terça-feira, 20 de dezembro de 2022

A MORTE DA CIGANA

 



 

A Morte da Cigana

Colaboração de Mardone França

 

Mardone França  Cigana Cigana agonizara três dias no curral, sem forças para se manter de pé, tampouco, se interessava mais pela água e o capim que lhe ofereciam. Definhara tanto que as carnes já não cobriam os ossos, os quais espetavam a pelagem branca acinzentada, outrora, luzidia. Quedou-se estendida embaixo da latada, feita para protegê-la do sol inclemente da seca de 1958, no Ceará. Os urubus não se achegaram; a latada, os impediam de vê-la. 

Porém, a malta de famintos, homens, mulheres e crianças, desde o dia anterior, fazia vigilância em torno do curral munidos de peixeiras, fações e machados, dispostos a entrar em ação ao primeiro sinal de descuido da vigilância do proprietário que, determinara aos seus serviçais, enterrar rapidamente, tão logo a Cigana morresse. Era preciso evitar que a carne fosse consumida por pessoas pois, não se sabia a causa da morte. Alguns, mais entendidos, diziam que fora tuberculose galopante, dada a rapidez da doença, outros atribuíam à picada de cascavel ou jararaca. 

            Cigana era a estrela do pequeno rebanho, estava na terceira cria. Por ser boa produtora de leite e de cria recente, ficou para fornecer leite à família, enquanto o restante do gado foi na retirada para o Piauí, escapar da morte por fome e sede no Ceará. Da fome ela escapou, mas, no sertão da seca, o bicho que não morre de fome e sede, morre por picada de cobra, por morte matada ou por doença desconhecida.

            No terceiro dia, antes mesmo que a morte se abatesse sobre Cigana, a fome e a impaciência do grupo que fazia sentinela, era prenúncio de invasão do curral. Num instante, naquela tarde de sol escaldante,

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

O Mar de Camocim

 

    

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Colaboração do contista Mardone França

O Mar de Camocim 

                                                                                       Mardone França

Naquele dia, o menino acordou com uns pensamentos na cabeça sobre o mar de Camocim. Intuiu como chegar lá a partir da conversa que teve com o padrinho. E imaginou seu plano: entrar no riacho do Meio, navegar pelo rio Pequeno e adentrar nas correntezas do rio Grande. Assim, pensou que chegaria ao mar de Camocim. Pelo chão, montado em cavalo estradeiro, gastaria entre quatro e cinco horas; pela água, nunca foi medido. Começou a tomar as providências para executar seu plano de navegação. Juntou madeira de cerca velha, uns tantos paus que desse para fazer uma balsa; mais para jirau do que algo que navegasse. Com corda de tucum fez a amarração e testou a flutuação com seu peso de menino seco de 11 anos. 

Encomendou à avó rapadura, farinha, macaxeira e peixe fritos para o dia seguinte. Dormiu com ideias confusas na cabeça e até sonhou chegando ao mar de Camocim. 

No dia seguinte, logo cedo, embalou os alimentos em papel de embrulho e colocou no farnel de couro. Para quantos

sábado, 12 de novembro de 2022

COISAS

 Olá, pessoal,

Apresento-lhes COISAS, minhas novas loucuras. Abaixo a primiera página delas. Caso queiram manuseá-las, comentem aqui embaixo, digam no Zap 98800-1610 ou usem o tccarneiro@gmail.com. Não se acanhem. Minhas COISAS são deliciosas. 

Um abraço bem coisado


.Fala, irmãos...

Parece que estou vendo os risinhos de cantos de boca para o nome de certos protagonistas desta coletânea: Zião, Kião e Feição soam realmente pitorescos. Mas o trio, ãos raízes, digamos assim, é da mesma família dos modernos Damião, João, Simão, Bastião. Todos são enenetos do patriarca Abraão. Nosso eneavô era obstinado pelas suas ideias. Queria porque queria que os descendentes tivessem “ão” no nome. E ai de quem não o seguisse. Falei nosso porquanto também ser dos ãos, pessoal.

