segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Bocage e Bastinho

 

Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) é festejado nome da literatura portuguesa. Aventureiro, polêmico e boêmio. Tomamos muitos porres de vinho no Porto. Estávamos de porre na tarde em que o prenderam. O Bocage acabava de escrever algo num guardanapo de linho. Veja isto, Bastinho. Inspirado na ingenuidade de nós dois, falou. Li:

Ingênuo, tem conta de ti!

No mundo há muitos enganos

(Eu os sei, porque os sofri);

Os bons padecem mil anos

Julgando os outros por si.

 

Legal, Boca, comentei. Aí os homens chegaram. Vou transcrever dois poemas do meu amigo. O primeiro é aclamadíssimo. Tá na internet. O segundo não foi publicado. Puxei pela memória, mas a pestinha de idade soma 11  não tá lá essas coisas. Mas a essência do Boca tá nele.

 

PUBLICADO

Quer seja curto ou comprido

Quer seja fino ou mais grosso

É um órgão muito querido

Por não ter espinhas nem osso

De incalculável valor

Ninguém tem um a mais

E desempenha no amor

Um dos papéis principais

Quando uma dama aparece

Ei-lo a pular com fervor

Se é de um rapaz estremece

O de um velho, tem pouco vigor

O seu nome não é tão feio

Pois tem sete letrinhas só

Tem um R e um A no meio

Começa com C e termina com O

Nunca se encontra sozinho

Vive sempre acompanhado

Por dois orgãozinhos

Junto de si, lado a lado

O nome destes porém

Não gera confusões

Tem sete letras também

Tem L e acaba em ões

Vou acabar com o embalo

E com as más impressões

Os órgãos de que eu falo

São o CORAÇÃO E OS PULMÕES

 

NÃO PUBLICADO

Quer seja desleixada ou polida

Quer seja na cama, na rede, no verão, no inverno

Quer seja moral ou pervertida

Quer seja antiga ou moderna

É uma atividade muito querida

Por não ser espinhosa nem magricela

De incalculável valor

Ninguém a vê demais

E desempenha no prazer

Um dos papeis principais

Quando um olhar aparece

Ei-la a pulsar com fervor

Se é de um adolescente estremece

O de um veterano nem tanto ardor

Seu nome tem muitos nomes

Mundana e do mundo é

Todos saciam a fome

Todos adoram cafuné

Delícia-mor nas entrelinhas

Desprazer-mor na má-fé

Companhia-mor nos vinhos

Vou acabar com o embalo

E com as sacanas conjecturas

A desleixada ou polida de que eu falo

Chama-se LITERATURA

 

No 11 do 24

Com o carinho literário e os cafunés ficcionais do TC

 

2 comentários:

Anônimo disse...

Esse poeta realmente é seu amigo!
Kkkkkk

Anchieta disse...

Tião, parabéns! Você escreve muito bem e é inventivo. Siga em frente! Show!