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A VINGANÇA DO X
Não tenho como explicar a ridícula exposição.
Simplesmente falei. Aconteceu na UFRN, onde cursava Economia. Na universidade,
mas algo parecido, beirando à loucura, já tinha acontecido anos atrás, no
ensino médio. Ou não é loucura brigar com letras? Pois é, tive uma briga feia
com certo X de uma expressão aritmética. Mas isso é outra história.
A ridícula exposição a que me reportei foi
consequência do imbróglio entre um colega e a nossa professora de Macroeconomia,
a linda Mara. Lembrei-me da história porque ontem me encontrei com o colega, Pedro
Avelino, o língua-santa. Vale a pena contar. Vejam o contexto.
Por causa da beleza e do nome Mara,
os marmanjos da classe chamavam a lindíssima professora de Maravilha. Às
caladas, né, gente?
“Os pares eróticos da Mara me tiram do sério, Xis. Lábios,
coxas, olhos... Minha Nossa Senhora! Sabe, Xis, as maravilhas do mundo eram pra
ser par, oito, a Mara”, costumava brincar o língua-santa.
Até que numa aula da sexta-feira à
noite, Pedro, meio biritado, quis tirar uma dúvida:
- Tenho uma dúvida, professora
Oitava Ma...
- Como assim Oitava, Sr. Pedro. O
senhor ia completar com Maravilha, não ia? Estou sabendo que o senhor e o
senhor Xis ficam nos corredores me apelidando de Oitava Maravilha e coisas mais
de cunho sexual. Isso é bullying, Sr. Pedro. Está mais do que na hora de
acabarem com essas molecagens. Fui clara, senhores?
Silêncio, risinhos irônicos das
meninas, escandalosa risada da Silvana, caro de tacho do Pedro. A professora
fugia do comportamento afável. Falava fora de si. Entrei na conversa:
- Está sendo injusta, professora.
Desculpe a franqueza. Não andamos por aí dizendo isso. Não há bullying coisa
nenhuma. Nem haveria, mesmo se a chamássemos de Maravilha, já que você é
realmente maravilhosa. Talvez haja quando me chamam de Xis, mas levo isso na esportiva.
Corro desses mimimis, professora.
Sucedeu, professora, que estávamos jogando conversa
fora, eu e o Pedro, quando o tema das Sete Maravilhas apareceu no papo. Então
brinquei e perguntei se ele sabia que as Sete Maravilhas do Mundo eram pra ser par.
E só não foi em razão do machismo e do preconceito, professora. Pois bem,
contei-lhe a história da criação das Sete Maravilhas. Essa história ficou na
cabeça dele, professora Mara. Daí que, quando biritado, como agora, Pedro fica
misturando as coisas, entendeu?
- Ah, é? E que história é essa? Conte
pra turma, senhor Xis. Desculpe, senhor Tião.
Silêncio, risinhos irônicos das meninas,
escandalosa risada da Silvana, cara de espanto do Pedro. Empalideci. E agora?
“Estamos esperando, Xis”, brincou a
Silvana, certamente imaginando que não tinha ocorrido a tal conversa com o
Pedro, mas que eu haveria de encontrar uma saída.
Olhei irado para a sorridente Silvana.
Mas a ira despertou-me a criatividade e comecei a falar. Engraçado como uma
coisa puxa outra e como a criação é parideira. Nunca me imaginei pai de tamanha
mentira. A classe ouvia de queixo no chão:
- Ocorreu o seguinte, professora
Mara. O cara que criou as sete Maravilhas do Mundo era meio doidão. Ele queria
um número par de maravilhas, entendeu?
Pensou no 6, mas o achou gorduchinho na traseira.
“Bundão. Serve não. Melhor o 8. Também não presta. Parece
uma professorinha com as mãos nos quadris. Cintura de violão não dá. E o 7 ou o
9, apesar de ímpares”?
O machista apanhou o 9, fê-lo grandão, pregou-o na
parede e ficou a contemplá-lo.
“Também está descartado. Tem a cabeça muito grande.
Acho até que
é cearense”. Em seguida, despregou-o da parede e proferiu a
lapidar sentença: “Opção zero. 9 fora”. Com isso ele queria dizer, professora,
que a chance de as 7 Maravilhas serem 9 era 0.
Então, professora, o desmiolado pegou o 7, pintou-o de
vermelho, bordou-lhe as beiradas e abriu-se em sorrisos.
“Esse é o cara. Além de esbelto é imponente. Vou
torná-lo viril, machão. Porei algo no meio da perna dele”.
