Não consigo parar de rir com a cena
bizarra.
Acocorado
a minha frente, o Bião toma vinho fazendo tira-gosto com manga, ao lado um
exemplar de Assim Falou Zaratustra. O pessoal daqui de casa chama
o Bião de cabeça de ovo e de tamborete de forró. Acrescente-se que o leitor do
Nietzsche está usando óculos escuros e uma camisa que vai bater no joelho.. O
baixinho Bião é o maior mentiroso do mundo. Mas o Bião não mente por mentir. A
mentira é estratégia para atingir determinado fim. Quem conhece o COISAS
sabe disso. E sabe que a figuraça é meu primo e que só chama as pessoas de
Decente. Bião é influencer. E requisitadíssimo garoto de programa. Mas fica
todo feliz quando o tratam por filósofo.
Bião
prossegue com o relato:
Aquele
olhar da Fernandinha, Decente, me deu um trabalho da porra. Pelo gosto do Waltinho,
teríamos ficado na filmagem 5. Mas insisti até captar a perfeição. Queria um
olhar de viúva, entende?
Entendo. E ficou
bem expressivo, Bião. Agora, saindo do olhar da Fernanda e o do Ainda Estou Aqui, qual é a sua análise sobre o assunto do momento? O país só fala de kids pretos. Queriam envenenar o Lula, cara. Conhece algum kid daqueles, Bião?Conheço
de bom dia e do balançar de cabeça. Mas já prestei serviços horizontais para
duas kids pretas louras. Não vamos sair do olhar da Fernandinha, Decente, pois
o olhar dela expressa idêntica dor de milhões de brasileiras, caso os kids pretos
tivessem levado adiante a empreitada golpista. Voltando ao filme, convém lhe informar,
Decente, que eu e o Waltinho tivemos um entrevero dos grandes por causa do
título. Só não passamos para os sopapos graças ao Selton. Por mim, o filme se
chamaria Não Quero Sair Daqui. Bom. Você me pediu uma análise
sobre os kids pretos. Quer uma análise ideológica, filosófica ou sociológica?
Misture,
Bião. Mas antes, preciso que comente o ponto de vista de alguns personagens
políticos.
“Desejar
a morte de alguém não é crime”. (deputado federal Eduardo Bolsonaro). “Bolsonaro
respeitou o resultado das urnas”. (governador de São Paulo, Tarcísio de
Freitas). “O indiciamento do Bolsonaro é perseguição política”. (senador Rogério
Marinho). “Falar de golpe é factoide”. (Ronaldo Caiado, governador de Goiás). “Investigação
do golpe é chifre em cabeça de cavalo”. (Jair Bolsonaro, ex-presidente da República).
Oh,
Decente, pelo amor de Deus. Esses palavreados não são pontos de porra nenhuma. São meros pingos. Pingos de idiotices. Ponto
de vista é opinião, postura, enfoque em relação algo, é certo, mas precisa apresentar
algum parentesco com a realidade. E o bolodório desse povo não apresenta semelhança
alguma com a leitura do mundo, com a leitura investigativa, com a leitura
jurídica, com a leitura jornalística. Mas é a cara da leitura embusteira. São pingos,
sim, Decente. Pingos de leite de sapo na vista já curta dos fanáticos por essa
gente. Na insana ânsia de acumular presunção de capital político, esses cretinos
ficam batendo meta diária de idiotices, sem ao menos pensarem na força da repetição:
saírem da vida pública com uma idiotice incurável.
Belo
ponto de vista, Bião. Sabe, cara, acho melhor fazer algumas perguntas em vez de
você misturar a análise. Assim, os kids pretos, eles queriam, desejavam, tinham
vontade de matar o Lula, o Alckmin e o Moraes a fim de deixarem o caminho livre
para o Bolsonaro. Por que não deu certo? Os kids pretos amarelaram, Bião?
Porra,
Decente. Que ruma de merda acabasse de falar. Só não escancaro sua boca e faço você
engolir esses troços em respeito a minha saudosa tia.
Como
assim ruma de merda, Bião?
Começo
pela língua. “Os kids pretos, eles queriam”. Falasse assim. Decente. Engole o
intruso desse “eles”, cara. Os kids pretos queriam e pronto. A fala fedorenta
continua com a ignorância conceitual de os “kids queriam, desejavam, tinham
vontade”.
Qual
é o problema, se realmente os kids queriam, desejavam e tinham vontade de matar
o trio? Agora deu.
O
problema é a imprecisão conceitual. O povão pode usar o “querer matar, desejar
matar e ter vontade de matar”. Beleza, Decente. Mas você, não. Você é letrado.
Precisa se expressar com precisão conceitual a fim de que seus interlocutores refinem
o discernimento.
Bião,
pelo amor de Deus. Você não está na internet vendendo cursos de prosperidade para
incautos, seu influencer de meia tigela. Perguntei se os kids amarelaram e aí
você se dana a falar asneiras.
Decente,
meu primo, fica complicado explicar a estupidez dos kids pretos, se você nem sequer
sabe o que é querer, desejar, ter vontade. O que é vontade, Decente?
Vontade
é, é, digamos assim, a faculdade de eu praticar ou não, livremente, algum ato.
Não
é isso, Decente. Isso é liberdade. Mas, admito, tem cheiro de vontade.
Vontade
é a faculdade pela qual você, Decente, tende para o bem imaterial conveniente para
a sua natureza racional, percebida por meio da inteligência. Significa dizer
que você e eu não somos primariamente racionais como se apregoa por aí. Somos emocionais
antes de sermos racionais. Átimos de diferença, por vezes, mas antes fomos.
