A VERDADE SOBRE O DIA DOS
NAMORADOS
“Não sou de festejar o simbolismo
de certas datas. Mas tem a minha aprovação quem delas tira proveito para
atingir estados mentais de excelência. Se o filho se torna mais feliz ao
abraçar a mãe e o pai no dia deles, tenho mais é que aplaudir o gesto. Se beijos
e abraços catalisam o primitivo êxtase em determinado dia, não vejo por que
ficar indiferente. Daí a torcida para que os enamorados façam bom proveito
deste 12 do 6, Dia dos Namorados. Recebam uma beijoca e o conselho de irem com
calma, pois o dia é longo. E a noite comprida”.
Preciso justificar as aspas acima.
Sucede que fui ao MPBar, ontem à noite, 10 do 6, a fim de entregar meu livro, o
Toinho,
Seu Danado, aos colegas Genílson e Blidenor. Acompanhavam a dupla
Roberto e Marcelo. Ficamos jogando conversa fora e líquido dentro. Barzinho
cheio, casais chegando, lembrei-me que no domingo, 12 do 6, seria o Dia dos
Namorados. Vou escrever alguma coisa sobre namorados, pensei. Pensei e
mentalmente rascunhei algo parecido com o aspeado ali de cima. Coisa de maluco?
Verdade. A introdução de meus textos sempre é escrita antes de digitada. Depois
as palavras começam a se paquerar, dão-se as mãos, abraçam-se e terminam no
leito contextual.
Muito bem, quitado o protocolo
etílico, venho pra casa, de carona com Blidenor. Chego ao portão, escuto umas
pisadas. Viro-me. Quase tenho um troço, pessoal. Um cara esquisitão, de batinazona
verde, sorria pra mim:
“Não tenha medo, Tião. Sou do bem. Quero
falar com você, preciso de grande favor seu”.
- Que susto, homem. Quem é o
senhor? Vamos entrar.
“Sou o Valetim, seu criado”,
apresentou-se ele, estirando-me a magra manzorra direita.
- Em que posso servi-lo, Seu
Valetim.
“Veja, Tião. Eu era bispo no velho
mundo. Fazia casamentos e mais casamentos em Roma. Até que um dia, o imperador
Cláudio, sob a alegação de que os solteiros eram mais dispostos pra guerra, proibiu-me
de fazer casamentos. Não dei bolas e continuei casando escondido. Resultado. Descobriram
e me prenderam. Fui condenado à morte. Mas, enquanto esperava o dia fatal,
acabei me apaixonando pela filha do carcereiro. Ela não enxergava, Tião. Nascia
ali a verdade de que o amor é cego. Mas tão forte era a nossa paixão que ela
voltou a enxergar, acredita?
Bom, marcaram a minha execução para
14 de fevereiro. Quando me botaram a corda no pescoço, botei um papel na nesta.
Estava escrito: Te amo, linda. Seu namorado.
O episódio correu o mundo, 14 de
fevereiro ficou conhecido como o Dia dos Namorados e passei a ser chamado de o
maior corta-jaca do universo. Não conto os casamentos que já agendei. Alguns com
extremo trabalho. O seu, inclusive. Você era feiinho de doer, Tião. E sua namorada, linda de curar. Falar nisso,
como vai D. Tânia”?
- Está bem. Muito obrigado pela força, Seu
Valetim. Aqui no Brasil o Dia dos Namorados é 12 de junho, véspera de Santo
Antônio. Então a história está...
“Errada, Tião. O autêntico Dia dos
Namorados é 14 de fevereiro. Antônio foi brilhante intelectual lisbonense. Só isso.
Mas gostava de elaborar discursos amorosos, é verdade. A fama de santo
casamenteiro vem daquelas palavras, entendeu? Sofisma puro. Agora, quem faz as aproximações
entre os casais, arruma encontros, trabalha nos bastidores, enfim, sou euzinho
aqui”.
- Compreendo. O senhor disse
que precisava
de um favor meu. Mas, pensando bem, preciso de um favorzinho seu também. É o
seguinte, aqui, na minha comunidade, nas vizinhanças, sabe, moram quatro amigas que muito
lhe agradeceriam se o senhor desse uma mãozinha...
“Estou ligado. Há tempos trabalho
nisso. Mas, confesso, uma das quatro é caso perdido. Estou procurando um apelido
pra elas, Tião. Apelidos consomem enorme energia, sabe, mas abrem veredas
libidinosas. Suei para encontrar um tal de Drééé e um tal de Mozão, viu? Agora,
essas meninas não sabem namorar. Esse é o problema. Nunca as vi batendo as pestanas
pra ninguém, Tião. Encarar alguém batendo as pestanas é o primeiro sinal de que
está a fim de bater outras coisas, entendeu”?
- Entendi. Direi isso a elas. Bom, o
que é que o senhor quer de mim, Seu Valentim?
“Que restabeleça a verdade. Que escreva
uma prosa pondo os pontos nos is. Que o Dia dos Namorados é 14 de fevereiro e
não 12 de junho. Que sou o santo casamenteiro e não o golpista Antônio. Que o
12 de junho foi invenção dum coxinha paulista, o Dória. Que ele bolou o embuste
para vender flores, postais etc., já que em junho não havia data comemorativa. Que
e que e que... Ah, o senhor sabe, visto ser metido a escrevinhador”.
- Tá bem, Seu Valentim. Direi a
verdade. O senhor promete que vai dar uma caprichada na situação de minhas
amigas?
“Prometo. Diga pra elas baterem as
pestanas que em breve terão novidades. Agora dê-me um abraço de despedida, Tião”.
Seu Valentim me abraçou e sumiu.
- Quem são as quatros, Bastião? Tô
no meio, tô? Se eu falar dessa conversa, ninguém vai acreditar. Mas se
duvidarem de você, pode contar comigo.
- Tás no meio, Neneta. Ora se tá! Tu
tava escondida escutando o papo da gente, era? Amanhã tu vai pro olho da rua. Não digo nem a pau quem são as outras três não.
Beijos nas quatro amigas e em todos
os namorados do mundo. E nos encalhados e encalhadas, é evidente.
Junho namorador de 16,
TC
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