sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

OLHE PRA CIMA

 




OLHE PRA CIMA

Fala, sumido. Quase um mês, né?

Falei assim pro Bião, mal desci do carro, ao chegar da rua e encontrá-lo fazendo uma caipirinha na área de lazer daqui de casa. Meu primo Bião é a pessoa mais estrategista que conheço. Pra começar, chama todo mundo de Decente, sutil embrião na estratégia de colher simpatia. Mas é também – e nada sutil - a pessoa mais mentirosa e excêntrica do mundo. Leitor atento, Bião costuma me visitar aos domingos a fim de biritar e resenhar literatura.

Está chateado, Bião?

Bião nada respondeu. Logo notei que fazia uma caipirinha pra mim também. Entregou-me um copo e levantou o dele para um tim-tim de feliz ano novo.

Você me conhece mesmo, Decente. Estava nos Estados Unidos. Voltei chateado pra caramba.

Dei-lhe corda:

Fosse fazer o que lá, Bião, perguntei, doido pra rir.

Então. Fui pro lançamento de um filme cujo roteiro é meu. Como você sabe, escrevi dois roteiros de filmes para a Netflix. Uma história se passa lá, na América, outra, aqui, no Brasil. Trabalhamos duro, eu e o Adam McKay, diretor do filme. A Jennifer, saiba você... Aliás, a Jennifer está lendo seu livro, Decente, o Por uma Taça de Vinho. Ela mandou um beijo quando lhe disse que era seu primo. Bom, a Jennifer só fez o filme graças a um apelo meu. É uma sapiens tão linda quanto compreensiva.

Nunca vi o Bião mentir com tamanha naturalidade. E ainda me empurrava para o ringue das mentiras. Bião continuou:

Aí o que acontece.

Chego aos Estados Unidos e me deparo com a sacanagem: o Decente do McKay tinha alterado o nome do filme. Danou um não no nome. O nome original era OLHE PRA CIMA e não NÃO OLHE PRA CIMA. Olhar pra cima, Decente, não é só alongar o pescoço. É espreguiçar a consciência. Bastam 30 segundos. Pior. O McKay suprimiu a cena caricata 1 e a cena científica 2. Veja a cena 1. A presidente, minha amiga Meryl Streep, recebe dos cientistas DiCaprio e Jennifer a notícia bomba de que há um cometa doidão vindo com pé atolado no acelerador gravitacional em direção a terra. Se nada for feito, em seis meses o bicho vai bater na terra e transformar o mundo numa poeira só.

“Vamos esperar e avaliar”, diz a presidente. Ocorre que, depois desse desdém era para a Meryl sair, pegar uma motocicleta, juntar-se a apoiadores e fazer uma motociata na Quinta Avenida. Detalhe: com os cabelos esvoejando e sem calcinha. Mas o McKay suprimiu essa cena.

Fez bem o decente diretor, Bião. Seria imoral e caricato ao extremo, cara.

Não. Seria uma cena subliminar. Obra de arte. Mostraria a cabeluda e desvirginada postura presidencial no que diz respeito à ciência. Não seria a primeira vez que a presidente Meryl fazia da ciência gato-sapato. Entendeu ou quer o desenho?

Tem sentido, Bião, respondi, rindo com a indireta de eu querer o desenho da Meryl pilotando. Tenho duas perguntinhas. Escrevesse a cena da motociata pensando no presidente Bolsonaro, não foi? E quais providências tomou a Meryl Streep?

Perguntei como provocação, já que assistira ao filme duas vezes:

Porra, Decente. Em que bolha você vive, meu? Não viu o filme mais comentado nos últimos tempos. Mais grave. Filme roteirizado pelo primo. Escrevi o roteiro em 2019, antes da pandemia, portanto. A motociata da Meryl não tinha nada a ver com as provocativas motociatas do Bolsonaro em plena pandemia.

Provoquei você, Bião. Assisti ao filme duas vezes. Agora fiquei curioso. Como era a cena científica que o McKay abandonou?

Seguinte. Ernesto e Pontes, cientistas brasileiros, dizem que o Brasil pode salvar o mundo. O Brasil tem satélites na Barreira do Inferno que... Nossa base espacial, Decente, aqui, em Natal. Bom. O Brasil dispõe de satélites GG - Goleiros Giradores. Assim. Em cada continente, e a 50 quilômetros do solo, ficariam dois satélites GG, tecnicamente chamados de gravitacionais JB1722. Função deles: fechar o ângulo da baliza sapiens para o corpo mortífero. Versão sideral do nós contra ele.

