PRISÃO, PAIXÃO E LIBERTAÇÃO
O insone rapaz vivia inquieto. Inquietação do bem, de
certa forma, já que provinha da paixão carnal. A persistente imaginação começou
quando quase atropelava uma jovem. Arranhou-se, o guidom da bicicleta se
retorceu, mas a jovem saiu ilesa. O rapaz pediu desculpa. O sorridente “não há
de que” deixou-o de libido arranhada e o romântico olhar retorceu-lhe o
coração. Valera a pena os dez dias de férias na casa da irmã.
O toque ao ampará-la, involuntariamente nos seios,
deu início ao luxuriante processo. O riso, a voz, o andar, tudo dela lhe
pareceu de outro mundo. Tentou coçar o queixo. Só então o percebeu caído. Recompôs-se
ao ver a jovem lhe acenando da varandinha da casa. Acenava-lhe com a sacola de
pão, como a lhe oferecer o primário alimento.
Faz uma semana
que o rapaz circula pelos arredores da casa dos sonhos. Chega ao ponto de escoltar
a moça até ao trabalho. Ela de ônibus, ele de bicicleta. Há dez minutos, ele a viu
na janela do quarto. Mas ela não o viu, ou fez que não viu, fazendo fascínio de
fingimento. Certo é que o esbarrão na jovem se converteu em idolatria, que
virou obsessão. Tamanha idolatria o fez pegar oito rosas vermelhas, dar a elas
o formato de coração e deixá-lo na escadinha da jovem. Mas, ainda que preso à
obsessiva ideia de possessão, o rapaz se perguntava:
Terá ela sorrido
mesmo naquela tarde? Acenou-me, realmente? Será que o que dela pressinto é real
ou tão somente a representação interna de meus sentidos? Será que o dito de que
as aparências enganam nasce dessa representação? Será verdade que nada tem
importância, exceto aquilo a que importância lhe damos. Será que, de fato, nada
acontece por acaso? Ou o acaso é simples quiçá, porventura, talvez? Acaso é
causa ou consequência? O certo é que a incerteza é a única coisa certa, que
tudo começa na mente e que somos dela prisioneiros.
Agora, com determinadas dúvidas
é que não podemos viver. Falarei com ela hoje. Não era a primeira vez