terça-feira, 16 de setembro de 2025

O pirado Bião e o tantã JC

 


TC, primo velho do meu coração, espero que ao receber estas mal tecladas linhas esteja a gozar da mais perfeita saúde. Por aqui, vou indo como Deus quer e consente.  Tô de porre desde 30 de agosto, primo. Desgosto grande.

A Eduarda, primo. A duas caras ia pros jogos do ABC comigo, sempre de boa e de beijos, mas não segurou a euforia quando o ABC caiu pra série D. Flagrei a Eduarda gravando pra alguém um “Chupa ABC, viva o América”. Dei-lhe as contas na hora. Não dá pra dormir com uma traíra de valores. Mas não deixarei de frequentar a lanchonete onde ela trabalha. O hamburger da Eduarda é incomparável, cara.

Acontece que agosto passou o desgosto para setembro. Voltei até a fumar cachimbo e a mascar fumo. Tudo pra ver se passava a vergonha de ter visto aquela bandeirona dos Estados Unidos na Av. Paulista. Logo no dia da nossa independência. Porraé, primo. Pior é que vi pessoas dizendo na TV que estavam lutando pela liberdade, direito, democracia, essas coisas, já que os brasileiros viviam numa ditadura. Um repórter perguntou a certo dirigente partidário se o público estava correspondendo à expectativa do partido. O Yes do entrevistado e o thanks do entrevistador embrulharam-me o estômago. Corri pro banheiro, primo velho.

Ditadura, primo. Ditadura em que milhares de indivíduos vão pra rua enrolados com a bandeira de outro país e fazem gato-sapato das autoridades do seu?  Fiquei com a impressão de que aquele povo implorava por uma ditadura de verdade para combater uma ditadura de mentira. Minha inquietação só foi embora com a chegada de um amigo das antigas, o JC. O JC me pegou dando uma cusparada de fumo. Não disse uma nem duas. Só fez sorrir.

Falei pra ele da vergonha por causa da bandeirona paulista e perguntei o que tinha achado daquilo:

- Ah, Bião. Coisas da liberdade. Já te falei dessas coisas. Esqueceste? Vou te explicar de novo.

Deixe-me explicar umas coisinhas sobre o JC, primo velho. O JC ama vinho de pinha

, não fala o pronome eu e adora falar na segunda pessoa. Ele diz que o vinho amorna o sangue, o eu acende o egoísmo e o uso do tu da segunda pessoa apaga um tal de “eu intruso”. Meio tantã, mas gente da melhor qualidade. Então. Tratei de ligar a gravação do celular a fim de curtir depois a explicação, já que o JC é fã de metáforas e parábolas. Mesmo assim, recomendei:

Esqueci, JC. Fala da bandeirona da Paulista aí. Mas fala sem porra de metáfora, filosofia, firula. Seja simples, cara.

OK, Bião. Cadê o vinho? Esqueceste, né? Esqueceste das minhas palavras e do nosso vinho. Para irmos à Paulista, Bião, precisamos voltar ao teu esquecimento a respeito das coisas da liberdade. Precisas lembrar de que o Pai criou o mundo a partir de um princípio. Dois, na verdade, Bião. Um para criá-lo, outro para preservá-lo. Esses dois princípios – e somente esses dois – estão presentes em todo ser vivo e no tempo todo. Falo de princípios, não de fenômenos naturais. Falo de ser vivo, não de apenas humanos.

Chama-se liberdade o princípio da criação.

Tens tu, Bião, a liberdade de fazer o que te der na telha.

Der na telha, JC? Der na telha é muito forte, cara. Tenho a liberdade de matar alguém, por exemplo?

Sim, sim, Bião. Tu e todo ser vivo.

Misericórdia. Nunca me falasse isso não, cara. Como esqueceria tamanha barbaridade. O pai permitir matar? Muito me admira, você... Dá uma golada no vinho e desenrola essa barbaridade aí, JC.

Bião, homem de Deus, liberdade expressa o incondicional e infinito amor do Pai pelos filhos. Liberdade é o bem supremo. É a vivência da vida. E vivência implica optar, desprezar; hesitar, decidir. Liberdade não admite privilégios. A tua liberdade, a do tigre e a da samaúma são rigorosamente iguais. Ou achas que existe um Pai para ti, um Pai para o tigre e um Pai para a samaúma? A liberdade é uma só, Bião, mas, por óbvio, cada espécie cria as suas regras de convivência. O tigre tem as regras do território, a samaúma tem as regras da ecologia, tu tens as regras da sociabilidade. Achas normal, Bião, um animal matar outro, relevas a morte de uma árvore, mas ficas espantado quando digo que tens a liberdade de matar. Transgredir é inerente ao princípio da liberdade, Bião. Um mundo de conflito zero implica igualmente zero para optar, desprezar; hesitar, decidir. Tudo de bom e de bem é fruto da liberdade, Bião. E tudo de ruim e de mal é fruto da transgressão da liberdade. Mas nem todo bem pode se tornar tão bom assim, assim como nem todo mal pode se tornar tão ruim assim. Daí que uma transgressãozinha faz parte do modelo divino. E o pai sabe disso.

O Pai sabia disso quando do caos criou o cosmo. No caos, Bião, não existia vida, obviamente. O caos era...

JC, homem de Deus, esquece o caos. Nosso assunto é a Paulista. Do jeito que é prolixo, você vai passar uma eternidade pra sair do caos e chegar à Paulista. Mas antes de chegar lá, dou 30 segundos pra você justificar a excrescência de eu ter a liberdade de matar alguém.

