domingo, 29 de agosto de 2021

DON PORFÍRIO - O DESUMANO

 





DON PORFÍRIO - O DESUMANO

 

Estão sozinhos no apartamento. Ele no sofá de cetim. Ela na cadeira de palhinha. Ela de olhos nele. Ele incapaz de fugir dos olhos dela. Excitadíssima, ela serve luxúria e é servida de imaginação. Indiferentíssimo, ele é servido de luxúria e serve imaginação. Olhos semicerrados, taça de vinho - de beber - na mão, outra - de ler - no colo, ela beberica, folheia e imagina o fogo dele pertinho de seus lábios. Ele se vê vendo a prazerosa fumaça saindo dos lábios dela. Ela é linda, conservadora e heterossexual. Ele é asqueroso, liberal e pansexual. Tinham tudo pra dar errado. Mas há peculiaridades nela e nele que os deixam apaixonadíssimos. Pra ele, o toque dos dedos dela: prévia do contato labial dos deuses. Pra ela, tocá-lo com os dedos: prévia da sugada dos deuses.

Ela é escritora. É xodó de poetas e romancistas. Ele nada escreve, mas é igualmente xodó. De alguns e algumas, diga-se. De outros e outras é inimigo mortal. Vivem tampando o nariz pra ele. Ele é passivo por natureza. Ela se esquenta por qualquer contrariedade. Daí ela pegar ar em razão da passividade dele e gostar de esquentá-lo também.

Como agora, quando acabam de chegar de um lançamento literário, cujo livro repousa no colo dela.

Ela olha pro sofá fixamente. Parece querer jogar fumaça pelas ventas. Então dilata as pupilas, alisa prateado isqueiro em forma de caneta, fita-o no sofá feito pidona e acaricia o cabelo.

Ele percebe naqueles sinais que ela está súper a fim.

Ela respira fundo, simula jogar na cara dele uma tragada de rancor e expele o ressentimento:

Diz que ele não faz a menor noção do que seja amor, que é tão só um aproveitador do emocional dela, a ponto de tê-la tornado dependente dele, e que, ainda acha pouco, e fica lhe fazendo pouco. E arremata em bom som:

“Você me dá prazer, é certo, mas é desumano, sim. Mas nunca se esqueça de que fico pagando por isso, seu gigolô de merda. Aliás, você tá mais pra garoto de programa, meu”.

Faltou-lhe chão. Sofá, melhor dizendo, já que no sofá ele estava. Quis jogar-lhe na cara um bocado de coisas, mas viu que os argumentos só iriam tocar mais fogo no emocional dela. Está acostumado a vê-la puxar briga em razão da tranquilidade dele. Mais ele dando o mote.

Percebia a causa de seu ressentimento. Ela achava que ele fazia pouco dela porque fez companhia a duas de suas colegas no lançamento do livro. As colegas o chamaram para tomar um pouco de ar puro no terraço da livraria. Foi, até para que ela entendesse que ele não era exclusivo dela.

Gigolô, garoto de programa. Quem já viu? Nunca lhe exigira nada. Nem dela nem dos milhões de mulheres que conhecera.

Ele fica alerta. Ela está se levantando da cadeira de palhinha. Vem pegá-lo, já que imprevisível. Não vinha. Passou pelo sofá só faltando estraçalhá-lo com os olhos, dizia-lhe o olhar de desejo e a cara de vampe.

Deve ter ido usar algum artifício a fim de se aliviar. É nisso

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

MINHA ÚLTIMA VEZ

 




MINHA ÚLTIMA VEZ

            Não direi a data (foi antes da pandemia), mas revelarei o como e com quem.

Tenho o costume - costume não é a simples repetição de atos. É o orgasmo do precedente - de dar olhadinhas na rua sempre que passo pelo monitor das câmeras. Então. Tomei a vacina, tomei o caminho de casa, tomei banho, tomei um cafezinho e tomei um susto ao flagrar a moça descendo do carro. Cheio de espaço na frente e atrás, mas ela entendeu de estacionar o automóvel atravancando a minha garagem. Uma luta pra ela sair do carro. Saiu e logo percebi a causa. O excesso de beleza e a carência da agilidade dos comuns mortais tornavam-na presa ao cinto. Assemelhava-se a uma deusa, sim. Desceu, deu cinco passos e me deu um choque: é a Miraia. Mirainha por aqui. Meu Deus. Nossa. Ela dá os passinhos e volta pro carro. Esquecera algo ou percebera o automóvel obstruindo a garagem. Ou as duas coisas, obviamente. Volta pro carro tirando a máscara. Não era a Mirainha. O foco da câmera não ajudava, mas ela não era. Ou seria a Miraia pós-quarentena? Falo assim porque a moça era contagiante pandemia de luxúria. Autêntico avião, tal qual a Mirainha.

