quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Não quero sair daqui

 


Não consigo parar de rir com a cena bizarra.

Acocorado a minha frente, o Bião toma vinho fazendo tira-gosto com manga, ao lado um exemplar de Assim Falou Zaratustra. O pessoal daqui de casa chama o Bião de cabeça de ovo e de tamborete de forró. Acrescente-se que o leitor do Nietzsche está usando óculos escuros e uma camisa que vai bater no joelho.. O baixinho Bião é o maior mentiroso do mundo. Mas o Bião não mente por mentir. A mentira é estratégia para atingir determinado fim. Quem conhece o COISAS sabe disso. E sabe que a figuraça é meu primo e que só chama as pessoas de Decente. Bião é influencer. E requisitadíssimo garoto de programa. Mas fica todo feliz quando o tratam por filósofo.

Bião prossegue com o relato:

Aquele olhar da Fernandinha, Decente, me deu um trabalho da porra. Pelo gosto do Waltinho, teríamos ficado na filmagem 5. Mas insisti até captar a perfeição. Queria um olhar de viúva, entende?

Entendo. E ficou

sábado, 16 de novembro de 2024

A Língua do Alfredo e a do Doutor CC

 


“Última flor do lácio, inculta e bela!”, escreveu Olavo Bilac (1865-1918) no verso 1 do soneto “Língua Portuguesa”. Por óbvio, o poeta dizia ser o português o último idioma derivado do latim vulgar falado no Lácio, belíssima região italiana. Aprecie esta amostra no contexto do mestre. Aconteceu na fazenda da azougada Leda, protagonista do episódio 3 da Sisi Confidencial (Coisinhas). O diálogo se dá entre um quixotesco auditor e o Alfredo, empregado da fazenda.

- Alfredo, onde você vai assim tão lesto, circunspecto e assaz atribulado?

- Eu ia cagar, mas agora vou procurar um dicionário.

- Oh, Alfredo, não verbalize tamanha excrescência. Isso é um tabuísmo.

- E que porra é tabuísmo, Dr. Cazumba Cabral?

- É uma verbalização deveras depreciativa, Alfredo, que adentra o universo do disfemismo.

- Agora torou dentro. E que porra é esse tal de dismismo, doutor?

- Disfemismo, Alfredo. Disfemismo é...

- Espere, Dr. Cazumba, espere. O doutor sabe o que é fiufiu, foreba, fiofó, frezado, zoinho, boga, ruela, pisca-pisca, anel rosado, essas coisas e outras?

- Não, Alfredo.

- Mas o doutor sabe o que é canto?

- Claro, Alfredo. Canto é uma quina, uma linha de convergência, um ângulo...

- Pois é, Dr. Cazumba Cabral. Eu ia mandar o doutor tomar num canto desses que falei, mas como o doutor não conhece essas coisinhas, vou mandar o doutor tomar na sua linha de convergência. E vá logo, por causa de que a coisa aqui já tá pronta faz um tempão.

 

No 11 do 24,

TC

Viram a do Alfredo, mas se não quiserem ver a do Bocage não vejam a postagem seguinte.


segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Bocage e Bastinho

 

Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) é festejado nome da literatura portuguesa. Aventureiro, polêmico e boêmio. Tomamos muitos porres de vinho no Porto. Estávamos de porre na tarde em que o prenderam. O Bocage acabava de escrever algo num guardanapo de linho. Veja isto, Bastinho. Inspirado na ingenuidade de nós dois, falou. Li:

Ingênuo, tem conta de ti!

No mundo há muitos enganos

(Eu os sei, porque os sofri);

Os bons padecem mil anos

Julgando os outros por si.

 

Legal, Boca, comentei. Aí os homens chegaram. Vou transcrever dois poemas do meu amigo. O primeiro é aclamadíssimo. Tá na internet. O segundo não foi publicado. Puxei pela memória, mas a pestinha de idade soma 11  não tá lá essas coisas. Mas a essência do Boca tá nele.

 

PUBLICADO

Quer seja curto ou comprido

Quer seja fino ou mais grosso

É um órgão muito querido

Por não ter espinhas nem osso

De incalculável valor

Ninguém tem um a mais

E desempenha no amor

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

O Julgamento

 



A palavra síntese deste conto é liberdade. Daí eu ter optado pela foto do Bião para ilustrá-lo. O Bião habituou-se a tomar banho no chuveiro daqui de casa. Chega, começa a tomar banho e tome zoadeira comigo. Joga vários “Bem” (Bião me chama assim) e se dana a dizer que me viu (te vi, te vi, te vi), como a insinuar ter me visto nas gandaias da vida.

                Assistam ao julgamento