sexta-feira, 20 de junho de 2025

A Vingança do X

 

Não tenho como explicar o ridículo episódio. Aconteceu em 1980, na UFRN, onde cursava Economia. Na UFRN, mas algo parecido já acontecera anos atrás, numa aula do supletivo. Querem coisa mais ridícula do que brigar com letras? Pois é. Tive uma briga feia com certo X de uma expressão aritmética. Mas isso conto no fim desta prosa.

O ridículo episódio surge de um imbróglio entre um colega e a nossa professora de Macroeconomia, a Mara. Lembro-me da história porque ontem me encontrei com Pedro Avelino, carinhosamente apelidado de Língua-Santa pela turma. Vale a pena relatar o entrevero.

        Por causa da beleza e do nome Mara, os marmanjos da classe chamavam a lindíssima professora de Maravilha. Às caladas, né, gente?

“Os pares eróticos da Mara me tiram do sério, Xis. Lábios, coxas, peitos, olhos, joelhos... Minha Nossa Senhora! Sabe, Xis, as maravilhas do mundo eram pra ser par. O oito seria a professora Mara”, costumava brincar o Língua-Santa.

        Acontece que numa aula da sexta-feira à noite, o Língua Santa, meio biritado, quis tirar uma dúvida:

        - Tenho uma dúvida sobre esse postulado Keynes, professora Oitava Ma...

            - Como assim oitava, Sr. Pedro. O senhor ia completar com maravilha, não ia? Estou sabendo que o senhor e o senhor Xis ficam nos corredores

quinta-feira, 12 de junho de 2025

A VERDADE SOBRE O DIA DOS NAMORADOS

 

Não sou de festejar o simbolismo de certas datas, mas tem a minha aprovação quem delas tira proveito para atingir estados mentais de excelência. Se data tal catalisa o primitivo êxtase, não vejo por que ficar indiferente dela. Daí a torcida para que os enamorados façam bom proveito deste 12 do 6, Dia dos Namorados. Recebam uma beijoca e o conselho de irem com calma, pois o dia é longo e a noite comprida. E as semanas também.

A propósito, convém relatar um fato ocorrido ao meio-dia de hoje. Volto do mercadinho colado a minha casa, estou pondo a chave no portão quando escuto pisadas surgidas do nada. Viro-me. Quase tenho um troço, pessoal. Um cara esquisitão, de batinazona verde, sorria pra mim:

“Não tenha medo, Sr. Tião. Sou do bem. Quero falar com o senhor, preciso de grande favor seu”.

Que susto, homem. O senhor é padre? Vamos entrar. É perigoso conversar aqui

Sou padre, não. Mas já fui. Meu nome é Valetim, apresentou-se ele, estirando-me a magra manzorra direita.

Em que posso servi-lo, Seu Valetim.

Veja, Sr. Tião. Eu era bispo no velho mundo. Fazia casamentos e mais casamentos em Roma. Até que certo dia, certo césar me deu certeira cacetada.  Sucedeu o seguinte. Sob a alegação de que os solteiros eram mais dispostos pra guerra, o rei me proibiu de fazer casamentos. Não dei bolas e continuei casando escondido. Resultado. Descobriram e me prenderam. Fui condenado à morte. Mas, enquanto esperava o dia fatal, acabei me apaixonando pela filha do carcereiro. E ela por mim. Ela não enxergava, Sr. Tião. Nascia ali a verdade de que o amor é cego. Mas tão forte era a nossa paixão que ela voltou a enxergar, acredita?

Bom, marcaram a minha execução para 14 de fevereiro. Mas, quando me botavam a corda no pescoço, botei um papel na testa. Estava escrito: Te amo, linda. Seu namorado.

Esse episódio correu o mundo. 14 de fevereiro ficou conhecido como o Dia dos Namorados e passei a ser chamado de o maior corta-jaca do universo. Não conto os casamentos que já encaminhei. Alguns com extremo trabalho. O seu, inclusive. Você era feiinho de doer, Sr. Tião. Falar nisso, como vai D. Tânia?

Está bem. Muito obrigado pela mãozinha, Seu Valetim. Aqui no Brasil o Dia dos Namorados é 12 de junho, véspera de Santo Antônio. Então a história está...

Erradíssima, Sr. Tião. O autêntico Dia dos Namorados é 14 de fevereiro. Antônio foi brilhante intelectual lisbonense. Só isso. Mas gostava de elaborar discursos amorosos, é verdade. A fama de santo casamenteiro vem daquelas palavras, entendeu? Agora, quem faz as aproximações entre os casais, arruma encontros, trabalha nos bastidores, enfim, sou euzinho aqui.

Compreendo. O senhor disse que precisava

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Tretinhas na praia da Buscapé


 

Vamos lá. As tretinhas acontecem na praia da área de lazer da minha casa. Mas, pra ser sincero, de autêntico nesse começo de prosa somente a casa, já que o lazer da área é tão só uma geladeira entupida de cerveja, vinho e cachaça, que dela viajam por quatro segundos para um guarda-sol fixado numa área descoberta. Essa área é a praia. E na praia, saibam logo, só cabem quatro pessoas.

Coisa de quatro horas da tarde, estamos na praia eu, uma professora, uma nutricionista e uma licitadora. São amigas de amizades cascudas. Em comum ainda o ápice da beleza. Cervejas viajam pra bocas. E das bocas saem sorrisos e amenidades. Eu só escuto o blábláblá, pois o sujeito precisa ser bom de papo para ser ouvido por dois minutos numa roda em que estão três damas. De mais a mais, prefiro escutar a falar. Pessoas assim, aliás, costumam ser depreciadas com etiquetas de inibidas, envergonhadas, introvertidas, matutas, essas coisinhas, como se essas coisinhas constituíssem desvios de personalidade. Os etiquetadores, contudo, desconhecem que o introvertido anda com a régua de medir liberdade.

Liberdade é fazer o que se quer dentro do que é permitido pela sociedade, é certo, mas esse fazer o que quer não exibe o selo da suprema liberdade. A verdadeira liberdade, sabem os introvertidos, é não fazer o que se quer dentro do permitido. Isso acontece quando a consciência ganha da vontade. O fumante, o compulsivo e o fanático são escravos da vontade, já que fumar, compulsar e fanatizar não jogam no time da consciência. Esse povo, aceitemos, não conhece a verdadeira liberdade. O introvertido, por sua vez, fica se coçando pra se meter numa conversa, doido pra dar um pitaco, mas a régua de não fazer o que quer, ou da verdadeira liberdade, não deixa. O introvertido é um libertário sofredor. Mas é claro que exercita a fofoquinha interna.

Pois então. As meninas