sexta-feira, 6 de agosto de 2021

SACHÊ

 



SACHÊ

Começou assim. Ia saindo pra comprar cigarro... Sou estúpido. Não nego, gente. Fumo e bebo. E escrevo drogas. Então. Ia saindo, Thalia pediu que eu comprasse creme de leite e sachê de milho. Cheguei ao mercadinho (moro pegado com um), peguei o creme de leite e comecei a procurar o tal sachê. Cadê o lesado localizar o bicho. Socorri-me de Rafael, abastecedor do mercadinho. Rafael me deu uma embalagenzinha e explicou:

Tudo neste setor é sachê, Seu Tião. Sachê disso, sachê daquilo, sachê de qualquer coisa.

Vocês podem pensar que é brincadeira, mas eu procurava algo com o nome “sachê de milho”. Não vejo problema em revelar a ignorância. Pois bem. Mal entro em casa, corro pro dicionário. Tá lá. Sachê: pequeno saco ou almofada, geralmente de material plástico ou laminado, usado como embalagem. Embalagem de qualquer coisa, é lógico, como dito por Rafael. Nisso me bateu a curiosidade de ver como o dicionário descreve a palavra “coisa”. Coisa de gente besta, sei bem.

O Houaiss mostra 18 entradas com a palavra coisa. É muita coisa, gente. Agora, tem uma coisinha que descobri e que também não tenho vergonha de confessar. Uma, não. Duas. Não sabia que estava dicionarizado o verbo “coisar”. Pois é. Verbo regular, bem coisadinho. “Eu coiso, se tu coisasses, coisa tu”. Na verdade, não estou escrevendo. Estou coisando.

A o

utra coisa, é que eu desconhecia a dicionarização da palavra “coiso”. Leio alguém chamando o presidente Bolsonaro de “coiso”, mas supunha se tratar apenas de desabafo, brincadeira ou coisas assim. Não é. Coiso está perfeitamente dicionarizado como substantivo masculino. É o indivíduo cujo nome não se consegue lembrar ou não se quer declinar.

Como uma coisa puxa outra, veio-me à memória um comentário lido na Folha cujo comentarista chama o presidente de discípulo do “Coisa-ruim”. As coisas continuaram me puxando e acabei me lembrando da escatológica expressão usada pelo presidente para se referir a Bruno Covas, morto, há coisa de três meses, no exercício do mandato de prefeito de São Paulo. “Aquele que morreu”, falou assim o presidente Bolsonaro.

Coisa ruim mesmo, pensei, ecoando-me do presidente o “E daí? Não sou coveiro. Todo mundo vai morrer”. Aí fiquei matutando qual seria a fisionomia do presidente diante um sorriso de uma criança na tarde de um domingo azul, no horizonte um arco-íris.

Matutava e fui ficando apavorado com as feições que a minha mente teimava em formar. Mostrava-me um rosto disforme, laminado, frio, sem um pingo de emoção, exageradamente vertical. Parecia uma coisa inanimada. Balancei o não de cabeça, suspirei fundo, olhei pra cima, voltei ao normal. Mas a imagem não. Apareceu mais deformada. Abri bem os olhos e olhei pra dentro dela. Não tinha nada abaixo daquele rosto. Tinha apenas um enorme vazio. Um nada enorme. Benzi-me.

Era uma coisa inanimada mesmo. Era um rosto sem alma.

Saí do dicionário, entrei no word e vim coisar aqui.

E estou terminando, arrepiado, com sonoro grito:

Não temos um presidente.


Temos um sachê.

 

Oito do vinte e um,

TC


Nenhum comentário: