MINHA ÚLTIMA VEZ
Não
direi a data (foi antes da pandemia), mas revelarei o como e com quem.
Tenho o costume - costume
não é a simples repetição de atos. É o orgasmo do precedente - de dar olhadinhas
na rua sempre que passo pelo monitor das câmeras. Então. Tomei a vacina, tomei
o caminho de casa, tomei banho, tomei um cafezinho e tomei um susto ao flagrar a
moça descendo do carro. Cheio de espaço na frente e atrás, mas ela entendeu de
estacionar o automóvel atravancando a minha garagem. Uma luta pra ela sair do
carro. Saiu e logo percebi a causa. O excesso de beleza e a carência da
agilidade dos comuns mortais tornavam-na presa ao cinto. Assemelhava-se a uma
deusa, sim. Desceu, deu cinco passos e me deu um choque: é a Miraia. Mirainha
por aqui. Meu Deus. Nossa. Ela dá os passinhos e volta pro carro. Esquecera
algo ou percebera o automóvel obstruindo a garagem. Ou as duas coisas,
obviamente. Volta pro carro tirando a máscara. Não era a Mirainha. O foco da
câmera não ajudava, mas ela não era. Ou seria a Miraia pós-quarentena? Falo
assim porque a moça era contagiante pandemia de luxúria. Autêntico avião, tal
qual a Mirainha.
Mirainha ou não, certo é
que as constrangedoras e angustiantes recordações não deram a mínima para a incerteza.
As cenas daquela noite bateram-me com força. Não desejo que tresloucados
petistas ou bolsonaristas passem por tamanho constrangimento. Deu-se assim.
Servidores federais faziam
um encontro preliminar, num hotel, em Fortaleza, para grande evento reivindicatório
que se daria em Brasília. Coisa das dez horas da sexta-feira, dávamos por
encerrado o encontro. De Natal, apenas eu e a Mirainha. Nosso voo estava
marcado para as duas horas da manhã do sábado. Fechamos o hotel, caríssimo, e
fomos para uma pousada nos arredores do aeroporto. Por sugestão da Mirainha,
acrescento. Alegou ela, no jantar da quinta-feira:
Muito caro pra gente ficar aqui e muito tempo pra gente ficar zanzando
no Pinto Martins. Melhor a gente se acomodar numa pousada ali por perto. A
diária deve valer a pena. Podemos rachar. Não vejo problema em ficarmos num
quarto só. O que você acha? É claro que espero um comportamento exemplar do
nobre cavalheiro.
Falou e danou-se a rir a pragmática brincalhona. Também ri, ainda que
amarelo. Convém informar que ao conhecer a Mirainha homem algum fica sem
imaginá-la. Nunca fui homem algum, de sorte que eu também a imaginava. Com todo
o respeito, mas a imaginava, sim. Tanto que a sugestão do quarto comum me pôs
em parafuso. Tipo do contexto que o diabo adora, pensava.
Mirainha vai pro shopping depois de tirar minutos de soneca no quarto.
Fico lendo Adriana Falcão. Às sete horas fomos jantar – sopa - no refeitório da
pousada. Voltamos, a Mirainha fica assistindo ao noticiário da TV. Continuo
lendo a Adriana. Receoso de me trair, pois o olhar não engana, especialmente o
de fome carnal, não tiro os olhos do livro. Penso em ir tomar um cafezinho, ou
uma cerveja, ou um ar puro, mas desisto. Entendo que precisamos enfrentar
nossos demônios. Criar contextos artificiais a fim de fugir de contextos fidedignos
é perda de tempo. Serve tão só para fortalecer e justificar os contextos autênticos.
É tapar o sol com a peneira, como ensina a sabedoria popular.
Agora, é doloroso para um artesão ficar indiferente a uma escultura a
dois metros de si. O artesão perito quer admirá-la. Ele sempre percebe a
necessidade de toques, retoques, recortes. Mas os meus preceitos morais, talvez
arcaicos, vinham aos magotes balançando o não de cabeça. Acatava, é verdade,
mas a verdade verdadeira é que ali se faz presente um quê de danação. Tão
verdade que a Mirainha percebe:
Vixe como você gosta de ler. É impressão ou está evitando me olhar?