Liguem-se neste contextinho:

Abraão vive em Ur, na Caldeia, nos arredores do hoje Iraque. Isso por volta de dois mil anos antes de Cristo. Bela tarde, Abraão escuta estas palavras de Javé:

“Abrão, saia da sua terra e vá para a terra que lhe mostrarei. Farei surgir de você um grande povo e o abençoarei. Tornarei famoso o seu nome. Abençoarei os que abençoarem você e amaldiçoarei aqueles que o amaldiçoarem”.

Abrão saiu em busca da terra prometida. Até que chegou à Canaã.

Javé cumpriu a promessa. Abraão foi um homem abençoado. Morreu com 175 anos.

Detalhes. Abraão chamava-se Abrão. A alteração para Abraão só se deu em Canaã, na Israel de hoje. Abraão era rico e culto. Um homem fora da curva, na gíria de hoje. Foi Abraão quem plantou as sementes do monoteísmo religioso e criou o termo coessência. Queria dizer com isso que ele e Javé tinham um essência comum. Essa palavra foi se modificando até se transformar em “consciência” cuja definição fala de um princípio de origem divina, acima da qualidade moral e motivos de uma pessoa, a qual funciona como juízo do certo, vinculado ao Bem, e do errado, unido ao Mal.

Impressionante é que, passados milênios, muitos agregados de Abraão não conseguiram decorar esse conceito. Nem precisavam decorá-lo. Suficiente seguirem as entrelinhas do “juízo do certo” e não fazerem com outros agregados o que esperam que outros agregados não façam com eles.

Mas esta coletânea, sosseguem, não visa resgatar a história de Abraão. Só falei dessas coisas a fim de contextualizar a obstinação de nosso patriarca. É que Abraão botou na cabeça que a sua coessência com Javé se dava em virtude do “ão” do nome. Daí que os descendentes gozariam de análoga bem-aventurança se tivessem no nome o abençoado ãozinho.

Esse mandamento sobreviveu por longo período. Proliferavam “ãos” em nomes de meninos e de meninas. Mas a coisa foi esfriando de tal forma que no início da era cristã o “ão” tão desejado pelo nosso eneavô já agonizava no porão da história. E não apenas no Brasil, informe-se. Mas, sejamos justos, existe razoável número de “ãos” pelo mundo afora. João, Damião, Adão, Simão, Girão, Romão não me deixam mentir. Mas razoável só no masculino, continuemos fiéis à história, porque, no feminino, não existem mais do que estas cinco: Conceição, Apresentação, Consolação, Anunciação e Assunção.

Duvida? Pois coce o quengo, leitor, pra ver se acha outros. Encontrou mais algum, leitora? Pois!

Atualmente, ãos raízes, raiz da gema mesmo, só existem no Brasil – e no mundo - os descendentes do Sr. Ksertão, tataraneto de Simão, que era pentatataraneto de Adão. Por que o complemento “raízes”?

Vejamos.

Ocorre que Ksertão vivia lendo as histórias do patriarca Abraão. De tanto ler, acabou pirando. Na verdade, o nome de batismo do Ksertão era apenas Sertão. O que acontece. O pirado criou quatro mentiras de uma vez só.

Mentira 1: que Abraão tomava sete banhos durante o dia;

Mentira 2: que Abraão dormia peladão;

Mentira 3: que Abraão só fazia certa coisa e aquela coisa em pé.

Mentira 4: que Abraão teve dez filhos com uma segunda mulher, a Cetura, já que Sara, a esposa, não podia ter filhos. De mais a mais, todos os filhos tinham o nome começando pela letra “K” ou “V”. E terminando em “ão”, por óbvio.

