quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Não quero sair daqui

 


Não consigo parar de rir com a cena bizarra.

Acocorado a minha frente, o Bião toma vinho fazendo tira-gosto com manga, ao lado um exemplar de Assim Falou Zaratustra. O pessoal daqui de casa chama o Bião de cabeça de ovo e de tamborete de forró. Acrescente-se que o leitor do Nietzsche está usando óculos escuros e uma camisa que vai bater no joelho.. O baixinho Bião é o maior mentiroso do mundo. Mas o Bião não mente por mentir. A mentira é estratégia para atingir determinado fim. Quem conhece o COISAS sabe disso. E sabe que a figuraça é meu primo e que só chama as pessoas de Decente. Bião é influencer. E requisitadíssimo garoto de programa. Mas fica todo feliz quando o tratam por filósofo.

Bião prossegue com o relato:

Aquele olhar da Fernandinha, Decente, me deu um trabalho da porra. Pelo gosto do Waltinho, teríamos ficado na filmagem 5. Mas insisti até captar a perfeição. Queria um olhar de viúva, entende?

Entendo. E ficou

bem expressivo, Bião. Agora, saindo do olhar da Fernanda e o do Ainda Estou Aqui, qual é a sua análise sobre o assunto do momento? O país só fala de kids pretos. Queriam envenenar o Lula, cara. Conhece algum kid daqueles, Bião?

Conheço de bom dia e do balançar de cabeça. Mas já prestei serviços horizontais para duas kids pretas louras. Não vamos sair do olhar da Fernandinha, Decente, pois o olhar dela expressa idêntica dor de milhões de brasileiras, caso os kids pretos tivessem levado adiante a empreitada golpista. Voltando ao filme, convém lhe informar, Decente, que eu e o Waltinho tivemos um entrevero dos grandes por causa do título. Só não passamos para os sopapos graças ao Selton. Por mim, o filme se chamaria Não Quero Sair Daqui. Bom. Você me pediu uma análise sobre os kids pretos. Quer uma análise ideológica, filosófica ou sociológica?

Misture, Bião. Mas antes, preciso que comente o ponto de vista de alguns personagens políticos.

“Desejar a morte de alguém não é crime”. (deputado federal Eduardo Bolsonaro). “Bolsonaro respeitou o resultado das urnas”. (governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas). “O indiciamento do Bolsonaro é perseguição política”. (senador Rogério Marinho). “Falar de golpe é factoide”. (Ronaldo Caiado, governador de Goiás). “Investigação do golpe é chifre em cabeça de cavalo”. (Jair Bolsonaro, ex-presidente da República).

Oh, Decente, pelo amor de Deus. Esses palavreados não são pontos de porra nenhuma.  São meros pingos. Pingos de idiotices. Ponto de vista é opinião, postura, enfoque em relação algo, é certo, mas precisa apresentar algum parentesco com a realidade. E o bolodório desse povo não apresenta semelhança alguma com a leitura do mundo, com a leitura investigativa, com a leitura jurídica, com a leitura jornalística. Mas é a cara da leitura embusteira. São pingos, sim, Decente. Pingos de leite de sapo na vista já curta dos fanáticos por essa gente. Na insana ânsia de acumular presunção de capital político, esses cretinos ficam batendo meta diária de idiotices, sem ao menos pensarem na força da repetição: saírem da vida pública com uma idiotice incurável.

Belo ponto de vista, Bião. Sabe, cara, acho melhor fazer algumas perguntas em vez de você misturar a análise. Assim, os kids pretos, eles queriam, desejavam, tinham vontade de matar o Lula, o Alckmin e o Moraes a fim de deixarem o caminho livre para o Bolsonaro. Por que não deu certo? Os kids pretos amarelaram, Bião?

Porra, Decente. Que ruma de merda acabasse de falar. Só não escancaro sua boca e faço você engolir esses troços em respeito a minha saudosa tia.

Como assim ruma de merda, Bião?

Começo pela língua. “Os kids pretos, eles queriam”. Falasse assim. Decente. Engole o intruso desse “eles”, cara. Os kids pretos queriam e pronto. A fala fedorenta continua com a ignorância conceitual de os “kids queriam, desejavam, tinham vontade”.

Qual é o problema, se realmente os kids queriam, desejavam e tinham vontade de matar o trio? Agora deu.

O problema é a imprecisão conceitual. O povão pode usar o “querer matar, desejar matar e ter vontade de matar”. Beleza, Decente. Mas você, não. Você é letrado. Precisa se expressar com precisão conceitual a fim de que seus interlocutores refinem o discernimento.

Bião, pelo amor de Deus. Você não está na internet vendendo cursos de prosperidade para incautos, seu influencer de meia tigela. Perguntei se os kids amarelaram e aí você se dana a falar asneiras.

Decente, meu primo, fica complicado explicar a estupidez dos kids pretos, se você nem sequer sabe o que é querer, desejar, ter vontade. O que é vontade, Decente?

Vontade é, é, digamos assim, a faculdade de eu praticar ou não, livremente, algum ato.

Não é isso, Decente. Isso é liberdade. Mas, admito, tem cheiro de vontade.

Vontade é a faculdade pela qual você, Decente, tende para o bem imaterial conveniente para a sua natureza racional, percebida por meio da inteligência. Significa dizer que você e eu não somos primariamente racionais como se apregoa por aí. Somos emocionais antes de sermos racionais. Átimos de diferença, por vezes, mas antes fomos.