Mirainha ou não, certo é que as constrangedoras e angustiantes recordações não deram a mínima para a incerteza. As cenas daquela noite bateram-me com força. Não desejo que tresloucados petistas ou bolsonaristas passem por tamanho constrangimento. Deu-se assim.

Servidores federais faziam um encontro preliminar, num hotel, em Fortaleza, para grande evento reivindicatório que se daria em Brasília. Coisa das dez horas da sexta-feira, dávamos por encerrado o encontro. De Natal, apenas eu e a Mirainha. Nosso voo estava marcado para as duas horas da manhã do sábado. Fechamos o hotel, caríssimo, e fomos para uma pousada nos arredores do aeroporto. Por sugestão da Mirainha, acrescento. Alegou ela, no jantar da quinta-feira:

Muito caro pra gente ficar aqui e muito tempo pra gente ficar zanzando no Pinto Martins. Melhor a gente se acomodar numa pousada ali por perto. A diária deve valer a pena. Podemos rachar. Não vejo problema em ficarmos num quarto só. O que você acha? É claro que espero um comportamento exemplar do nobre cavalheiro.

Falou e danou-se a rir a pragmática brincalhona. Também ri, ainda que amarelo. Convém informar que ao conhecer a Mirainha homem algum fica sem imaginá-la. Nunca fui homem algum, de sorte que eu também a imaginava. Com todo o respeito, mas a imaginava, sim. Tanto que a sugestão do quarto comum me pôs em parafuso. Tipo do contexto que o diabo adora, pensava.

Mirainha vai pro shopping depois de tirar minutos de soneca no quarto. Fico lendo Adriana Falcão. Às sete horas fomos jantar – sopa - no refeitório da pousada. Voltamos, a Mirainha fica assistindo ao noticiário da TV. Continuo lendo a Adriana. Receoso de me trair, pois o olhar não engana, especialmente o de fome carnal, não tiro os olhos do livro. Penso em ir tomar um cafezinho, ou uma cerveja, ou um ar puro, mas desisto. Entendo que precisamos enfrentar nossos demônios. Criar contextos artificiais a fim de fugir de contextos fidedignos é perda de tempo. Serve tão só para fortalecer e justificar os contextos autênticos. É tapar o sol com a peneira, como ensina a sabedoria popular.

Agora, é doloroso para um artesão ficar indiferente a uma escultura a dois metros de si. O artesão perito quer admirá-la. Ele sempre percebe a necessidade de toques, retoques, recortes. Mas os meus preceitos morais, talvez arcaicos, vinham aos magotes balançando o não de cabeça. Acatava, é verdade, mas a verdade verdadeira é que ali se faz presente um quê de danação. Tão verdade que a Mirainha percebe:

Vixe como você gosta de ler. É impressão ou está evitando me olhar?

Que ideia mais maluca, Mirainha.

Perdão, criatura.

Fiz uma aquiescência de mãos e aproveitei o momento pra ir ao banheiro, já que há tempo estava apertado. A voz meiga da ardilosa Mirainha, contudo, deixou-me agitado ao extremo. O olhar da pestinha era ironia pura. Levantei-me da cama e saí espreguiçando-me pra frente, meio encurvado. Mas com o canto de olho vi bem que ela fazia um sorriso de canto de boca. Vi assaltante me assaltando, trem virando, navio afundando. E vi avião caindo. Vi de tudo, porém voltei do jeitinho que fui. Mas a Mirainha não estava do jeito que ficou. Sentada no meio da cama, joelhos dobrados, ria à vontade. E tinha o livro da Adriana junto aos seios. Falou rindo o risinho rouco de vampe:

Pra pegá-lo precisa pegá-los, criatura.

Daquele momento em diante o tempo voou. Fiquei num frenesi só. Fiquei realmente nervoso. Jamais ficara assim em situação semelhante.

Acontece. Relaxe, dizia a Mirainha, rosto colado ao meu.

Não tinha jeito de relaxar. A mente começava a encher-me de maus pressentimentos.

O terrível presságio foi me invadindo, contudo administrável durante os procedimentos preliminares. Por fim, o bicho subiu feito um foguete. Mas antes de se estabilizar deu uma balançada ameaçadora e passou segundos descendo.

Nossa, Mirainha, exclamei, depois de tê-la abraçada fortemente.

Tenha calma, relaxe. Acontece. Isso vai passar, criatura. É a primeira vez que você fica assim?

Sem fitá-la, balancei o sim. Sentia-me um lixo, impotente pra tudo. As lágrimas chegaram. Voltara a ser criança. Tão criança que a Mirainha julgou necessário me aninhar em seus peitos, ficar massageando-me o pixaim e repetir o “acontece, tenha calma, isso vai passar, criatura”. Mas não havia massagem que desse jeito.

Não disse que a Mirainha era um autêntico avião? Pois foi no aconchego mamário daquelas asas que fui indo, fui indo, fui indo, até o bem-querer dela deixar-me extasiado. Nisso, sinto um fortíssimo solavanco. Fez-me até dar duas golpadas. Mas aí a prevenida Mirainha já estava me equipando com o recipiente de conter vômitos.

Olhei pela janelinha e vi as luzes de Natal. O solavanco tinha sido do trem de pouso. Estávamos chegando. A turbulência estava indo embora. Eu nunca tinha tido tanto medo de morrer. Ufa.

O avião aterrissou numa boa. Descemos. Agradeci por tudo e roguei-lhe segredo sobre a situação. Já imaginaram se os colegas soubessem que, com medo de o avião cair, eu havia chorado nos braços da Mirainha?

Não vou pra Brasília, Mirainha. Essa foi a última vez que viajo de avião.

Mirainha não falou uma nem duas. Só fez me olhar assim, assim, assim. Assim, sabem?

     Bom. Finalmente a moça estava saindo do carro. Saía com uma taça de vinho na mão esquerda. Caminhou pro meu portão. Apertou o botão da campainha e se apresentou. Não era realmente a brasileira Miraia. Era a colombiana Sylvia. Pra não deixar dúvida, ela falou em espanhol e português:

        Hola, soy Sylvia. Quiero hablar con mi autor.

Olá, sou a Sylvia. Quero falar com o meu autor.

Não cabendo em mim, destravei o portão e fui recebê-la. Aí, aí... Aí não tinha ninguém. Nem carro estacionado.

Alisei o dolorido braço e massageei o quengo: caramba, que reação devastadora tem essa vacina.

 

8 do 21

TC                                                     

TIM-TIM

 

 


Atenção. Preciso testar uma coisinha do blogue. Você poderia escrever um OK aqui embaixo, na área de comentários? Fica a seu critério se identificar, O OK me basta, tá OK? Um abraço

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

SACHÊ

 



SACHÊ

Começou assim. Ia saindo pra comprar cigarro... Sou estúpido. Não nego, gente. Fumo e bebo. E escrevo drogas. Então. Ia saindo, Thalia pediu que eu comprasse creme de leite e sachê de milho. Cheguei ao mercadinho (moro pegado com um), peguei o creme de leite e comecei a procurar o tal sachê. Cadê o lesado localizar o bicho. Socorri-me de Rafael, abastecedor do mercadinho. Rafael me deu uma embalagenzinha e explicou:

Tudo neste setor é sachê, Seu Tião. Sachê disso, sachê daquilo, sachê de qualquer coisa.

Vocês podem pensar que é brincadeira, mas eu procurava algo com o nome “sachê de milho”. Não vejo problema em revelar a ignorância. Pois bem. Mal entro em casa, corro pro dicionário. Tá lá. Sachê: pequeno saco ou almofada, geralmente de material plástico ou laminado, usado como embalagem. Embalagem de qualquer coisa, é lógico, como dito por Rafael. Nisso me bateu a curiosidade de ver como o dicionário descreve a palavra “coisa”. Coisa de gente besta, sei bem.

O Houaiss mostra 18 entradas com a palavra coisa. É muita coisa, gente. Agora, tem uma coisinha que descobri e que também não tenho vergonha de confessar. Uma, não. Duas. Não sabia que estava dicionarizado o verbo “coisar”. Pois é. Verbo regular, bem coisadinho. “Eu coiso, se tu coisasses, coisa tu”. Na verdade, não estou escrevendo. Estou coisando.

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