SALVOS PELO LIVRO
Podia
ser uma simples virose, mas, precavida, Cláudia julgou por bem ir ao médico, o Dr.
Antônio, seu médico e brincalhão vizinho.
“Dr.
Antônio está 50 minutos atrasado, Claudinha”, disse Gilvanete, a atendente da
clínica Sapiens. “Tem nada não, Nete. Vou aproveitar para terminar de ler um
livro”, conformou-se a compreensiva Cláudia.
Cláudia
sentou-se, passou a vista nos pacientes – cerca de vinte, a maioria cutucando o
celular - e se pôs a ler. Nem começou, na verdade, porquanto um casal, de
capacete na cabeça, acabava de dirigir-se à recepção. Exceto as pessoas
conectadas às redes sociais, as demais se entreolharam, antevendo um assalto.
Mas
não era. Simples distração do casal. Tanto que tiraram o capacete e pediram
desculpa. O alívio veio nos sorrisos amarelos dos presentes. Não sei aí onde
você mora, leitor, mas aqui em Natal é rotineiro esse tipo de assalto, os tais
arrastões. A bandidagem não escolhe ambiente, hora e coisas que tais. Assaltam
de cara limpa e saem chupando o dedo. Não está nada fácil para os do bem.
Agora
sim, Cláudia se dispôs a ler, embora estivesse sentindo leve tortura. O motivo
era a inhaca do moço ao lado, representante de algum laboratório, denunciavam-lhe
a vestimenta e a maleta sobre as pernas. A coisa atingiu-a em cheio quando o
cara ergueu o braço e falou ao celular: “Tá tudo dominado, mas se tu não...”
Além
de sujismundo é displicente, do contrário não estaria usando meias de cores distintas,
comprovou Cláudia, observando a amarela e cinza, e já decidida a trocar de
assento. Não precisou, contudo, já que o rapaz se levantou e foi sentar-se
próximo a um presumível colega, haja vista a identidade de postura entre os
dois.
Até
que enfim Cláudia começou a ler uma das crônicas do livro. Mas, de riso raso,
ficou o tempo todo com a mão na boca a fim de obstruir a gargalhada. Engraçado
que a divertida prosa que acabara de ler tinha o sintomático título de As
Risadas da Clínica. Tudo a ver, pensou, fechando o livro, olhando em
volta. Nisso, voltou a tampar a boca ao mirar o colega do fedorento. O motivo é
que a criatura parecia muito com a ilustração da capa do livro, o Toinho do
título: louro, calça cinza, blusão vermelho e tênis. Cagado e cuspido, como
dizem no meu interior, riu por dentro a arguciosa Cláudia. Bastião não vai
acreditar quando eu...
Agora
preciso esclarecer duas coisinhas: o livro em questão chama-se Toinho,
Seu Danado! É de minha autoria, como sabem alguns de vocês. A propósito,
a primeira tiragem foi de 7 exemplares. Dei 1 ao prefaciador, 1 ao jovem escrevente
João Lucas e vendi 2. Restam-me 3, portanto. Se tiverem interesse basta entrar
no tcarneirosilva@gmail.com que
faremos negócio.
A
segunda coisinha refere-se à risonha leitora, a Cláudia. Cláudia é caixa de um
mercadinho parede e meia com a minha casa e, vejam só, a mãe do João Lucas, o
escrevente acima citado. É a ela a quem compro cigarro e bolo de batata.
Bom,
Cláudia fez a reticência no “Bastião não vai acreditar quando eu...”, tornou a
contemplar os supostos representantes farmacêuticos, lembrou-se de certas
passagens do Toinho, seu Danado!, a tecla do riso foi cedendo lugar à ficha
da preocupação e... Pimba! Caiu a ficha: aquela dupla ia fazer um arrastão ali.
Cláudia ficou olhando pra cima e, mentalmente, releu tópicos do livro. Lembrou-se
destes dois:
Desconfie das reticências, porquanto
reveladoras.
O
fedorento falou assim ao celular: “Tá tudo dominado, mas se tu não...” O peste ficou reticente, como se o interlocutor
estivesse desistindo do combinado. Concordo com o livro. Desconfio, sim.
Não tire conclusões da simples leitura de um
período, de um parágrafo. Encontre o contexto, converse com as entrelinhas. Vá
além
