A MARCHA DAS
VADIAS E A COMUNICAÇÃO
Este escrito,
nobres leitores, certamente será classificado de demasiadamente óbvio. Como a
obviedade é isenta de punição física, continuarei a aborrecê-los. Comunicação é
o vocábulo chateador. Talvez vocês discordem, mas, em sentido oceânico,
comunicação é a palavra mais importante do idioma universal. Referi-me a
abarcamento oceânico, visto o riacho do dizer verbal, o Amazonas da expressão
gestual, o mar do discurso mental, tudo, mas tudo mesmo, desaguar na convivência
humana. Se caudalosa ou serena tal convivência vai depender do sentido da
comunicação. Não é isso óbvio? Então por que o descuido com a qualidade do que
comunicamos parece-me de torrencial burrice?
E qual é a
relação do vadear dessas esqueléticas metáforas com as Vadias da titulação
acima? Vadearemos ao Canadá e veremos.
Não foi um policial do Canadá que se
descuidou da comunicação e disse que as mulheres precisavam se vestir
direitinho para não parecer vadias? Então! Então a mulher não pode ser livre? Que
coisa!
A comunicação
preconceituosa do cara foi um murro na moleira do livre-arbítrio de nossas
musas e deu no que deu: descomunal vertente da comunicação saiu do Canadá e, em
poucos segundos, atravessou mares e mares, desembocou na mídia, desembarcou nas
ruas e originou legítima manifestação, a Marcha das Vadias, contra a fala
discriminatória do infame policial.
Contudo, todos
sabemos o que o policial acalentava na mente. Porque, fiquem certos, meus
nobres, nada é comunicado sem a aceitação mental. Palavras representam tão
somente a comunicação mentalizada. Entra aqui mais uma faceta da comunicação,
quiçá a mais primitiva. Imaginação versus visualização erótica simboliza tal
faceta. “Não despertem abusivamente a imaginação erótica masculina. Por isso, vistam-se
assim e não assado”, pensava assim o homem de farda.
Imaginar,
gente, é visualizar alguma coisa que nunca vimos. Visualizar, nobríssimos, é
imaginar algo que conhecemos. E isso é extremamente verdadeiro no universo
sexual. Varia apenas a intensidade do sentimento e ocorre cartesianamente entre
macho e fêmea. E, se largarmos a hipocrisia, concluiremos que precisa ser
assim, porquanto a espécie humana correria o risco de extinção caso essa
comunicação inexistisse. A palavra síntese desse “porquanto” e a segunda mais
potente do expressar humano é...
Reticenciei-me,
não por artifício literário, e sim por precaução libidinosa. Sei lá se alguém
aí não começa a tachar-me de cúmplice do policial, ver-me estuprador e coisas
que tais? Ocorre que, simultaneamente à imaginação e à visualização, existem a
racionalização e o comedimento. Sentimos o desejo de fazer aquela viagem,
pretendemos adquirir aquele carro, temos vontade de assistir àquele filme. Mas,
por circunstâncias diversas, a frustração é que nos acolhe. A escandalosa
publicidade, a vestimenta a que se reportou o policial, não deve dar motivos
para sairmos assaltando a fim de nos satisfazer. Embora, à semelhança do
arruaceiro sexual, existam pessoas que assim ajam.
A
palavra síntese que deixei em reticência faz parte do contexto sexual, mas não
é sexo. Prazer é o nome dela. É o prazer que nos faz procurar as coisas e, mais
sintomático ainda, leva-nos à repetição dessas coisas. Antes do prazer vem a
imaginação, é claro. Imagina-se o prazer, ou a renovação dele, e procura-se o
repeteco do futebol, buscam-se as palavras de um livro e, é lógico, deseja-se o
bis do esperneado prazer supremo.
A troco
de que assistiríamos a jogos e mais jogos de futebol, se a visão de 22 homens
atrás de uma bola é sempre a mesma?
Qual é
a graça de ficarmos de cabeça torta a ler um livro, no mais das vezes recheados
de sofisticadas mentiras?
Se homens e mulheres são anatomicamente iguais, sem a
imaginação do prazer carnal haveria motivo para continuar a se esfregarem?
Será que depois das primeiras cópulas, rolaria alguma pegação
caso a galera não ficasse imaginando os momentos do sublime néctar? Duvido dê o
dó!
Continuaríamos
a procurar o futebol, o livro, o sexo, senão pela renovação do prazer?
Existiríamos na ausência de prazeres?
Certo
estava o Shakespeare quando afirmou que o que não dá prazer não dá proveito. E
eu completo: o que não dá proveito dá indiferença.
Será
que o prazer surgiu do nada? Recomendo-lhes o Intuitor Bião – um Homem de
Palavra. Nesse livro, você encontrará o que essa prosinha não me
permite dizer. Mais duas palavrinhas, se me permitem a fuga contextual.
A meu
ver, o acaso molecular não explica sensações mentais, tais quais o prazer.
Emoções só têm sentido se advindas de um sopro amigo, de uma força amorosa que
se diverte com a nossa meninice, de um ser que goste de gente, de um sangue
bom, afinal.
Ondas
de felicidade, sentimentos de compaixão, manifestações de individualidade, por
fim, não podem ter explicações similares às que a química nos oferece quando
diz como é formada a água. Hidrogênio é muito diferente de sorriso, e oxigênio
e afeição não se bicam.
É isso!
Com renovado prazer, vou dar uma força na Marcha das amigas
Vadias.
Comunicação
e prazer. Pensem em duas palavras potentes!
Agora
me diga. Por que vocês acham que vivo escrevendo essas bobagens?
Um
prazeroso abraço,
Tião
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