Falou e fez um tracinho, um cortinho na perna, já
devidamente grossa, do felizardo 7. Ainda hoje usamos o cortinho quando
escrevemos o 7, não é, professora? O computador ignora o tracinho por ser falso
moralista.
Desse episódio, professora, passaram para história as
seguintes expressões:
Fulano pintou e bordou e fulano pintou o 7.
Bom, enciumados por terem sido renegados, o 6 e o 8
fizeram a cabeça dos parceiros, exceto a do 10, e começaram a espalhar pela
numerada que o vizinho 7, agora paramentado, era falso, mentiroso.
7 é conta de mentiroso começou ali, professora. Até
agora o 7 é grato ao 10 por ele não ter ido na conversa do 6 e do 8. É por isso
que quando uma pessoa é legal, a gente costuma dizer: aquele cara é 10.
Foi essa a história que contei ao Pedro. Por justiça, devo
acrescentar uma observação dele em alusão ao 8 do aluado: “Cintura de violão, professorinha
com as mãos nos quadris. O bicho falava da professora Mara, Xis”.
É isso, professora, falei, dando por encerrada a
patética exposição.
Aplausos, gente. Ganhei aplausos. E esta manifestação
da Silvana:
“Você é 10, Xis. Sabia que se sairia bem”, disse ela, enchendo-me
de beijos.
Perceberam, não foi, que me apelidaram de Xis? Culpa da
Silvana. Explico. Estudávamos no Khalil Gibran (nos conhecemos lá) quando a coisa começou. Prova de
matemática, uma questão pedia o valor de X. X =. Aí vinha uma aloprada
expressão. Eu tinha enorme dificuldade com tais equações, autêntico bloqueio
com o X. Silvana até assoprou: “Dá 13”. Mas eu não sabia desenvolver a danada. Quebrei
a cabeça e terminei a cabeça perdendo. Falei em voz alta:
Esse X é um galado. Não consigo encontrar o valor do
idiota.
Galado e idiota é você, seu burro. Estude!
Estudo, imbecil. Acontece que você é um desqualificado,
tremendo vira casaca. Vive mudando de valor. Você se põe antes de dois
tracinhos, bota na frente uma porrada de garranchos, cuja função é se pegarem,
se abraçarem, se fundirem, numa verdadeira suruba numérica, e fica aguardando essa
turma chegar a você. Chegam e você vira licencioso orgasmo aritmético. Você é
um pervertido, cara. Quer mais? Veja-se no futebol. Você adora botar 11 marmanjos num lado e 11 noutro. Bota e fica no meio, de garranchos abertos, sem tomar partido. É mentira minha, é mentira munha!
E você é pirado, bicho.
Pirado uma porra. Xinguei-o com um vtnc e amassei a
prova todinha. Escutei uns gemidinhos e a ameaça:
Vou te pegar, miserável. Não perde por esperar.
Não esperei muito. Mais tarde, num X íntimo, digamos
assim, com a sapeca Silvana, o peste ficou me azucrinando. Eheheh, não
consegue, não consegue...
- Nossa! Que foi, amor?
- O peste do X, Silvana. Fica me azucrinando no ouvido
esquerdo.
Silvana, então, introduziu a língua no meu ouvido e ficou
mexendo. Mexia em cima e eu me mexia embaixo. O pestinha também se mexeu e partiu.
E nós acabamos de ficar.
A desbocada Silvana contou essas coisas para as colegas
da classe, que contaram para outras meninas, que saíram contando, que... Certo
é que a universidade começou a me chamar de Xis. Não me importo. Só fico
encabulado é com os risinhos da mulherada. Algumas chegam a morder os beiços.
Bom, disse que o veado do X se mandou. Mandou-se, mas
reapareceu dali a duas horas. Estávamos perto da casa da Silvana quando fomos
parados pela Lei Seca. Sereno, já que não bebia havia duas semanas, levei um
susto com a ordem de prisão:
- O senhor está preso. Está com sete decigramas de
álcool no sangue.
- Impossível, policial. Não bebo há duas semanas.
- Esse bafômetro tá doido, policial. Meu namorado não
bebeu uma gota de álcool. Só bebeu prazer. A menos que...
- O que seu namorado bebeu e comeu não me interessa,
moça. Ele está preso e pronto.
- Posso ver o laudo, policial?
Peguei o laudo e não vi a informação dos sete
decigramas.
- Não consta a dosagem, policial.
- Consta, sim. Veja no topo do laudo. Tem um
quadradinho com um X vermelho dentro indicando a dosagem.
Embriagadíssimo abril/18
TC
Um comentário:
OI, teste
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