sábado, 12 de novembro de 2022

COISAS

 Olá, pessoal,

Apresento-lhes COISAS, minhas novas loucuras. Abaixo a primiera página delas. Caso queiram manuseá-las, comentem aqui embaixo, digam no Zap 98800-1610 ou usem o tccarneiro@gmail.com. Não se acanhem. Minhas COISAS são deliciosas. 

Um abraço bem coisado


.Fala, irmãos...

Parece que estou vendo os risinhos de cantos de boca para o nome de certos protagonistas desta coletânea: Zião, Kião e Feição soam realmente pitorescos. Mas o trio, ãos raízes, digamos assim, é da mesma família dos modernos Damião, João, Simão, Bastião. Todos são enenetos do patriarca Abraão. Nosso eneavô era obstinado pelas suas ideias. Queria porque queria que os descendentes tivessem “ão” no nome. E ai de quem não o seguisse. Falei nosso porquanto também ser dos ãos, pessoal.

Liguem-se neste contextinho:

Abraão vive em Ur, na Caldeia, nos arredores do hoje Iraque. Isso por volta de dois mil anos antes de Cristo. Bela tarde, Abraão escuta estas palavras de Javé:

“Abrão, saia da sua terra e vá para a terra que lhe mostrarei. Farei surgir de você um grande povo e o abençoarei. Tornarei famoso o seu nome. Abençoarei os que abençoarem você e amaldiçoarei aqueles que o amaldiçoarem”.

Abrão saiu em busca da terra prometida. Até que chegou à Canaã.

Javé cumpriu a promessa. Abraão foi um homem abençoado. Morreu com 175 anos.

Detalhes. Abraão chamava-se Abrão. A alteração para Abraão só se deu em Canaã, na Israel de hoje. Abraão era rico e culto. Um homem fora da curva, na gíria de hoje. Foi Abraão quem plantou as sementes do monoteísmo religioso e criou o termo coessência. Queria dizer com isso que ele e Javé tinham um essência comum. Essa palavra foi se modificando até se transformar em “consciência” cuja definição fala de um princípio de origem divina, acima da qualidade moral e motivos de uma pessoa, a qual funciona como juízo do certo, vinculado ao Bem, e do errado, unido ao Mal.

Impressionante é que, passados milênios, muitos agregados de Abraão não conseguiram decorar esse conceito. Nem precisavam decorá-lo. Suficiente seguirem as entrelinhas do “juízo do certo” e não fazerem com outros agregados o que esperam que outros agregados não façam com eles.

Mas esta coletânea, sosseguem, não visa resgatar a história de Abraão. Só falei dessas coisas a fim de contextualizar a obstinação de nosso patriarca. É que Abraão botou na cabeça que a sua coessência com Javé se dava em virtude do “ão” do nome. Daí que os descendentes gozariam de análoga bem-aventurança se tivessem no nome o abençoado ãozinho.

Esse mandamento sobreviveu por longo período. Proliferavam “ãos” em nomes de meninos e de meninas. Mas a coisa foi esfriando de tal forma que no início da era cristã o “ão” tão desejado pelo nosso eneavô já agonizava no porão da história. E não apenas no Brasil, informe-se. Mas, sejamos justos, existe razoável número de “ãos” pelo mundo afora. João, Damião, Adão, Simão, Girão, Romão não me deixam mentir. Mas razoável só no masculino, continuemos fiéis à história, porque, no feminino, não existem mais do que estas cinco: Conceição, Apresentação, Consolação, Anunciação e Assunção.

Duvida? Pois coce o quengo, leitor, pra ver se acha outros. Encontrou mais algum, leitora? Pois!

Atualmente, ãos raízes, raiz da gema mesmo, só existem no Brasil – e no mundo - os descendentes do Sr. Ksertão, tataraneto de Simão, que era pentatataraneto de Adão. Por que o complemento “raízes”?

Vejamos.

Ocorre que Ksertão vivia lendo as histórias do patriarca Abraão. De tanto ler, acabou pirando. Na verdade, o nome de batismo do Ksertão era apenas Sertão. O que acontece. O pirado criou quatro mentiras de uma vez só.

Mentira 1: que Abraão tomava sete banhos durante o dia;

Mentira 2: que Abraão dormia peladão;

Mentira 3: que Abraão só fazia certa coisa e aquela coisa em pé.

Mentira 4: que Abraão teve dez filhos com uma segunda mulher, a Cetura, já que Sara, a esposa, não podia ter filhos. De mais a mais, todos os filhos tinham o nome começando pela letra “K” ou “V”. E terminando em “ão”, por óbvio.

Sertão não apenas começou a copiar a mentira, como também obrigou os familiares a segui-lo. Acontece que os filhos, na desobediência esperada dos jovens, rebelaram-se contra a certa coisa em pé. A esposa, contudo, fez os gostos do marido. Mas por pequeno período e em relação – apenas - à certa coisa. No tocante àquela coisa, ela balançou o dedinho do “nã, nã, nã”, fez finca pé e o mandou tirar o cavalinho da chuva.:

“Isso nem a pau”, Sertão, dizia.

Então. Concebido o embuste, Sertão passou a exigir que o chamassem de Ksertão. E alardeava que o autêntico partidário de Abraão, o seguidor realmente raiz, teria que ter o nome começando com K ou V. Sertão não mexeu só no nome dele. No dos filhos e no da mulher também. A esposa, por exemplo, que se chamava Maria Viviane, passou a ser chamada Maria Vivião.

Porque históricos, vou descrever alguns episódios decorrentes do Ksertão. Acontecem nas despedidas do século XIX, no Rio Grande do Norte, estado do Nordeste brasileiro, onde o amalucado residia e tinha um mundo de terra.

O primeiro acontece quando Maria da Natividade, casada com João, sobrinho de Ksertão, pare uma menina. Tomam o mijo do nascimento. aí, Ksertão, já insinuando ser o padrinho da garota, logo lhe dá um nome: Vajão.

Natividade fica uma fera. Não botaria tal coisa como nome da menina. Ainda que o esclerosado Ksertão ficasse trombudo com ela. Natividade passa meses concebendo um nome para a filha. E eis que num domingo, ela e o marido tomando cachaça com cabeça de bode, chega-lhe a inusitada ideia de um nome incomum. Fala pro João. João abre um sorriso e faz um tim-tim de copo. Correriam o risco de ver a menina no caritó ou dando pra todo mundo, sim, mas o desassombro valia a pena.

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