Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) é festejado nome
da literatura portuguesa. Aventureiro, polêmico e boêmio. Tomamos muitos porres
de vinho no Porto. Estávamos de porre na tarde em que o prenderam. O Bocage
acabava de escrever algo num guardanapo de linho. Veja isto, Bastinho. Inspirado
na ingenuidade de nós dois, falou. Li:
Ingênuo,
tem conta de ti!
No mundo
há muitos enganos
(Eu os
sei, porque os sofri);
Os bons
padecem mil anos
Julgando
os outros por si.
Legal,
Boca, comentei. Aí os homens chegaram. Vou transcrever dois poemas do meu
amigo. O primeiro é aclamadíssimo. Tá na internet. O segundo não foi publicado.
Puxei pela memória, mas a pestinha de idade soma 11 não tá lá essas coisas. Mas a essência do Boca
tá nele.
PUBLICADO
Quer seja curto ou comprido
Quer seja fino ou mais grosso
É um órgão muito querido
Por não ter espinhas nem osso
De incalculável valor
Ninguém tem um a mais
E desempenha no amor
Um dos papéis principais
Quando uma dama aparece
Ei-lo a pular com fervor
Se é de um rapaz estremece
O de um velho, tem pouco vigor
O seu nome não é tão feio
Pois tem sete letrinhas só
Tem um R e um A no meio
Começa com C e termina com O
Nunca se encontra sozinho
Vive sempre acompanhado
Por dois orgãozinhos
Junto de si, lado a lado
O nome destes porém
Não gera confusões
Tem sete letras também
Tem L e acaba em ões
Vou acabar com o embalo
E com as más impressões
Os órgãos de que eu falo
São o CORAÇÃO E OS PULMÕES
NÃO PUBLICADO
Quer seja desleixada ou polida
Quer seja na cama, na rede, no verão, no inverno
Quer seja moral ou pervertida
Quer seja antiga ou moderna
É uma atividade muito querida
Por não ser espinhosa nem magricela
De incalculável valor
Ninguém a vê demais
E desempenha no prazer
Um dos papeis principais
Quando um olhar aparece
Ei-la a pulsar com fervor
Se é de um adolescente estremece
O de um veterano nem tanto ardor
Seu nome tem muitos nomes
Mundana e do mundo é
Todos saciam a fome
Todos adoram cafuné
Delícia-mor nas entrelinhas
Desprazer-mor na má-fé
Companhia-mor nos vinhos
Vou acabar com o embalo
E com as sacanas conjecturas
A desleixada ou polida de que eu falo
Chama-se LITERATURA
No 11 do 24
Com o carinho literário e os cafunés ficcionais do TC
2 comentários:
Esse poeta realmente é seu amigo!
Kkkkkk
Tião, parabéns! Você escreve muito bem e é inventivo. Siga em frente! Show!
Postar um comentário