CRÔNICOS
ASSALTOS E O ASSALTO DA CRÔNICA
O rapaz com jeitão de mau postou-se
perto de Cristina e botou a mão direita no bolso. Instintivamente, Cristina
apertou a bolsa nos peitos e começou a rezar a fim de que o ônibus chegasse
logo ou que chegassem outros passageiros.
Já fora assaltada três vezes. Vivia com os nervos derrubados, andava com
o celular na calcinha, botava só uns trocadinhos na bolsa. Com o rabo do olho, Cristina
viu o cabo de um revólver na cintura do fechadão. Tratou de se afastar. Não deu
tempo. O coletivo estava chegando.
Subiram, o mal-encarado primeiro. O carrancudo
mostrou uma carteirinha ao motorista e acomodou-se numa bancada do meio.
Policial, pensou a nervosa Cristina, sentindo-se aliviada e sentando-se ao lado
do aprazível protetor. Os passageiros da
frente respiraram aliviados e soltaram um imperceptível “ufa!” Afinal, todos
ali já haviam passado pelos famosos e corriqueiros arrastões. Um casal daqueles
- a mulher tensa, o homem sombrio - despertava milhões de suspeitas.
Eles só não imaginavam é que dali a
instantes seriam assaltados.
Relaxada, Cristina tirou um papel da
bolsa e começou a ler um texto que xerocara do livro Intuitor Bião – um Homem
de Palavra:
RABUDA BEM-ESTAR – PROSA PARA ADULTO
Dr.
Arimã Abadom senta-se e dá sonoro bom-dia. Está em majestoso conjunto
arquitetônico no centro de Cristal, capital do Rio Pequeno do Norte, nordeste
de Andiroba, país parede e meia com o Brasil. Dr. Arimã tem trinta anos, é
bonito, simpático quando lhe convém, cruel por natureza. Esperto tal qual o
capeta, é dono da Rabuda Bem-estar S/A. Tão esperto que, com
vinte e cinco anos, aproveita crônico equívoco dos governantes andirobenses e
funda a Rabuda. Começa na área de Educação, segundo ele, a pedra
angular (o doutor adora essa expressão) da sociedade. Da Educação para a
Segurança é um pulo e desta para a Saúde é um salto de pulga.
A
Rabuda Bem-estar tributa 18% da renda dos andirobenses.
10% a título