LEITORES
E CRÍTICA
Tenho dois leitores especialíssimos. O de fala
grossa é um chato de sapatilha cimentada. A de voz amena é uma simpatia de
meias aveludadas. Em comum nos dois a inoxidável franqueza. Em comum para ambos
a férrea amizade deste brejeiro escrevente.
“Não entendi nada daquele texto. Estava
profundo demais, meu caro”, costuma me dizer o feioso de fala grossa. No texto
seguinte: “Muito banal a postagem de hoje. De linguagem arranca toco, sem uma
pataca de valor literário, meu”.
Falo grosso, digo
que não preciso da leitura dele, sugiro-lhe o Machado e o Tchékhov, e...Vamos
logo procurar um barzinho.
“Faz uma
semana que não acesso seu blogue, Tião. Mas, como de hábito, adorei a última
postagem que li”, é assim que a bonitona de voz amena começa um papo literário.
Faço um riso maroto, ela percebe que estou percebendo o embuste, então, também
marota, se sai assim: “Você tem razão. Há um tempão não entro em seu blogue. A
última leitura foi A
REVISTA DA CLÍNICA, texto publicado em janeiro, se não me engano.
Aliás, achei a crônica meio, como é que se diz, meio assim, sabe?”
Falo
sorridente, digo que preciso da crítica dela, sugiro-lhe as postagens recentes,
e... Às vezes ela encerra a ligação; outras, fecha a mensagem virtual; mas, no
mais das vezes, liga o carro e vai embora. Eu vou logo procurar um barzinho.
Sozinho, evidentemente.
Vou logo, não. Vim logo, sim. Estou
aqui a matutar, notebuque nas pernas, sobre essa loucura de escrever. Mas, como
prova da doideira, escrevendo. Pela amostra dessa dupla se nota o masoquismo de
quem escreve. Vejam só:
O coxa cabeluda condena as duas
leituras, ora cafona, ora erudita, diz ele, embora o estilo tenha sido
idêntico.
A coxa lisinha diz adorar o estilo
do autor, ainda que a última crônica tenha lhe parecido meio assim, assim, mas
fica quatro meses sem lê-lo.
Diga aí? Eu, que proseio duas,
quatro vezes ao mês passo por essas, imagine o escritor, escritor mesmo. É
fingido e masoquista ou não é o azoreta que se mete a escrever?
A propósito desse cata-sofrimento,
vou fazer um copiar/colar dum fragmento de meu novo romance, o Intuitor
Bião – um Homem de Palavra. No trecho, o Bião (escritor/intuitor)
conversa com o Marcão (revisor da última obra do Bião) sobre literatura. Podem
me tachar de fingido e oportunista, meus nobres. Entendê-los-ei numa boa. De
boçal e de língua enrolada também. Continuarei os entendendo.
Vamos ouvir o Bião?
...
Falar em crítica, esse é outro ponto
chatinho. Penso assim, Marcão. Todo escritor tem uma vertente ficcional. O
texto do Saulo Marreco cativou o povão, embora algumas pessoas julguem carente
de valor a literatura dele. É precipitado afirmar, Marcão, que escrito tal não
tem importância literária. Esse valor é
muito escorregadio, entendes?
Já
me disseram que a literatura vive estirando a língua para as minhas prosas, que
os meus romances são amazonicamente informais, que o vocabulário é chulo, que
desrespeito a norma culta do idioma, que os diálogos são cansativos, que
engordo a obscenidade e por aí vai a fila de quês. Não dou a mínima. Literatura
ficcional é lazer e instrução, Marcão. Mas, a meu juízo, o entretenimento está
em primeiro lugar.
Escrevo,
crio realidades paralelas e convido o leitor para compartilhar essas vivências.
Exibo-me, desnudo-me e exponho o dito leitor quando ele concorda comigo. Mas
acredite, Marcão, no fundo, no íntimo mesmo, a ideia é me divertir, cara. Dou
escandalosas risadas ao criar certas loucuras. Loucuras analgésicas da
insatisfação, curativas da angústia, emplastros da solidão. Como te falei, não
preciso da grana de literatura, mas não serei hipócrita de dizer que desdenho
os trocados caídos na minha conta. Também não serei cínico de negar a vaidade.
Sou vaidoso, sim. Comentários elogiosos deixam-me de ego cansado de tanto
pular, bicho.