Tens toda a liberdade do mundo para puxar o gatilho da pistola para alguém, Bião. Da mesma forma que a tens para sair peladão na rua mostrando a pistola sem bala. Ocorre que os próprios donos da liberdade humana julgaram por bem botar travas nessas coisas. Aí criaram os conceitos de liberdade individual, liberdade coletiva, liberdade consentida e suspensão da liberdade. É lógico que há o vazio conceitual atrapalhando essas coisas, mas, como regra, até que funciona a contento. Então. Como o alguém da ilustração não te deu o consentimento para puxar o gatilho da pistola, deverás passar um período com a liberdade suspensa. Chama-se presídio, Bião, o local onde vais curtir esse período. Agora, podias não ter usado a maldita pistola se tiveste falado com o Pai. Sabes onde encontrar o Pai, Bião?

É claro, JC. No céu.

E onde fica o céu, Bião?

No céu, é claro. Que pergunta idiota, JC.

O Pai vive lá, então. É isso, Bião?

Isso mesmo.

O que é isso mesmo, Bião?

Isso mesmo é isso mesmo, JC.

Bião, Bião, Bião. O Pai vive no nosso íntimo, espírito, coração, instinto, intuição. Por isso dizemos que o Pai está em todo lugar, já que em todo lugar físico há, pelo menos, uma dessas manifestações paternais. O Pai se apresenta entre uma respiração e outra. Essa rotina é o sopro da vida. É no coração que o Pai acolhe o filho pródigo. Mas que, muitos desses, só exclamam o “Ah, meu Pai” na hora do extremo sufoco.

O Pai dos humanos é a consciência, Bião. E consciência não é um conceito. É essência. Não há vazio conceitual na consciência. A consciência é o não manifesto intelectual. É a plenitude infinita. É a presença constante. É o silêncio completo. A consciência é o que és tu, Bião. Não contaste ao Pai a intenção de puxar o gatilho da pistola. Tiveste contado, Bião, podias não ter ido curtir o presídio. Falo podias, porque, ao fim e ao cabo, a decisão seria tua. O Pai, Bião, não obriga o filho a fazer nada. Se obrigar alguém a fazer alguma coisa já é um ato ditatorial, imagina tal obrigação partindo de um Pai que ama os filhos de forma infinita e incondicional. Incorreste em blasfêmia ao dizer que o Pai te permitiu matar o alguém. O Pai não permite, tampouco proíbe. Mas não fica indiferente. O Pai orienta. Achas mesmo que existiria uma montanha de gente passando fome se o Pai obrigasse alguém a fazer alguma coisa?

É. O que dissesse faz sentido. Mas acabasse entrando na religião. Aí fico me perguntando, desculpe a matutice, JC, mas os templos, os cânticos, as preces, os princípios, os louvores, os rituais, servem pra quê, se o Pai não mora no céu?

Para agradecer ao Pai o dom da vida, Bião. E aí não interessa onde mora o Pai, entende? O Pai fica comovido, e até envergonhado, ao receber algo que não pediu, mas...

Mas acho que tem bastante gente que não pensa assim, JC.

Liberdade de pensamento, Bião. A liberdade do pensamento precede a liberdade da ação. Se esses rituais ajudam as pessoas a acessar a consciência, então só merecem aplausos.

Sei não, viu, JC? E o bandeirão da Av. Paulista, cara? O cara que tava com ela tinha a liberdade de portá-la?

Positivo. Absoluta liberdade, Bião. Agora, aquela intrusa causou estranheza a muita gente, não só a ti. Daí que é bom ver o histórico da aparição dela a fim de preservarmos os valores democráticos do país.

Beleza, JC. Caramba. Ia esquecendo. Ainda bem que falasse em preservar. Dissesse que o Pai usou um princípio para criar o mundo e outro para preservá-lo. O de criar foi a liberdade. Qual foi o de preservar?

O sexo, Bião. Melhor. O princípio do prazer supremo. Supremo para não correr o risco do enfado, tédio, fadiga, essas coisas, e assim o mundo se acabar por falta de reposição. Só há um prazer no mundo, Bião. O sexual. Os demais não passam de sensações prazerosas. É lógico que estou falando do teu prazer, o do tigre e o da samaúma. Já viste um tigre transando, Bião? Já vi. Já vi até cobra transando, Bião. Mas ninguém ganha das plantas. As plantas são taradas. Algumas chegam a ter uma genitália masculina e outra feminina.

Tá brincando, não é, JC? Agora, cara, não sei se a galera animal e a florestal vão ser extintas. Mas os humanos caminham pra isso. O que tem de gente não querendo nada com gente do outro lado não está escrito, cara.

Ah, Bião. Pelo jeito, estás com medo de ser cúmplice da extinção dos humanos, não é?

Que? Tá me estranhando, JC?

 

Aí, TC, o JC caiu na risada. Escuta. Preferi transcrever essa conversa a lhe enviar o áudio. Vai que você inventa de postar o áudio no seu chiqueiro. O JC fala umas coisas fora da curva, cara. Melhor evitar confusão, não é?

Passo aí no fim de semana pra gente tomar uma. Um cheiro no coracisco.

Bião

No independente setembro de 25,

TC

 


Um comentário:

Damião D.F.S. disse...

Muito bom. Essa conversa do Bião com J.C. sobre a liberdade e consciência sobre a mesma. Muito interessante. Mas o Bião ficou invocado mesmo, foi com a presença da bandeira dos Estados Unidos na Paulista. Grande abraço.