Então, ao se deparar com os JB1722, o objeto assassino fica perdidão, desnorteado, cambaleando, parecendo um bêbado atrás de pegar uma galinha. Resultado: O frechado não se aproxima da terra nem que a vaca tussa e acaba se desintegrando. Isso com 98,7% de certeza, já que exaustivamente provado pela Teoria da Terra Plana. Só tem um problema. O troço passa 10 anos para sumir de vez. Durante esse tempo, o infeliz fica jogando na terra uma poeirinha tóxica, prejudicial, obviamente, a saúde dos sapiens. Sobretudo à das crianças. Pode matar de asfixia os pequenos. A solução, dizem os cientistas, é especialíssima máscara para os guris. Desenvolvê-la é café pequeno para a ciência, mesmo faltando, nessas alturas, 59 dias para o encontro fatal. Mas a presidente Meryl é contra, Decente. Contra o patamar da pressa científica, pra ser mais claro. Então ela manda abrir audiências públicas, consultas on-line e o escambau sobre a recomendação protetora. Botei na boca  da Meryl palavras assim, Decente.

“10 anos é muito tempo. E se esses saipenszinhos se acostumarem com a máscara e ficarem mascarados pelo resto da vida? Sabe-se lá se os fabricantes de máscaras não estão por trás disso? Façam audiências públicas, consultem os pais, mexam-se nas redes sociais”.

Entendeu, Decente? O McKay cortou essa fala, cortou a cena da motociata e alterou o nome do filme, tudo sem me consultar. O tal de Adam McKay não é um sapiens confiável. Pulei fora dele. Nem lhe passei o segundo enredo, o que será rodado no Brasil. Quem vai dirigir esse é o Wagner Moura. O Wagner já está montando o elenco, por sinal.

Ia perguntar sobre isso, Bião. É um filme satírico também? Vai me dar um spoiler, não?

É um filme romântico. Fala de uma brasileira. A dama mais linda e querida do Brasil. E ela tem um diferencial em relação as outras damas. As tetas. Todo o mundo quer mamar nas tetas dela, Decente. Não sei por que essa cara de melindre. Mamar é normal, Decente. Mais quando se trata de tetas internacionalmente conhecidas. No caso de... Ah, ia dizendo o nome dela. Esse spoiler não vou dar, Decente. Quando falo de todo o mundo querer mamar, falo de homens e mulheres. Ela é bi. Bilionária e bissexual, seu sonso. E é viúva. Vou dar spoilers dos últimos maridos dela.

Um deles é preso por dilapidação do patrimônio da viúva, segundo a Justiça. Mas a própria Justiça manda soltá-lo, sob o argumento de que houve falhas nos ritos judiciais. Certo, porém, é que o cara fica 8 anos nas apetitosas tetas da viúva.

Mas muito antes de o cara ser preso, a viúva já está junta com certa senhora. Ficam mais ou menos 6 anos com escova única. Divorciam-se litigiosamente. Causa: As contas bancárias da viúva estão sendo adulteradas pela amante. Barraco histórico, Decente.

Mas mesmo antes de a viúva se divorciar, um erudito coroa, o mordomo do palacete, já fica se babando só em pensar nas tetas da patroa. Aí casa tomé com bebé, já que a viúva é obrigada a cumprir o contrato.

Porraé, Bião. Não estou entendendo nada. Mordomo, contrato, obrigada, que spoiler mais troncho, meu?

Tá. Vamos lá. A viúva é devota de Nossa Senhora Aparecida. Daí que ela decide não se casar no padre, embora a decisão pareça contraditória. O motivo é simples: Caso o casamento der errado, ela vai se achar pecadora se se sentir obrigada a largar o marido, já que matrimoniada por batinas. Então ela propõe ao pretendente um contrato de 4 anos, renovável por mais 4, se assim a parentada dela concordar. A viúva é muito família. Tem parentes que não presta. O não presta é porque são muitos. Cafajestagem da língua portuguesa, Decente. Se bem que alguns parentes não prestam mesmo. Pois bem. Com o cara que foi preso, o contrato foi renovado e os 8 anos cumpridos integralmente. Com o cara mulher, o contrato foi igualmente renovado, porém interrompido lá pelos 6 anos de convivência. Agora, reza no contrato que, na hipótese de interrupção não consensual da convivência, o mordomo do palacete deve assumir o lugar do afastado pelo período restante. Essa é a razão de o mordomo ficar fazendo vida com a viúva. Até jogo grilos no quengo do espectador acerca da isenção do mordomo no episódio.

O mordomo sempre acaba levando a culpa, né, Bião? Adoro filme com mordomo, cara.

