MICROCONTOS DA POSTAGEM
Puseram os bichos para brigar, e a cobra
comeu a aranha. (Erótica, Recanto da Letras – 10-11-2011)
Brigaram tanto que ela morreu
ensanguentada, mas abraçada. Verdade, foi? Mentira, meu! Daí a um tempinho
tornaram a se agarrar. (Tião)
É
NADA!
É com essa expressão que o meu amigo, o
Gordo, cumprimenta a galera quando tá meio bicado. Bastam-lhe duas lapadas da
água que passarinho não bebe e lá vem o bafejo do “é nada!” Um dia eu perguntei
ao Gordo o que ele queria dizer com aquilo. Ele me olhou enviesado, já meio
“zanoio”, emborcou uma larga, passou as mãos nos beiços e arrotou: “É nada!”
Ri da sentença. Duas palavrinhas e lá
estava eu a rir descontroladamente. O poder das palavras é fogo, meus nobres.
Ele libera a emoção e destrava a imaginação. A bem da verdade, a palavra em si
é neutra. A palavra só adquire poder no papel de porta voz do estado mental.
Ódio e amor sem os correspondentes estados mentais são meros vocábulos. “Nada”,
porém, parece-me sentimentalmente fria, morna, quando muito. Não existe estado
mental que a faça sobressair. É interessante a conexão entre palavra, estado
mental e poder.
Como pressentimos o indivíduo que acabou
de ouvir a palavra ódio? Depende do momento mental do ouvinte. Você, por
exemplo, se leu em voz alta a frase de abertura deste parágrafo, talvez até
esteja rindo de minhas besteiras, daí o semblante de paz, em que pese o “ódio”
do primeiro período. Porém... Bom, imagino de prazer o estado mental de quem
está lendo um livro, da mesma forma que de fúria de quem injustamente ouviu um
desaforado “idiota”. Não lhe desejo o último exemplo, mas... Como seria sua
fisionomia? Olhar aterrorizante, voz alterada, corpo tenso, não é verdade? E
como estaria seu rosto ao ser chamado de amor? Olhar meigo, voz melosa, corpo
relaxado, não é isso? Perceba o poder mental nas duas situações. Na do
“idiota”, até de esmurrar você seria capaz. Na do “amor”, amar seria sua
obsessão, concorda?
A regra geral é essa, meus nobres. Por
que geral? Veja o seguinte. A menos que o indivíduo seja mentalmente
desequilibrado, é razoável admitir que vivemos num estado mental neutro,
digamos assim. Quer dizer, não estamos permanentemente raivosos, tampouco,
deslumbrados. No raivoso será praticamente nula a reação ao ouvir palavra amor.
Igualmente no deslumbrado a reação ao ser tachado de idiota. O normal, pois, é
este encadeamento: ouve-se a palavra, aciona-se o gatilho do estado mental,
aflora-se o poder.
Agora o que lhe acontece ao ouvir o
substantivo “sexo”? Aliás, nem precisa ouvi-lo, basta imaginá-lo. A visão é
sua, certo? Tenha-lhe bom proveito. Quando escrito, o desavergonhado do “sexo”
ainda tem uma agravante. O “x”, pessoal. O “x” de sexo é erótico pra
caramba, não? Agora, diga-me. O que enxerga você ao escutar o dissílabo nada? Nadica
de nada, não é mesmo?
Sabe de uma coisa, meu nobre. Esse
negócio de escrever é cheio de armadilhas. Daí, por detestá-las, jamais serei
escritor. Percebeu a fuga do tema desta crônica. A intenção era falar do Gordo
e do “nada” da frase dele. Aí, do nada, apareceu essa história do poder das
palavras. Não sei se lhe dou o crédito pela liberação da capenga veia
literária, ou o débito pela maldita prolixidade. Fica o registro, embora nada
conclusivo.
“Nada” já nasceu de bisaco vazio, sem um
pingo de sorte, coitado. Vou até
interromper este vácuo de prosa a fim de lhe explicar essa história do bornal
seco do desditoso Nada. Foi assim.