Sertão não apenas começou a copiar a mentira, como também obrigou os familiares a segui-lo. Acontece que os filhos, na desobediência esperada dos jovens, rebelaram-se contra a certa coisa em pé. A esposa, contudo, fez os gostos do marido. Mas por pequeno período e em relação – apenas - à certa coisa. No tocante àquela coisa, ela balançou o dedinho do “nã, nã, nã”, fez finca pé e o mandou tirar o cavalinho da chuva.:

“Isso nem a pau”, Sertão, dizia.

Então. Concebido o embuste, Sertão passou a exigir que o chamassem de Ksertão. E alardeava que o autêntico partidário de Abraão, o seguidor realmente raiz, teria que ter o nome começando com K ou V. Sertão não mexeu só no nome dele. No dos filhos e no da mulher também. A esposa, por exemplo, que se chamava Maria Viviane, passou a ser chamada Maria Vivião.

Porque históricos, vou descrever alguns episódios decorrentes do Ksertão. Acontecem nas despedidas do século XIX, no Rio Grande do Norte, estado do Nordeste brasileiro, onde o amalucado residia e tinha um mundo de terra.

O primeiro acontece quando Maria da Natividade, casada com João, sobrinho de Ksertão, pare uma menina. Tomam o mijo do nascimento. aí, Ksertão, já insinuando ser o padrinho da garota, logo lhe dá um nome: Vajão.

Natividade fica uma fera. Não botaria tal coisa como nome da menina. Ainda que o esclerosado Ksertão ficasse trombudo com ela. Natividade passa meses concebendo um nome para a filha. E eis que num domingo, ela e o marido tomando cachaça com cabeça de bode, chega-lhe a inusitada ideia de um nome incomum. Fala pro João. João abre um sorriso e faz um tim-tim de copo. Correriam o risco de ver a menina no caritó ou dando pra todo mundo, sim, mas o desassombro valia a pena.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

PESADELOS

 






PESADELOS

Eu era mentalmente sadio. Colecionava algumas bizarrices, não nego, mas nada que me fizesse desconfiar do próprio quengo. Colecionava gols do Alecrim FC, tampinhas de Brahma e abris. Abandonei os gols do Alecrim, larguei as tampinhas de Brahma e passei a colecionar aneizinhos de Skol. Mas permaneço colecionando abris. Já colei seis dúzias deles num álbum verde meio enrugado.

Pois bem. A fim de não deixar os abris isolados, enfiei na cachola a ideia de colecionar figurinhas. Mas não as do futebol brasileiro. São brasileiras, contudo de outro esporte. Prego as figurinhas num álbum chamado horrores. Foi a partir da coleção delas, coisa de quatro anos atrás, que comecei a desconfiar de minha sanidade. Desconfiar, uma piula. Estou mentalmente enfermo, sim. E o mal só faz se agravar. Não durmo que preste. Toda a noite tenho pesadelo. De manhã e de tarde também. Sinto-me confuso, irritado, impaciente, desconectado. Meus neurônios estão com os circuitos invertidos, chego a pensar. Discordo veementemente do que milhões de pessoas pensam e falam. E milhões de pessoas discordam veementemente do que penso e falo. Uma angústia infinita, gente.

Habite este contextinho, meu nobre.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

SOBRE AS ELEIÇÕES BRASILEIRAS DO 02 DO 10 DO 22

 




Presunçoso título, não?

Coisas do Mião e Bião. Essa dupla amanheceu na segunda-feira num frenesi de dar dó, gente.  Sou dedógrafo. Mião é o meu maior de todos. Bião é o fura bolo. Os dois dedinhos amanheceram agitados. E ressacados. Das teclas votantes do domingo e do levantamento de copo a fim de diluir a ansiedade acerca da apuração dos votos. A causa do frenesi é que a duplinha queria porque queria que eu escrevesse sobre os 51 milhões de voto do Bolsonaro.

Escrevo não. Tenho vergonha, ficava repetindo.