Eu também. Então. Encerrado o contrato, o mordomo vai embora. Mas a viúva fica solteira por breves minutos. As tetas dela estão no radar de determinado cavalheiro faz um tempão. Depois a viúva descobre que o cavalheiro é, na verdade, um cavaleiro. Bom. A viúva conhece o histórico do pretendente - nada animador, por sinal -, mas acata a recomendação da maioria dos parentes e o acolhe em seu palacete. Quem sabe ele não muda, pensa.

Não muda. A cada dia, as patadas - na viúva e em parte dos parentes dela - são mais demolidoras. Arenga, insensibilidade, intolerância lhe são servidas diariamente. Mentiras e desrespeitos também. A viúva vive chorando. O consorte adquire o acanalhado costume de desrespeitá-la publicamente: chama de mamatas as carícias de alcovas de seus ex. Fato escabroso acontece no aniversário de um ano de convívio. O canalha pega a viúva lendo Ulisses. O rinchado é assustador: “Só vive lendo essa merda, mulher”.

É sério, Bião, que botasse isso na boca do desgraçado?

É claro, Decente. Sou roteirista. Minha sintonia mental com ele atesta o rinchado. Vou até revelar outro excremento dele que é pra você não me interromper mais. Acontece quando a viúva aconselha o peste a não ser tão radical:

Sua radicalização não leva a nada. Precisa caminhar atento para os lados, pois tanto na esquerda quanto na direita existem buracos e escuridões no meio de planícies e claridades. Sugiro que leia a bíblia de vez em quando, meu marido.

Tava demorando você despejar essas baboseiras. Era só que me faltava ler aquele comunista.

Nossa, Bião. Fosse cruel com o cara, meu.

Não. Não fui, Decente. O marido da viúva é que é um sapiens cruel.

Bom. A viúva pensa no mordomo. Ele lia com ela. Dialogavam e se pegavam. Raras vezes fora do contexto intelectual, mas se pegavam, sim. O atual consorte, não. O negócio dele é confrontar e polarizar. Tudo seria diferente se ele conhecesse o pensamento de Jesus: “Todo reino dividido contra si mesmo será arruinado, e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá”.

A viúva decide pedir o divórcio. Pede, mas o tabelião bota um seixo em cima do pedido e mata o processo. Essa parte foi engraçada, Decente, porquanto eu ter escrito: “O tabelião mata o processo com um seixo”. O Wagner Moura quase morria de rir, pois só conhecia a palavra seixo como calote em prostituta. Já passasse algum seixo na vida, Decente?

Pois muito bem. Boto isto na boca da viúva:

 “Senhor, faça-me sair intacta dessa aventura. Juro, Senhor, que nunca mais abandonarei a leitura do mundo. Viver com esse homem é um atraso de vida. De agora em diante, só conviverá comigo quem amar os livros”.

Acho que vou gostar do filme, Bião. Mas, me diz, como é mesmo o nome da viúva? E como vai se chamar o filme? E quando será lançado?

É muito spoiler, Decente. Não direi o nome da viúva. Mas vou lhe dar um spoiler fora dos esperadas. Tudo leva a crer que a viúva está de asas arriadas para uma charmosíssima senadora brasileira. Mas não deixo isso claro no roteiro, entende? O espectador, contudo, vai pressentir o climão e deduzir que a coisa pode rolar. O filme tem dois nomes provisórios. O Wagner vai decidir. Um deles é literal, com viés ideológico. Outro é político mesmo. O primeiro é OLHE PRA CIMA, CUIDADO NOS LADOS. O segundo é NÃO VOLTE ATRÁS.

Gostei dos dois, Bião. E o lançamento?

O lançamento... Melhor você pedir a uma das Decentes aí que prepare um caldinho de peixe enquanto faço mais duas caipirinhas pra gente. Caldo de cioba, de preferência. Falar nisso, Decente, fui comprar um peixe e passei uma vergonha danada, cara. Errei a senha do cartão três vezes. Resultado: o banco bloqueou o cartão. Como você costuma ter dinheiro vivo em casa, me empreste 500 reais que faço o PIX assim que liberarem o cartão.

Não aguentei. As risadas presas explodiram. Mais de cinco minutos rindo. E o azoreta também, pode?

Tomamos a caipirinha falando de futebol e pandemia. Quando o caldo saiu, o estrategista, já com os 500 reais na carteira, falou:

Você é um sapiens humano, Decente. Sim, o lançamento do filme. O lançamento será no dia dois de outubro. Em circuito nacional. Considere-se convidado, Decente.

 

Decente 01 de 22,

TC. Tim-tim


Nenhum comentário: