terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Ponto nos is e ponto parágrafo

 


Palavras - 10 e 12 da manhã, tomo um cafezinho, acendo um cigarro, ligo o notebook: o parceiro trava. Fumante passivo, meu sócio costuma me cancelar nesses momentos. Levanto-me da rede e vou pegar o jornal, a Tribuna do Norte. Volto: o parceiro está solto. Dou uma corujada na Folha e no Estadão, entro no Instagram e encontro Fernanda Torres falando das sandálias havaianas, enquanto, abaixo, nos comentários, picuinha e narrativa disputam uma partida de imbecilidade apitada pelo patético. Dou uma rolada na tela, aparece o deputado federal Sóstenes Cavalcante. O deputado fala da bufunfa de 430 mil reais encontrada no apartamento dele. Papel-roteiro na mão, o deputado gagueja a explicação: a bufunfa viera da venda de um imóvel. “Minha Nossa Senhora”, escuto dos botões, ao ouvirem etcetera e tal como base para explicação. Entro nos comentários do vídeo e me deparo com o que está me fazendo escrever estas tolices. Curtinho o comentário: “É só pôr o pingo nos is e veremos que o deputado acha que somos pacóvios”. Desconheço o vocábulo pacóvio, mas o contexto me leva

Como nasceu o sinal que mudou a história

 


Dois carpinteiros, numa pequena oficina não muito longe do Templo, estão aplainando duas peças de madeira. Uma delas é maior do que a outra. A encomenda fora feita por alguém do palácio de Pilatos.

Os dois operários trabalham em silêncio, com suas ferramentas: a lâmina de ferro dentado para serrar, a lâmina polida para aplainar. Pouco depois, colocaram uma das peças cruzando com a outra.

Antes do meio-dia, virão buscar aquele instrumento de tortura e ignomínia, no qual deverá morrer um condenado de última hora. Na véspera, haviam entregue duas encomendas iguais para que nelas morressem dois ladrões, um de Jerusalém, outro de Samaria.

O trabalho termina: a cruz está pronta. Deixam-na do lado de fora, é um objeto que não será roubado por ninguém. Os judeus nem sequer a tocariam, sabiam

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Jakeline Santiago+Voltaire+Dostoiévski+Nietzsche+Garagem

 


Que título esquisitão é esse, gente? Vou explicar a esquisitice.

Jakeline - escritora potiguar. Voltaire – escritor e filósofo francês. Morreu em 1778. Dostoiévski – escritor e filósofo russo. Morreu em 1881. Nietzsche – escritor e filósofo alemão. Morreu em 1900.

Pensamento marcante do Voltaire: “Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo”. Pensamento marcante do Dostoiévski: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. Pensamento marcante do Nietzsche: “Deus está morto”.

Há diversos pensamentos marcantes na literatura de J Santiago, mas ela não está aqui em razão deles, mas de uma resenha que escrevi sobre o seu histórico Jumento Fantasma (post Emblemático julgamento STF, abaixo deste. Recomendo a leitura). Na resenha, repito o meu clichê predileto, que julgo em sintonia com os marcantes pensamentos desses festejados filósofos. Apreciem o clichê:

“Liberdade não é um conceito humano. É o preceito divino criador do universo. Tudo de bom no mundo é fruto da liberdade. E tudo de ruim é fruto da distorção da liberdade”.

Pois é. Deus criou o universo – e não só o mundo dos humanos – a partir do amor infinito e incondicional, cuja palavra síntese chama-se liberdade e cujo veículo propagador chama-se espírito. Acontece que a distorção da liberdade vem ganhando de goleada da divina aplicação dela. É preciso entender que Deus colocou o livre-arbítrio – a alternativa de o ser humano abandonar atitudes inconsequentes - no pacote da liberdade. Sabia Deus do risco de confundirem liberdade com ilegitimidade. É preciso entender, ainda, a complexidade do termo liberdade. A genuína liberdade, atentem pra isso, consiste em você não fazer o que quer fazer. Uso a liberdade quando quero fumar e não fumo, por exemplo.

Agora vejamos o que disseram os caras ali de cima:

“Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo”. Se Deus não existe, então tudo é permitido”. “Deus está morto”.

O que esses caras disseram é que sem as diretrizes e a crença num legislador universal, Deus, o mundo

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

A caveira e o jumento fantasma num emblemático julgamento do STF

 


“Segunda-feira, 18 de junho de 1962. Brasileiros ainda pulam de alegria. Afinal, a seleção brasileira é bicampeã mundial de futebol. No domingo, no Chile, vencera a Tchecoslováquia por 3 a 1. Nas Rocas, peixeiro bairro de Natal-RN, coisa de nove horas da manhã, um rapazola bebe água na bodega do Zezão, levanta a vista, vê brilhosa placa num poste e...

Não, Juquinha, grita o Zezão.

Depois, o Zezão diz que Juquinha ficara curioso com o vermelhão da placa e fizera menção de dar um pulinho para verificar se a tinta estava realmente fresca. Juquinha vivia dando pulinhos de sobrevivência na feira das Rocas, onde botava balaio de compras na cabeça para deixar nas residências do entorno. Juquinha também estava eufórico: havia feito o segundo frete. Ia dar um pulinho em casa a fim de deixar o dinheiro pra mãe comprar o feijão do almoço.

Juquinha não vai pra casa. O apavorante grito do Zezão chega tarde. Juquinha tinha dado o último pulinho da vida.

ATENÇÃO. NÃO TOQUE AQUI da placa parecia ao Juquinha tão só um monte de garranchos de tintas frescas. Mas o toque foi fatal. Seu frescor dos 17 anos desfizera-se em cinzas, já que os reluzentes garranchos nada mais eram que gravetos jogados no fogo do analfabetismo pelo poder público”.

São esses os primeiros parágrafos do Jumento Fantasma (Editora Nozes, 1972), histórico livro de R F Fontoura, pseudônimo da escritora potiguar Jakeline Santiago. O livro