Vontade, Decente, é a única manifestação genuinamente decisória. O interesse - que você chama de querer - e a intenção – que você chama de desejo -, são singelas assessoras da vontade. A vontade é a princesa do reino mental. Mas não é inteiramente livre para praticar nada, e esse é o defeito de sua definição, pois a vontade pode depender da belíssima rainha do reino dela. E a mandachuva do nosso. Chamamos de vontade polarizada, ou polarização, o fato de dois humanos ou grupo deles divergirem utilizando apenas a emoção como argumento. Chamamos de vontade ponderada, ou ponderação, quando os humanos divergem usando como argumento a emoção e a razão em dosagens aceitáveis. Mas existe um viés na polarização, Decente. Ela pode ser dirigida, e não é tão incomum, para interesses encobertos.

Superou-se, Bião. Saiu da asneira para a baboseira. Os kids pretos amarelaram ou não, cara? E quem é essa rainha mandachuva?

Calma, Decente. Não é baboseira. É precisão conceitual. Mas... Bom. Não adianta. Tenho uma ideia.

Façamos o seguinte, Decente. Pegue uma folha de papel, um lápis e desenhe uma tábua de 15 metros de comprimento por 60 centímetros de largura. Você é capaz de cobrir essa distância sem pisar fora da tábua?

É claro, Bião.

Agora ponha essa tábua ligando os terraços de dois apartamentos situados no décimo andar de um prédio. Agora desenhe você chegando a um dos terraços e vendo conhecida gostosura no outro, como a esperar você. O cheiro da apetitosa parece convidá-lo para um banquete. Suas narinas se acendem. Os olhos se arregalam. O silêncio é seu cúmplice. Você logo se vê com os dedos a caminhar pelas vísceras de gomos umedecidos e com os beiços babados. Seu tesão degustativo, digamos assim, está literalmente nas alturas. Vou comê-la, decide você. Mas não come. Vê a distância da tábua para o solo e pensa: e se me desequilibrar, e se me der uma vertigem?

Certo é que você desiste de comer a jaca. Descobriu quem é a rainha, a mandachuva? A imaginação, Decente. A imaginação lhe deu a excitação e a brochada. Travessa, não? A imaginação venceu a vontade. A imaginação não é do bem nem do mal. Sua vontade é que é disso ou daquilo. Seus atos é que serão julgados se desses ou daqueles.  

Agora, Decente, desenhe dois kids pretos numa extremidade da tábua e na outra um palácio. Os kids vão pro palácio. É bom lhe informar, Decente, o contexto da travessia:

O inquilino do palácio diz a um kid preto que não se vê morando noutro lugar: “Não quero sair daqui. Sou apaixonado por essas emas. Mas meu contrato foi só de quatro anos. E o locatário não quis renovar, Bragão”. Aí eles traçam um plano para o inquilino ficar morando no palácio. Surripiariam o contrato, pois sem contrato não haveria como o locador provar só os quatro anos de aluguel, e cancelariam os principais defensores do contrato.

E assim foi feito, exceto o cancelamento, por causa de um contratempo de logística. Mas tinham quinze dias para resolver aquilo. Agora o kid preto Bragão e um kid auxiliar iam fazer a travessia pela tábua, colocada ali, por lógico, em razão do caráter sigiloso da operação. Cantando “É meu e o boi não lambe”, e abanando o contrato de locação, a dupla fez a travessia numa boa, já que kids são acostumados com demandas de alturas. Daí, Decente, que os kids pretos não amarelaram, tá ok?

Por que, então, a armação falhou, Bião?

Assim. O projeto do inquilino presidente tinha a aceitação de expressiva parcela dos moradores palacianos, mas tinha a rejeição de três vigilantes do palácio. É claro que o presidente não podia morar desguarnecido, não é, Decente? O presidente ameaçou trocar a guarda, mas aí o Júnior e o Gomes disseram que se isso acontecesse, eles abririam o bocão pra dizer que o presidente havia roubado o contrato de locação. Veja, Decente. A imaginação não foi capaz de deter a vontade de horrores dos kids pretos, mas foi eficientíssima em abastecer de valores a vontade dos guardiões.

Decente, primo véi, o Júnior me enviou o áudio dessa reunião. Só ele, o Gomes e o presidente. O presidente e o Gomes só não saíram no bofete porque o Júnior meteu-se no meio dos dois. Vou lhe mostrar o áudio. Puta merda, Decente, não tô suportando, cara.

Suportando o quê?

Esse cheiro, Decente. Vou ver o que as Decentes botaram nesse peixe.

Bião vai pra cozinha. Vou atrás. As Decentes, como fala ele, franzem a testa e enchem a bochecha ao vê-lo destampando o caldeirão de peixe. Preparam a risada, por óbvio, pois conhecem a peça:

Que peixe que é, primo?

Garoupa.

Não acredito. É destino e ironia cozinhando prazer. Olha só, primo, fui ao canto do mangue pensando exatamente em comprar uma garoupa. O que acontece. Compro, mas me deu um branco daqueles e não me lembrava da senha de jeito nenhum. Digitava, digitava e nada. Resultado, Decente. O BB cancelou a senha e mandou-me falar com o gerente. Tô liso batendo biela. Já que costuma ter dinheiro vivo em casa, me empreste 200 paus que segunda-feira faço o pix.

Impossível descrever a risadagem da cozinha. Certo é que uma das Decentes correu pro banheiro, outra teve um acesso de tosse e eu, quando me dei conta, estava com a mão estirada pro azoreta com duas notas de 100 reais.

 

No 11 do 24,

TC

 

 

 


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