De tanto repetir, o Mião pegou ar. Levantou o dedo:

Você não tem vergonha, cara. O que você tem, e muito, é covardia. Tem medo de falar a verdade e assim constranger as pessoas. Covarde porque comigo, com o Bião e com os seus botões você é uma tagarelice só. Diga a esses 51 milhões de indivíduos por que proibiu nós dois - a mim e ao Bião - de apertar os dois dois no colégio onde votou. Se a covardia não deixar você falar disso, daquilo, daqueles e daquelas não fale. Não fale, se não quiser...

Quer saber, você não é apenas covarde. Você é burro, cara. Sabe por quê? Porque esses 51 milhões de eleitores não estão nem aí para constrangimentos. Mil verdades que você fale vão entrar por um ouvido e pelo outro sair mil e uma. Quer provas? Lembra da pandemia covid-19? Não faz tanto tempo assim, né, cara? Pois.

Pois então. Em dado dia, fizeram uma pergunta ao presidente – e hoje presidente/candidato – sobre o número de mortes daquele dia. O presidente respondeu, assim, na lata,

sábado, 17 de setembro de 2022

O Bolso, a Barba, o Bundão, a Bela, o Botão, a Bermuda, a Batata, a B. E o B

 


    


O Bolso, a Barba, o Bundão, a Bela, o Botão, a Bermuda, a Batata, a B. E o B

 

Sou apolítico, Bastão, falou-me um recém-conhecido, duas semanas atrás. O contexto era a eleição para presidente da República agora em 22. O churrasco estava assando, a gela descendo (a primeira), o papo fluindo. Esse recém é prestador de serviços do ramo de informática. Pequena empresa, diga-se, mas empresário é. E é formado mas não sei informar em que. Fiquei meio assim. Meio assim porque acho estranho a pessoa com o perfil sociocultural daquele recém declarar-se apolítico.

Apolítico em termos partidários, você quer dizer, provoquei-o, querendo esmiuçar o discernimento dele.

Não só partidário, Bastão (ele costuma comer o “i” do meu nome). Acho que política, religião e futebol não se discute, respondeu, dando uma golada na cerveja.

Mais uma vez fiquei meio assim. Meio assim porque acho estranho a pessoa com o perfil sociocultural dele não entender que levantar questões a respeito de algo, defender pontos de vista contrários etc. são sinais de maturidade. São processos de conhecimento, sobretudo nos universais temas citados por ele. Discutir, pra ele, é pré-bofetes, pensei.

Aí o papo mudou e começamos a “discutir” futebol (meu recém é torcedor do América. Sou do Alecrim). Deu-me uma crise de riso daquelas, mas o apolítico não atinava o porquê.

Então. Quarta-feira, 14 do 9, o presidente/candidato Bolsonaro esteve em Natal. Então, de novo, e de novo eu tomando gela (mas sem churrasco), alguém me mostra uma foto do recém, trajando amarelo da cabeça aos pés, bandeirola na mão – direita -, abaixo a legenda: com Bolsonaro na Cidade da Esperança.

Estou na segunda gelada

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

DAMIÃO, O CORONAVÍRUS E O GALO

 

Oi, gente

Falei não falei que tava com uma coletânea de contos num pé e noutro para ser publicada? Pois! Tá pertinho. Tô na pré-venda que é pra pagar à editora, ao o Osair. Tô otimista. Em 4 meses já pré-vendi 2 exemplares. Daí que acho que não exagero no otimismo se chegar à Copa de 26 com 30 exemplares pré-vendidos. Mão na roda, né, não? A coletânea ficou porreta, gente.

Veja o conto 12, escrito por um tal de Zião. São dois os contistas da coletânea: Zião e Kião. Eles escrevem e enviam pra irmã, a Feição, avaliar. A Feição, também escritora, é casada com o Tição, igualmente escritor.