Permita-me
uma confissão, cara. Um amigo do peito, baluarte da literatura brasileira,
expressou-se desta forma, não faz um ano, quando lhe disse que aqui em Andiroba
os críticos me tacham de informal, beirando ao chulo. Bom, esse amigo se
dirigiu a mim nestes termos, Marcão:
“Os
andirobenses estão sendo generosos, meu caro Bião. Avaliam-no apenas pelo
conjunto externo de sua prosa, que, no fundo, é um conjunto vazio. Se
externamente a sua prosa é vazia e mais um pouco, internamente então... Você se
perde, Bião, ao querer transformar em humor o nefasto conjunto. Seria aceitável
se essa transformação resultasse em fino humor. O problema é que o humor é fino
mesmo. É esqueleticamente pobre, Bião. Mas você permanece rascunhando do mesmo
jeitinho, não traceja o menor esforço de mudança. Já falei sobre isto, mas não
custa repetir: aconselhe-se com as obras clássicas, espelhe-se nos torneios
verbais dos brasileiros, mire-se no ecletismo de seus conterrâneos. Mude o
estilo, homem. Deixe a prosa cabocla de lado e invista em textos inteligentes.
Dê consistência interna a seus escritos, Bião.
“Você
diz que escreve a fim de se divertir e espera que o leitor também se divirta. A
intenção é boa, porém secundária. O divertimento deve surgir como sobejo, não
como o maná da mesa. No banquete literário não pode faltar informação,
reflexão, sabedoria. A literatura precisa ser posta à mesa com estilo, postura,
decência. Desse estiloso cardápio provém os pratos que saciam o leitor e o
deixa babando no aguardo das refeições seguintes. Entretanto, Bião, sua ficção,
de tão caipira, assemelha-se mais a um café sossega-tripa servido numa mesinha
de plástico.
“Garçons
de tais banquetes, Bião, comovem, incitam, desafiam; fazem chorar, rir, pensar.
Com os seus garçons, ao contrário, os comensais sentem-se... Desculpem os que
continuam lendo você, mas esses comensais se abatem, se acabrunham, se
desiludem. Ficam chorosos, risonhos, pensativos.
“Seus
tradutores, Bião, são excelentes profissionais. Essa é a explicação para você
ser tão bem vendido no exterior e vender apenas o razoável nos países de língua
portuguesa. Mas, nos dois horizontes, o original de suas prosas permanece
vazio. É digno de admiração...”
Puxa,
Bião, esse amigo é amigo mesmo, cara, falei, cortando-lhe a corrente elogiosa.
O que dissesse ao mui amigo?
—
Ora, Marcão, disse o que deveria ser dito. Mandei o bossal tomar naquele canto,
levantei-me e fui embora. Da porta, gritei:
“Às
favas seu discurso afetado, às favas suas imagens imbecilizadas, às favas seus
paralelismos ginasianos, às favas suas metáforas camponesas. Prefiro comer
batata doce com tripa assada, servidas com a verdade dos roceiros, mesmo em
mesinha de plástico, a saborear o manjar dos deuses, mas servido com a patranha
de certos guapos, mesmo em mesonas de mármore.
“Tem
mais, ilustre profitente. Não preciso das comidas artificiais de seu maldito e
estiloso cardápio. Meu sabor está na ponta da língua, enraizado pela
naturalidade dos autênticos. Esqueça meu conjunto vazio, empanturre-se de
erudição e soque seus conselhos bem no centro de seu tônico, monossilábico e
biunívoco conjunto. Depois se divirta com o sobejo de tudo.
“Escreva
como lhe convier. É direito seu. Mas reserve-me o direito de ser como sou, tá
legal? Não sou escritor, seu doutorzinho e literato de merda. Sou intuitor.
Intuitor! Intuitor! Ouviu bem? Escritor apenas flerta com a intuição. Intuitor
é com ela amigado. Sacou, meu?”
Bião,
amigo velho, pegasse pesado com o amigo. Desconhecia essa história. Vou
contá-la ao Mestre Simas. Ou o Mestre já conhece?
— Como deveria me comportar, Marcão?
Quer dizer que o cara me esculhamba, pede-me que copie o estilo dos famosos,
classifica-me de rascunhador de prosas, e eu, só porque o peste é influente
jornalista, crítico literário, colunista cultural, devo ficar com a cara
mexendo, é? Não tenho sangue de barata não, meu amigo. Desconheces a história
porque não costumo dar publicidade aos acontecimentos negativos. Falei isso
agora devido ao contexto. Simas conhece o episódio, sim, seu lambe-botas...
Quer conhecer melhor o Bião? Ele
mora aqui: tcarneirosilva@gmail.com
Tião Carneiro
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