SACHÊ
Começou assim. Ia saindo
pra comprar cigarro... Sou estúpido. Não nego, gente. Fumo e bebo. E escrevo drogas.
Então. Ia saindo, Thalia pediu que eu comprasse creme de leite e sachê de
milho. Cheguei ao mercadinho (moro pegado com um), peguei o creme de leite e comecei
a procurar o tal sachê. Cadê o lesado localizar o bicho. Socorri-me de Rafael,
abastecedor do mercadinho. Rafael me deu uma embalagenzinha e explicou:
Tudo neste setor é sachê,
Seu Tião. Sachê disso, sachê daquilo, sachê de qualquer coisa.
Vocês podem pensar que é
brincadeira, mas eu procurava algo com o nome “sachê de milho”. Não vejo
problema em revelar a ignorância. Pois bem. Mal entro em casa, corro pro
dicionário. Tá lá. Sachê: pequeno saco ou almofada, geralmente de material
plástico ou laminado, usado como embalagem. Embalagem de qualquer coisa, é
lógico, como dito por Rafael. Nisso me bateu a curiosidade de ver como o
dicionário descreve a palavra “coisa”. Coisa de gente besta, sei bem.
O Houaiss mostra 18
entradas com a palavra coisa. É muita coisa, gente. Agora, tem uma coisinha que
descobri e que também não tenho vergonha de confessar. Uma, não. Duas. Não
sabia que estava dicionarizado o verbo “coisar”. Pois é. Verbo regular, bem coisadinho.
“Eu coiso, se tu coisasses, coisa tu”. Na verdade, não estou escrevendo. Estou
coisando.
A o
utra coisa, é que eu desconhecia a dicionarização da palavra “coiso”. Leio alguém chamando o presidente Bolsonaro de “coiso”, mas supunha se tratar apenas de desabafo, brincadeira ou coisas assim. Não é. Coiso está perfeitamente dicionarizado como substantivo masculino. É o indivíduo cujo nome não se consegue lembrar ou não se quer declinar.Como uma coisa puxa
outra, veio-me à memória um comentário lido na Folha cujo
comentarista chama o presidente de discípulo do “Coisa-ruim”. As coisas continuaram
me puxando e acabei me lembrando da escatológica expressão usada pelo
presidente para se referir a Bruno Covas, morto, há coisa de três meses, no
exercício do mandato de prefeito de São Paulo. “Aquele que morreu”, falou assim
o presidente Bolsonaro.
Coisa ruim mesmo, pensei,
ecoando-me do presidente o “E daí? Não sou coveiro. Todo mundo vai morrer”. Aí
fiquei matutando qual seria a fisionomia do presidente diante um sorriso de uma
criança na tarde de um domingo azul, no horizonte um arco-íris.
Matutava e fui ficando
apavorado com as feições que a minha mente teimava em formar. Mostrava-me um rosto
disforme, laminado, frio, sem um pingo de emoção, exageradamente vertical.
Parecia uma coisa inanimada. Balancei o não de cabeça, suspirei fundo, olhei
pra cima, voltei ao normal. Mas a imagem não. Apareceu mais deformada. Abri bem
os olhos e olhei pra dentro dela. Não tinha nada abaixo daquele rosto. Tinha
apenas um enorme vazio. Um nada enorme. Benzi-me.
Era uma coisa inanimada
mesmo. Era um rosto sem alma.
Saí do dicionário, entrei
no word e vim coisar aqui.
E estou terminando,
arrepiado, com sonoro grito:
Não temos um presidente.
Temos um sachê.
Oito do vinte e um,
TC
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