O GRUDE DA CARMINHA E A VÍRGULA SAFADINHA
- Rosinha, mulher, mande-me, pelo cobrador da besta,
dois pacotes de grude pra eu mandar para o meu namorado que está em estremoz.
Capriche naquele negocinho, viu?
Vocês não
imaginam o quiproquó que deu esse simples pedido. Vou explicar.
O pedido foi feito num papo de computador, pela
professora Carminha, amicíssima da grudeira Rosinha. Rosinha mora em Extremoz,
cidade a um salto de pulga de Natal-RN e conhecida por produzir grudes
deliciosos. Carminha reside em Natal, cidade conhecida... Bom, não interessa. O
que interessa é a resposta da Rosinha:
- Quem é esse
namorado, mulher, que tu nunca me falasse dele? Eu, hein! Outra coisa. Se ele
mora aqui em Extremoz, por que cargas d’água o grude precisa ir aí pra Natal e
depois voltar pra cá?
Cabem agora
duas explicações: o grude e Extremoz.
O grude é
gostosa guloseima feita com goma de mandioca mole, enrolada na folha de
bananeira
e assada em forno de casa de farinha. Pelo menos era assim no meu tempo de vendedor de grude. Grude, tapioca e beiju são farinha do mesmo saco, se querem saber. E Extremoz é o maior produtor de grudes do mundo, se querem continuar sabendo. Pertinho do cartório tem até uma estátua dum menino vendendo grude. Dizem que o menino sou eu, mas, fiquem sabendo, é desgrudada mentira, embora eu tenha vendido muito grude naquela região. Tinha uma raiva dos diabos quando os mais velhos me perguntavam se a mulher que havia feito os grudes já tinha ficado boa da ferida:
e assada em forno de casa de farinha. Pelo menos era assim no meu tempo de vendedor de grude. Grude, tapioca e beiju são farinha do mesmo saco, se querem saber. E Extremoz é o maior produtor de grudes do mundo, se querem continuar sabendo. Pertinho do cartório tem até uma estátua dum menino vendendo grude. Dizem que o menino sou eu, mas, fiquem sabendo, é desgrudada mentira, embora eu tenha vendido muito grude naquela região. Tinha uma raiva dos diabos quando os mais velhos me perguntavam se a mulher que havia feito os grudes já tinha ficado boa da ferida:
“Ela num tem
bexiga de ferida não, meu senhor”, respondia. Até hoje, juro por tudo que não é
sagrado, não sei por que os pestes perguntavam aquilo.
Agora o
Estremoz do pedido. Carminha se referia à Estremoz, assim com s, em vez do
Extremoz com x. Estremoz com s é uma cidade de Portugal. O namorado da
Carminha, o Virgulino, estava trabalhando lá, numa marmoraria. Interessante é
que o Extremoz de cá já foi escrito com s, se é que não sabem, assim como o
Estremoz de lá era grafado com x, aprendam essa também, caso desconheçam.
Então,
cientificada da situação, a nossa amiga Rosinha tratou de fazer os grudes da
Carminha. Bom, os bichos chegaram a Natal e de lá, devidamente caprichados no
tal “negocinho” recomendado pela Carminha, voaram para o Estremoz português.
O grude de
Extremoz, gente, tem alto poder libidinoso. Principalmente os feitos pela
Rosinha. O verbo grudar, saibam todos, nasceu do grude de minha terra. Agora,
não me perguntem o que a Rosinha põe no manjar dela, pois cristão algum tem a
resposta. Conhece-se tão somente o rito operacional da Rosinha. Ela se tranca
num cubículo, durante três dias de cada mês, prepara uma substância, joga o
unguento numa cuia, mistura-o na goma e pimba: está pronta a massa para 1069
grudes.
Mas a internet
é osso, gente. Quinze dias depois de enviada a iguaria, o Virgulino está
mexendo na internet, saboreando os deliciosos, quando dá de cara com o diálogo
entre a Carminha e a Rosinha. Lê a solicitação da namorada, e a imaginação
volumosa que começara a invadi-lo é arrefecida pelo ciúme. Virgulino imprime o
pedido, e no dia seguinte pega o primeiro avião para o Brasil. Chega a Natal e
vai direto bater boca com a Carminha. Sob o protesto dos efeitos do grude, nem
sequer a beija:
“Quantos
namorados você tem, afinal de contas”, acusou-a, omitindo o nome da Carminha.
- Que é isso,
amor! Você mal chega e, em vez de me beijar, já cospe blasfêmia na minha cara.
Só tenho você, Virgulino.
“Blasfêmia uma porra! Você mesma confessou que tem
um bocado de macho. Veja o que disse aqui”, rebateu o Virgulino, lendo o pedido
da Carminha:
“Rosinha, mulher, mande-me, pelo cobrador da besta,
dois pacotes de grude pra eu mandar para o meu namorado que está em estremoz.
Capriche naquele negocinho, viu?”
Viu a
confissão, D. Carminha? “Mandar para o meu namorado que está em Estremoz”. Eu era
o namorado que estava em Estremoz. Em que lugares você tem mais namorados? Aqui
em Natal, no Rio de Janeiro, São Paulo, na bexiga taboca, nos quintos dos
infernos? Onde? Onde? Se tal coisa tivesse sido escrito por analfabeto, tudo
bem. Mas você, professora de português! Foi seu subconsciente que não botou a
vírgula depois de namorado. Foi ou não foi? Essa foi de lascar o cano, D.
Carminha.
- Oh, amor.
Não botei a vírgula de propósito. Tive medo da leitura subliminar. A vírgula,
Virgulino, é graficamente flácida, concorda? Então! Ainda quis botar o
travessão - sinal subliminarmente apropriado - mas fiquei receosa quanto à
estética do período. Entendeu agora, amor? Quis apenas ajudar, querido.
Virgulino
ficou de queixo caído, de olhos aboticados, de nariz alevantado. Pensou em
fazer uma interrogação, exclamou algo ininteligível, tornou-se reticente, mas
pôs um ponto final na conversa.
Moral da
história.
Ah, deixo essa
parte pra vocês, nobríssimos e nobríssimas.
Abraços
disvirgulados,
Tião
3 comentários:
È tião, ao contrário do: CHICO que achei interessante, essa do Grude eu achei mesmo foi muito engraçada. Que coisa heim? Que confusão esses personagens fazem, não é mesmo? Mas é bom, pois a leitura fica um pouco divertida. Valeu!!!Essas coisas eu adoro lê....
Moral da história: O valor significativo de uma vírgula dentro de um texto. A ausência da mesma pode causar um confusão dos diabos, não é mesmo?
É, Francisca, a vírgula é um sinalzinho safado, além de morgado.
É isso,
Um abração,
Tião
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