Sem mais delongas:







12 - ZIÂO – DAMIÃO, O CORONAVÍRUS E O GALO

 

A coisa começa com D. Damiana e o filho, Damião. Damião tem treze anos de sapequices. Tanto que é conhecido como Seu Danado:

Damião, meu filho, não tenho como fazer o almoço. Não vendi nenhuma máscara e o Bolsa Família só deu pra pagar a bodega de Seu Lira. Seu Lira tá muito importante. Disse que não vendia mais fiado a gente. Bom. Pegue esse galo, veja se vende por aí, e compre um quilo de feijão, um quilo de farinha, um quilo de arroz, um pacote de café, um quilo de açúcar e uma bandeja de ovos. Vê se pega ao menos cinquenta reais. Decorou?

Decorei. O galo é difícil de vender, mãe. O bem-te-vi é bem mais fácil. O povo até me chama de mentiroso quando eu digo que a gente cria um bem-te-vi. Dizem que bem-te-vi não se acostuma em gaiola. Morre de desgosto. Então se eu sair com ele...

O bem-te-vi não, meu filho. O finado seu pai é capaz de se levantar do túmulo só pra brigar comigo. Venda o galo. Vá. Mas venha logo. Não vá ficar aglomerando por aí não, viu? Leve umas máscaras. Quem sabe não consegue vender algumas.

Dessas que a senhora faz não vende não, mãe. Depois que aquele homem mandou o povo socar máscaras de pano no rabo, só... Ah, mãe, tô cansado de dizer a senhora: bote quenga de coco no lugar de pano e bambu ensebado no lugar de elástico que vamos vender feito água. Mas a senhora é uma mula de teimosa.

Damião! Misericórdia! Deixe de coisa. Agora vá, meu filho.

Damião botou algumas máscaras no bolso da bunda e saiu. Na mão esquerda o galo, na direita uma garrafinha de álcool em gel.

Aí, ao passar no oitão duma casa, vê uma janela aberta e escuta uns gemidos estranhos. Damião para, assuntando, dá uns pulinhos, apoia-se no parapeito da janela e fica de boca aberta com a presepada: um homem aglomerava com uma mulher:

Mas óia só! Puxa-vida, eu pensava que essa arrumação só acontecia de noite.

O pestinha coça o queixo, ri, olha em volta. Não dá pra subir na janela com o galo. Mas isso é café pequeno pra ele. Chama um menino que passa do outro lado da rua:

Ei, boy. Chamo, chamo e mãe não atende. Me ajude a subir aqui. Vou dar um pulinho. Depois tu me dá o galo, tá ligado?

Em segundos, Damião está sentado no beiço da cama. Bate duas vezes no ombro do homem:

Moço, me compre

segunda-feira, 13 de junho de 2022

A OPINIÃO EM PALÁCIO

 



                                            Imagem google


Oi, gente.

Fiquei um tempão sem postar porque estava numa missão econômica. Eu, Keynes, Samuelson, Smith, Furtado, Marx e Friedman. Trata-se de ambicioso projeto para alterar a ordem política e econômica mundial. Daí o ecletismo dos doutrinadores. Mas avançamos pouco. O tempo foi gasto em chamar o Paulo Guedes de burro e bucéfalo. O PG conseguiu a unanimidade nesses nomes. É mole?

Consenso: democracia alguma sobrevive sem uma classe média.

Corolário 1: é a classe média quem ajuda um vizinho, um amigo, um parente.

Corolário 2: rico não dá um pão dormido a ninguém. Mesmo porque só quem tem acesso a um rico é outro rico.

Conclusão: o bucéfalo e burro PG abriu-se pros lá de cima - os ricos -, fodeu os debaixo - os pobres - e tá botando sem cuspe nos do meio – os médios.

De volta, estou me dedicando a um projeto mais complexo: selecionar algumas postagens a fim de que Osair monte uma coletânea. De 12 a 15 textos, acho. Vou postar um deles agora. Chama-se “A opinião em palácio”. Esse conto, escrito por um tal de Kião, passa pelo crivo de uma irmã dele, daí que, aqui, acolá, vocês vão topar com o Kião interagindo com essa irmã.

É isso. São 12 minutos de vista baixa.

Depois quero a sua opinião; Ou não tem?

