbo:

Não podemos conversar dentro de casa?

Sim, sim. Vou dispensar o táxi e desmarcar um encontro com uma garota de programa

terça-feira, 15 de julho de 2025

Divagações desaforadas de desmiolado dedógrafo

 


            Esse abundante título de “d” é corriqueiro divertimento para o quinteto DOCAS (Damião, Osair, Cláudia, Anchieta e Silvano), habituais fuçadores desta Pocilga de Ouro. Sabe o DOCAS de minha queda por aliterações. Imagino mais alguns emporcalhados me lendo agora, mas apenas esses cinco costumam se identificar por meio de comentários zombeteiros sobre as minhas obviedades. “Arrocha esses parafusos, TC”, dizem. Esses cinco não viram, porém, o último parafuso a escapulir de minha engrenagem mental. Vou mostrar a doidice. Não mando o abençoado DOCAS pegar o beco por julgar injusta tal ordem. Mas, identificado o rebelde parafuso, a docada Cláudia já pode puxar a fila da retirada, pois o porvir está prenhe das maçantes obviedades.

            Vejamos a doidice.  

Tornei-me tarado por leituras de comentários nas redes sociais, gente. Sobretudo os da Folha/Uol e do Instagram. Chovem comentários sobre esquerda/direita e Bolsonaro/Lula. Inocente publicação de humor, e o pessoal já empurra ideologia no meio. Impressionante. Aparecem comentários a torto e a direito, mas os de jejunos comentando ideologias ganham disparados. Vou dar grosseira demão nas fachadas da política e do capitalismo. Antes, contudo, permitam-me descrever irônico comentário.

Nasceu assim:

            No Instagram, o cientista Miguel Nicolelis fala

sexta-feira, 20 de junho de 2025

A Vingança do X

 

Não tenho como explicar o ridículo episódio. Aconteceu em 1980, na UFRN, onde cursava Economia. Na UFRN, mas algo parecido já acontecera anos atrás, numa aula do supletivo. Querem coisa mais ridícula do que brigar com letras? Pois é. Tive uma briga feia com certo X de uma expressão aritmética. Mas isso conto no fim desta prosa.

O ridículo episódio surge de um imbróglio entre um colega e a nossa professora de Macroeconomia, a Mara. Lembro-me da história porque ontem me encontrei com Pedro Avelino, carinhosamente apelidado de Língua-Santa pela turma. Vale a pena relatar o entrevero.

        Por causa da beleza e do nome Mara, os marmanjos da classe chamavam a lindíssima professora de Maravilha. Às caladas, né, gente?

“Os pares eróticos da Mara me tiram do sério, Xis. Lábios, coxas, peitos, olhos, joelhos... Minha Nossa Senhora! Sabe, Xis, as maravilhas do mundo eram pra ser par. O oito seria a professora Mara”, costumava brincar o Língua-Santa.

        Acontece que numa aula da sexta-feira à noite, o Língua Santa, meio biritado, quis tirar uma dúvida:

        - Tenho uma dúvida sobre esse postulado Keynes, professora Oitava Ma...

            - Como assim oitava, Sr. Pedro. O senhor ia completar com maravilha, não ia? Estou sabendo que o senhor e o senhor Xis ficam nos corredores

quinta-feira, 12 de junho de 2025

A VERDADE SOBRE O DIA DOS NAMORADOS

 

Não sou de festejar o simbolismo de certas datas, mas tem a minha aprovação quem delas tira proveito para atingir estados mentais de excelência. Se data tal catalisa o primitivo êxtase, não vejo por que ficar indiferente dela. Daí a torcida para que os enamorados façam bom proveito deste 12 do 6, Dia dos Namorados. Recebam uma beijoca e o conselho de irem com calma, pois o dia é longo e a noite comprida. E as semanas também.

A propósito, convém relatar um fato ocorrido ao meio-dia de hoje. Volto do mercadinho colado a minha casa, estou pondo a chave no portão quando escuto pisadas surgidas do nada. Viro-me. Quase tenho um troço, pessoal. Um cara esquisitão, de batinazona verde, sorria pra mim:

“Não tenha medo, Sr. Tião. Sou do bem. Quero falar com o senhor, preciso de grande favor seu”.

Que susto, homem. O senhor é padre? Vamos entrar. É perigoso conversar aqui

Sou padre, não. Mas já fui. Meu nome é Valetim, apresentou-se ele, estirando-me a magra manzorra direita.

Em que posso servi-lo, Seu Valetim.

Veja, Sr. Tião. Eu era bispo no velho mundo. Fazia casamentos e mais casamentos em Roma. Até que certo dia, certo césar me deu certeira cacetada.  Sucedeu o seguinte. Sob a alegação de que os solteiros eram mais dispostos pra guerra, o rei me proibiu de fazer casamentos. Não dei bolas e continuei casando escondido. Resultado. Descobriram e me prenderam. Fui condenado à morte. Mas, enquanto esperava o dia fatal, acabei me apaixonando pela filha do carcereiro. E ela por mim. Ela não enxergava, Sr. Tião. Nascia ali a verdade de que o amor é cego. Mas tão forte era a nossa paixão que ela voltou a enxergar, acredita?