Que ideia mais maluca, Mirainha.
Perdão, criatura.
Fiz uma aquiescência de mãos e aproveitei o momento pra ir ao banheiro,
já que há tempo estava apertado. A voz meiga da ardilosa Mirainha, contudo,
deixou-me agitado ao extremo. O olhar da pestinha era ironia pura. Levantei-me
da cama e saí espreguiçando-me pra frente, meio encurvado. Mas com o canto de
olho vi bem que ela fazia um sorriso de canto de boca. Vi assaltante me
assaltando, trem virando, navio afundando. E vi avião caindo. Vi de tudo, porém
voltei do jeitinho que fui. Mas a Mirainha não estava do jeito que ficou.
Sentada no meio da cama, joelhos dobrados, ria à vontade. E tinha o livro da
Adriana junto aos seios. Falou rindo o risinho rouco de vampe:
Pra pegá-lo precisa pegá-los, criatura.
Daquele momento em
diante o tempo voou. Fiquei num frenesi só. Fiquei realmente nervoso. Jamais
ficara assim em situação semelhante.
Acontece. Relaxe,
dizia a Mirainha, rosto colado ao meu.
Não tinha jeito de
relaxar. A mente começava a encher-me de maus pressentimentos.
O terrível presságio foi me invadindo, contudo administrável durante os
procedimentos preliminares. Por fim, o bicho subiu feito um foguete. Mas antes
de se estabilizar deu uma balançada ameaçadora e passou segundos descendo.
Nossa, Mirainha, exclamei, depois de tê-la abraçada fortemente.
Tenha calma, relaxe. Acontece. Isso vai passar, criatura. É a primeira
vez que você fica assim?
Sem fitá-la, balancei o sim. Sentia-me um lixo, impotente pra tudo. As
lágrimas chegaram. Voltara a ser criança. Tão criança que a Mirainha julgou
necessário me aninhar em seus peitos, ficar massageando-me o pixaim e repetir o
“acontece, tenha calma, isso vai passar, criatura”. Mas não havia massagem que desse
jeito.
Não disse que a Mirainha era um autêntico avião? Pois foi no aconchego
mamário daquelas asas que fui indo, fui indo, fui indo, até o bem-querer dela
deixar-me extasiado. Nisso, sinto um fortíssimo solavanco. Fez-me até dar duas
golpadas. Mas aí a prevenida Mirainha já estava me equipando com o recipiente de
conter vômitos.
Olhei pela janelinha e vi as luzes de Natal. O solavanco tinha sido do
trem de pouso. Estávamos chegando. A turbulência estava indo embora. Eu nunca
tinha tido tanto medo de morrer. Ufa.
O avião aterrissou numa boa. Descemos. Agradeci por tudo e roguei-lhe
segredo sobre a situação. Já imaginaram se os colegas soubessem que, com medo
de o avião cair, eu havia chorado nos braços da Mirainha?
Não vou pra Brasília, Mirainha. Essa foi a última vez que viajo de avião.
Mirainha não falou uma nem duas. Só fez me olhar assim, assim, assim.
Assim, sabem?
Bom. Finalmente a moça
estava saindo do carro. Saía com uma taça de vinho na mão esquerda. Caminhou
pro meu portão. Apertou o botão da campainha e se apresentou. Não era realmente
a brasileira Miraia. Era a colombiana Sylvia. Pra não deixar dúvida, ela falou
em espanhol e português:
Hola,
soy Sylvia. Quiero hablar con mi autor.
Olá, sou a Sylvia. Quero
falar com o meu autor.
Não cabendo em mim, destravei
o portão e fui recebê-la. Aí, aí... Aí não tinha ninguém. Nem carro
estacionado.
Alisei o dolorido braço e
massageei o quengo: caramba, que reação devastadora tem essa vacina.
8 do 21
TC
TIM-TIM
Atenção. Preciso testar uma coisinha do blogue. Você poderia escrever um OK aqui embaixo, na área de comentários? Fica a seu critério se identificar, O OK me basta, tá OK? Um abraço