Vontade,
Decente, é a única manifestação genuinamente decisória. O interesse - que você
chama de querer - e a intenção – que você chama de desejo -, são singelas assessoras
da vontade. A vontade é a princesa do reino mental. Mas não é inteiramente livre
para praticar nada, e esse é o defeito de sua definição, pois a vontade pode depender
da belíssima rainha do reino dela. E a mandachuva do nosso. Chamamos de vontade
polarizada, ou polarização, o fato de dois humanos ou grupo deles divergirem utilizando
apenas a emoção como argumento. Chamamos de vontade ponderada, ou ponderação, quando
os humanos divergem usando como argumento a emoção e a razão em dosagens aceitáveis.
Mas existe um viés na polarização, Decente. Ela pode ser dirigida, e não é tão incomum,
para interesses encobertos.
Superou-se,
Bião. Saiu da asneira para a baboseira. Os kids pretos amarelaram ou não, cara?
E quem é essa rainha mandachuva?
Calma,
Decente. Não é baboseira. É precisão conceitual. Mas... Bom. Não adianta. Tenho
uma ideia.
Façamos
o seguinte, Decente. Pegue uma folha de papel, um lápis e desenhe uma tábua de
15 metros de comprimento por 60 centímetros de largura. Você é capaz de cobrir
essa distância sem pisar fora da tábua?
É
claro, Bião.
Agora
ponha essa tábua ligando os terraços de dois apartamentos situados no décimo
andar de um prédio. Agora desenhe você chegando a um dos terraços e vendo conhecida
gostosura no outro, como a esperar você. O cheiro da apetitosa parece convidá-lo
para um banquete. Suas narinas se acendem. Os olhos se arregalam. O silêncio é
seu cúmplice. Você logo se vê com os dedos a caminhar pelas vísceras de gomos umedecidos
e com os beiços babados. Seu tesão degustativo, digamos assim, está literalmente
nas alturas. Vou comê-la, decide você. Mas não come. Vê a distância da tábua para
o solo e pensa: e se me desequilibrar, e se me der uma vertigem?
Certo
é que você desiste de comer a jaca. Descobriu quem é a rainha, a mandachuva? A
imaginação, Decente. A imaginação lhe deu a excitação e a brochada. Travessa,
não? A imaginação venceu a vontade. A imaginação não é do bem nem do mal. Sua
vontade é que é disso ou daquilo. Seus atos é que serão julgados se desses ou
daqueles.
Agora,
Decente, desenhe dois kids pretos numa extremidade da tábua e na outra um
palácio. Os kids vão pro palácio. É bom lhe informar, Decente, o contexto da
travessia:
O
inquilino do palácio diz a um kid preto que não se vê morando noutro lugar: “Não
quero sair daqui. Sou apaixonado por essas emas. Mas meu contrato foi só de
quatro anos. E o locatário não quis renovar, Bragão”. Aí eles traçam um plano
para o inquilino ficar morando no palácio. Surripiariam o contrato, pois sem
contrato não haveria como o locador provar só os quatro anos de aluguel, e cancelariam
os principais defensores do contrato.
E
assim foi feito, exceto o cancelamento, por causa de um contratempo de logística.
Mas tinham quinze dias para resolver aquilo. Agora o kid preto Bragão e um kid auxiliar
iam fazer a travessia pela tábua, colocada ali, por lógico, em razão do caráter
sigiloso da operação. Cantando “É meu e o boi não lambe”, e abanando o contrato
de locação, a dupla fez a travessia numa boa, já que kids são acostumados com demandas
de alturas. Daí, Decente, que os kids pretos não amarelaram, tá ok?
Por
que, então, a armação falhou, Bião?
Assim.
O projeto do inquilino presidente tinha a aceitação de expressiva parcela dos
moradores palacianos, mas tinha a rejeição de três vigilantes do palácio. É claro
que o presidente não podia morar desguarnecido, não é, Decente? O presidente
ameaçou trocar a guarda, mas aí o Júnior e o Gomes disseram que se isso
acontecesse, eles abririam o bocão pra dizer que o presidente havia roubado o
contrato de locação. Veja, Decente. A imaginação não foi capaz de deter a
vontade de horrores dos kids pretos, mas foi eficientíssima em abastecer de
valores a vontade dos guardiões.
Decente,
primo véi, o Júnior me enviou o áudio dessa reunião. Só ele, o Gomes e o
presidente. O presidente e o Gomes só não saíram no bofete porque o Júnior
meteu-se no meio dos dois. Vou lhe mostrar o áudio. Puta merda, Decente, não tô
suportando, cara.
Suportando
o quê?
Esse
cheiro, Decente. Vou ver o que as Decentes botaram nesse peixe.
Bião
vai pra cozinha. Vou atrás. As Decentes, como fala ele, franzem a testa e
enchem a bochecha ao vê-lo destampando o caldeirão de peixe. Preparam a risada,
por óbvio, pois conhecem a peça:
Que
peixe que é, primo?
Garoupa.
Não
acredito. É destino e ironia cozinhando prazer. Olha só, primo, fui ao canto do
mangue pensando exatamente em comprar uma garoupa. O que acontece. Compro, mas me
deu um branco daqueles e não me lembrava da senha de jeito nenhum. Digitava,
digitava e nada. Resultado, Decente. O BB cancelou a senha e mandou-me falar
com o gerente. Tô liso batendo biela. Já que costuma ter dinheiro vivo em casa,
me empreste 200 paus que segunda-feira faço o pix.
Impossível
descrever a risadagem da cozinha. Certo é que uma das Decentes correu pro
banheiro, outra teve um acesso de tosse e eu, quando me dei conta, estava com a
mão estirada pro azoreta com duas notas de 100 reais.
No
11 do 24,
TC
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