Bom, marcaram a minha execução para 14 de fevereiro. Mas, quando me botavam a corda no pescoço, botei um papel na testa. Estava escrito: Te amo, linda. Seu namorado.

Esse episódio correu o mundo. 14 de fevereiro ficou conhecido como o Dia dos Namorados e passei a ser chamado de o maior corta-jaca do universo. Não conto os casamentos que já encaminhei. Alguns com extremo trabalho. O seu, inclusive. Você era feiinho de doer, Sr. Tião. Falar nisso, como vai D. Tânia?

Está bem. Muito obrigado pela mãozinha, Seu Valetim. Aqui no Brasil o Dia dos Namorados é 12 de junho, véspera de Santo Antônio. Então a história está...

Erradíssima, Sr. Tião. O autêntico Dia dos Namorados é 14 de fevereiro. Antônio foi brilhante intelectual lisbonense. Só isso. Mas gostava de elaborar discursos amorosos, é verdade. A fama de santo casamenteiro vem daquelas palavras, entendeu? Agora, quem faz as aproximações entre os casais, arruma encontros, trabalha nos bastidores, enfim, sou euzinho aqui.

Compreendo. O senhor disse que precisava

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Tretinhas na praia da Buscapé


 

Vamos lá. As tretinhas acontecem na praia da área de lazer da minha casa. Mas, pra ser sincero, de autêntico nesse começo de prosa somente a casa, já que o lazer da área é tão só uma geladeira entupida de cerveja, vinho e cachaça, que dela viajam por quatro segundos para um guarda-sol fixado numa área descoberta. Essa área é a praia. E na praia, saibam logo, só cabem quatro pessoas.

Coisa de quatro horas da tarde, estamos na praia eu, uma professora, uma nutricionista e uma licitadora. São amigas de amizades cascudas. Em comum ainda o ápice da beleza. Cervejas viajam pra bocas. E das bocas saem sorrisos e amenidades. Eu só escuto o blábláblá, pois o sujeito precisa ser bom de papo para ser ouvido por dois minutos numa roda em que estão três damas. De mais a mais, prefiro escutar a falar. Pessoas assim, aliás, costumam ser depreciadas com etiquetas de inibidas, envergonhadas, introvertidas, matutas, essas coisinhas, como se essas coisinhas constituíssem desvios de personalidade. Os etiquetadores, contudo, desconhecem que o introvertido anda com a régua de medir liberdade.

Liberdade é fazer o que se quer dentro do que é permitido pela sociedade, é certo, mas esse fazer o que quer não exibe o selo da suprema liberdade. A verdadeira liberdade, sabem os introvertidos, é não fazer o que se quer dentro do permitido. Isso acontece quando a consciência ganha da vontade. O fumante, o compulsivo e o fanático são escravos da vontade, já que fumar, compulsar e fanatizar não jogam no time da consciência. Esse povo, aceitemos, não conhece a verdadeira liberdade. O introvertido, por sua vez, fica se coçando pra se meter numa conversa, doido pra dar um pitaco, mas a régua de não fazer o que quer, ou da verdadeira liberdade, não deixa. O introvertido é um libertário sofredor. Mas é claro que exercita a fofoquinha interna.

Pois então. As meninas

sábado, 31 de maio de 2025

O Lixo

 

Senhoras e senhores, eu sou o lixo

Que vem da cabeça, que vem dos olhos

Que vem do visto e dos entrefolhos

Que vem da hortaliça e dos sabões

Que vem da piça e dos pilões

Que vem das damas e do que está vago

Pois vem da região das mamas e por onde cago.

 

Senhoras e senhores, aqui está o lixo

Que veio do fingir e do prometer

Que veio do encobrir e do esconder

Que veio do dissimulado e do esperto

Que veio do guardado e do secreto

Que veio do eleito e do que está fixo

Pois veio da região dos peitos e por onde mijo.

 

Senhoras e senhores, aqui estará o lixo

Que virá do fodido e do fodão

Que virá

quarta-feira, 28 de maio de 2025

O teste do porco

 

Olá, gente

O Jornal do Porco contratou um grupo de especialistas a fim de elaborar um teste sobre a vivência de seus leitores. O objetivo é conhecer o intelecto deles e assim melhor direcionar as postagens desta Pocilga de Ouro. Façam o teste, por gentileza.

1.      Recente pesquisa mostrou que 70% dos adultos brasileiros não gostam de cebola, seja crua, seja doutra forma. E que 90% gostam de manga. Infere-se que:

a)      Cebola não deve ser bom legume;

b)      Manga deve ser boa fruta;

c)      Gosto não se discute. Aceita-se

2.      Liberdade é agir de acordo com a vontade (vou beber porque tô com vontade). Liberdade é contrariar a vontade e não agir (tô com vontade de beber, mas não vou beber). Infere-se que:

a)      As duas proposições estão corretas;

b)      A segunda tem mais cheiro de verdade;

c)      Liberdade não se discute. Pratica-se

3.      Você tem quatro irmãos. Chamam-se Polegar, Indicador, Médio, Anular. Infere-se que:

a)      Seu nome é Você;

b)      Seu nome é Mindinho;

c)      Não sei

 

4.      Chama-se de cética