 

 

 

A OPINIÃO EM PALÁCIO

 

O Rei fartou-se de reinar sozinho e decidiu partilhar o poder com a Opinião Pública. ― Chamem a Opinião Pública ― ordenou aos serviçais.

Eles percorreram as praças da cidade e não a encontraram. Havia muito que a Opinião Pública deixara de frequentar lugares públicos. Recolhera-se ao Beco sem Saída, onde, furtivamente, abria só um olho, isso mesmo lá de vez em quando. Descoberta, afinal, depois de muitas buscas, ela consentiu em comparecer ao Palácio Real, onde Sua Majestade, acariciando-lhe docemente o queixo, lhe disse: Preciso de ti.

A Opinião, muda como entrara, muda se conservou. Perdera o uso da palavra ou preferia não o exercitar. O Rei insistia, oferecendo-lhe sequilhos e perguntando o que ela pensava disso e daquilo, daquilo e disso, o que ela achava de autoteste covid, se tomaria a vacina CoronaVac, se acreditava em disco voador, se botaria o dedo em urna eletrônica, se lia horóscopos, se se ligava na taxa Selic, se confiava no presidente, se participaria dum ménage à trois, se temia a reação dos filhos caso abrisse uma offshore, essas coisas. E outras. A Opinião Pública abanava a cabeça: não tinha opinião.

Vou te obrigar a ter opinião ― disse o Rei, zangado. ― Meus especialistas te dirão o que deves pensar e manifestar. Não posso mais reinar sem o teu concurso. Instruída devidamente sobre todas as matérias, e tendo assimilado o que é preciso achar sobre cada uma em particular e sobre a problemática geral, tu me serás indispensável.

E virando-se para os serviçais:

Levem esta senhora para o Curso Intensivo de Conceitos Oficiais (CICO). E que ela

sexta-feira, 4 de março de 2022

RETRATOS DE AMANTES

 




Sou fissurado em barzinhos, confesso. É raro eu sair deles sem uma boa história no quengo. Neles, algo cósmico cozinha a nossa mente e logo nos serve a solução para as mazelas da vida.

Repito o discurso com o qual deixo cambaleantes os incrédulos abstêmicos. Barzinho - ou boteco - é terapêutico, já que mestre em eliminar angústias. É produtivo, posto criar soluções. É humorístico, porquanto prover descontração. É democrático, visto acolher qualquer assunto. É extrovertido, haja vista destravar línguas. É abastado, pois costuma tornar o cliente endinheirado. E também é o que você está pensando: catalizador contumaz de carnes carnais.

Então, terça-feira do carnaval-22, vou ao boteco do Assis – na esquina do quarteirão de minha casa -, acomodo-me numa mesinha de calçada e peço uma gela. Minutos depois chegam quatro senhores e sentam-se a uma mesa a três metros da minha. Pedem cerveja e churrasquinhos. Não eram nem moços nem velhos. Adolescentes da velhice, ou rapazes usados, digamos assim. Não eram bonitos nem feios. Apenas apresentáveis, se é que me entendem. Mas traziam aquela distinção não desprezada pelos veteranos da alegria. Aquele indescritível quê, que, alegre, sagaz e irônico, diz claramente: já vivemos muito e ainda procuramos o que poderíamos amar e estimar.

Cumprimentamo-nos apenas de cabeça. Amizades de botecos sempre começam timidamente. Mas tapinhas nas costas e abraços são comuns nas despedidas. Esse é o protocolo dos biriteiros oficiais.

Foquei os olhos numa morena-jambo, olhos azuis, que caminhava na direção da mesa vizinha à dos pré-idosos. Vinha da parte interna do bar e bebericava uma bebida vermelha. Andava e dava carona a certas imaginações e a olhares deleitosos. E delituosos. Culpa do seu excesso de beleza. Falava ao celular, gesticulava e olhava na extensão da rua. Sentou-se e se pôs a mexer no aparelho.

Bom, os senhores falaram por alguns instantes da política brasileira, tiraram fino na pandemia covid, passaram de raspão na guerra Rússia/Ucrânia e iniciaram um papo sobre a gastronomia francesa.

Não dou dois minutos para o assunto ser mulher, penso. Acerto na mosca. Um deles

sábado, 5 de fevereiro de 2022

NO QUARTO DA VALDIRENE

 



            Mal ele entrou em casa, a mulher o tomou pelas mãos, ansiosa:

– Estava aflita para você chegar.

E sussurrou, apontando dramaticamente para os lados da cozinha:

– Tem um homem no quarto da Valdirene.

Sacudiu a cabeça com irritação:

– Desde o primeiro dia eu achei que essa menina não era boa coisa. Ela nunca me enganou.

Valdirene, a jovem empregada, uma mulata de olhos grandes, não faria feio num palco.

– Como é que você sabe? – perguntou ele, para ganhar tempo. Não partilhava da opinião da mulher: desde o primeiro dia achou que a Valdirene era ótima.

– Sei porque vi. Escutei um ruído qualquer aí fora no corredor, olhei pelo olho mágico, e vi quando ela punha ele para dentro pela porta de serviço.

– Ele quem?

– O homem. Não sei quem é, só sei que é um homem. Deve ser o namorado dela, ou o amante, tanto faz. O certo é que os dois estão trancados lá no quarto faz um tempão.

– Vai ver que já saiu.

– Não saiu não, que eu não sou boba, fiquei de olho. Está lá dentro com ela até agora.

– E o que é que você quer que eu faça?

– Quero que bote ele pra fora, essa é boa.

– Por quê?

Ela botou as mãos na cintura:

– Por quê? Você ainda pergunta por que? Então tem cabimento a gente deixar que a empregada receba homens no quarto dela? O que é que essa menina está pensando que minha casa é? Um motel? Se você não for lá, eu mesma vou.

– Espera aí, vamos com calma, mulher. Você tem razão, mas deixa a gente raciocinar um pouco. Não podemos é perder a cabeça. Pode ser perigoso. Como é que ele é?

– Não cheguei a ver direito. Só vi que era um homem. Para mim, basta.

– Não posso ir lá no quarto dela sem mais nem menos. Quem sabe é algum parente? Um irmão, talvez…

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

OLHE PRA CIMA

 




OLHE PRA CIMA

Fala, sumido. Quase um mês, né?

Falei assim pro Bião, mal desci do carro, ao chegar da rua e encontrá-lo fazendo uma caipirinha na área de lazer daqui de casa. Meu primo Bião é a pessoa mais estrategista que conheço. Pra começar, chama todo mundo de Decente, sutil embrião na estratégia de colher simpatia. Mas é também – e nada sutil - a pessoa mais mentirosa e excêntrica do mundo. Leitor atento, Bião costuma me visitar aos domingos a fim de biritar e resenhar literatura.

Está chateado, Bião?

Bião nada respondeu. Logo notei que fazia uma caipirinha pra mim também. Entregou-me um copo e levantou o dele para um tim-tim de feliz ano novo.

Você me conhece mesmo, Decente. Estava nos Estados Unidos. Voltei chateado pra caramba.

Dei-lhe corda:

Fosse fazer o que lá, Bião, perguntei, doido pra rir.

Então. Fui pro lançamento de um filme cujo roteiro é meu. Como você sabe, escrevi dois roteiros de filmes para a Netflix. Uma história se passa lá, na América, outra, aqui, no Brasil. Trabalhamos duro, eu e o Adam McKay, diretor do filme. A Jennifer, saiba você... Aliás, a Jennifer está lendo seu livro, Decente, o Por uma Taça de Vinho. Ela mandou um beijo quando lhe disse que era seu primo. Bom, a Jennifer só fez o filme graças a um apelo meu. É uma sapiens tão linda quanto compreensiva.

Nunca vi o Bião mentir com tamanha naturalidade. E ainda me empurrava para o ringue das mentiras. Bião continuou:

Aí o que acontece.