Não tenho como explicar o
ridículo episódio. Aconteceu em 1980, na UFRN, onde cursava Economia. Na UFRN,
mas algo parecido já acontecera anos atrás, numa aula do supletivo. Querem
coisa mais ridícula do que brigar com letras? Pois é. Tive uma briga feia com
certo X de uma expressão aritmética. Mas isso conto no fim desta prosa.
O ridículo episódio surge de um
imbróglio entre um colega e a nossa professora de Macroeconomia, a Mara. Lembro-me
da história porque ontem me encontrei com Pedro Avelino, carinhosamente
apelidado de Língua-Santa pela turma. Vale a pena relatar o entrevero.
Por
causa da beleza e do nome Mara, os marmanjos da classe chamavam a lindíssima
professora de Maravilha. Às caladas, né, gente?
“Os pares eróticos da Mara me
tiram do sério, Xis. Lábios, coxas, peitos, olhos, joelhos... Minha Nossa Senhora! Sabe, Xis, as
maravilhas do mundo eram pra ser par. O oito seria a professora Mara”,
costumava brincar o Língua-Santa.
Acontece
que numa aula da sexta-feira à noite, o Língua Santa, meio biritado, quis tirar
uma dúvida:
-
Tenho uma dúvida sobre esse postulado Keynes, professora Oitava Ma...
- Como assim oitava, Sr. Pedro. O senhor ia completar com maravilha, não ia? Estou sabendo que o senhor e o senhor Xis ficam nos corredores
me apelidando de Oitava Maravilha do Mundo e outras coisinhas de cunho sexual. Isso é bullying, Sr. Pedro. Está mais do que na hora de acabarem com essas molecagens. Fui clara, senhores? Risos
irônicos das meninas, escandalosa risada da Mirainha, cara de tacho do Língua-Santa.
A professora fugia do comportamento afável. Entrei na conversa:
-
Está sendo injusta, professora Mara. Não andamos por aí dizendo isso. Não há
bullying coisa nenhuma. Nem haveria, mesmo se a chamássemos de maravilha, já
que você é realmente maravilhosa. Talvez haja bullying quando me chamam de Xis,
mas levo isso na esportiva.
Sucedeu, professora, que
estávamos jogando conversa fora, eu e o Pedro, quando o tema das Sete
Maravilhas apareceu no papo. Então brinquei e perguntei se ele sabia que as
Sete Maravilhas do Mundo eram pra ser par. E só não foi em razão do machismo e
do preconceito, professora. Pois bem, contei-lhe a história da criação das Sete
Maravilhas. Essa história ficou na cabeça do Língua-Santa. Do Pedro, desculpe,
professora Mara. Daí que, quando biritado, como agora, o Pedro fica misturando
as coisas.
- Ah, é? E que história é essa? Conte
pra turma, senhor Xis. Desculpe, senhor Tião.
Risos irônicos das meninas, escandalosa
risada da Mirainha, cara de espanto do Pedro. Porra, falo pra mim. E agora?
“Estamos esperando, Xis”, zombou a Mirainha,
certamente imaginando que não tinha ocorrido a tal conversa com o Língua-Santa,
mas que eu haveria de encontrar uma saída.
Suando
ira, encaro a zombeteira Mirainha. Mas a ira desperta-me a criatividade e começo
a falar. Engraçado como uma coisa puxa outra e como a criação é parideira.
Nunca me imaginei pai de tamanha mentira. A classe me escuta de queixo no chão:
- Ocorreu o seguinte, professora Mara. O cara que criou as sete
Maravilhas do Mundo era meio doidão. Ele queria um número par de maravilhas,
entendeu?
Pensou no 6, mas o achou
gorduchinho na traseira.
“Bundão. Serve não. Melhor o 8.
Também não presta. Parece uma professorinha com as mãos nos quadris. Cintura de
violão não dá. E o 7 ou o 9, apesar de ímpares”?
O machista apanhou o 9, fê-lo
grandão, pregou-o na parede e ficou a contemplá-lo.
“Também está descartado. Tem a
cabeça muito grande. Acho até que é cearense”.
Em seguida, despregou o 9 da
parede e proferiu a lapidar sentença: “9 fora zero”.
Com isso, professora Mara, o
aluado dizia que a chance de as 7 Maravilhas serem 9 era 0.
Então, professora, o desmiolado
pegou o 7, pintou-o de vermelho, bordou-lhe as beiradas e sorriu.
“Esse é o cara. Além de esbelto
é imponente. Vou torná-lo viril, machão. Porei algo no meio da perna dele”.
Aí, professora Mara, o pirado
fez um cortinho na perna do felizardo 7. Ainda hoje usamos o cortinho quando
escrevemos o 7. O computador ignora o tracinho por ser um falso moralista.
Nasce daquele evento, professora
Mara “O fulano pintou e bordou. E o fulano pintou o 7”.
Bom, enciumados por terem sido
renegados, o 6 e o 8 fazem a cabeça dos parceiros, exceto a do 10, e espalham
pela numerada toda que o vizinho 7 é mentiroso. 7 é conta de mentiroso começa
ali, professora. O 7 é eternamente grato ao 10 por ele não ter aderido à fofoca
do 6 e do 8. É por isso que quando uma pessoa é legal, a gente costuma dizer: esse
- ou essa - é 10.
Ciente da criação das Sete
Maravilhas do Mundo, professora, o Pedro riu e brincou:
“Sabe, Xis, quando o doidão
falou de cintura de violão e de professorinha com as mãos nos quadris, queria
se referir à professora Mara”.
É isso, professora, falei, dando
por encerrada a patética exposição a fim de livrar a barra do Língua-Santa.
Ganhei aplausos. E esta
manifestação da Mirainha:
“Você é 10, Xis. Sabia que se
sairia bem”, disse ela, enchendo-me de beijos.
Donde veio o apelido de Xis? Veio
da Mirainha, gente. Explico. Fazíamos o supletivo, eu e a Miraia, no Khalil
Gibran. Prova de matemática, uma questão pedia o valor de X. X =. Aí vinha uma
aloprada expressão. Eu tinha enorme dificuldade com tais equações, autêntico
bloqueio com o X. Miraia até assoprou: “Dá 13, Tião”. Mas eu não sabia
desenvolver a danada. Quebrei a cabeça e terminei a cabeça perdendo. Falei em
voz alta:
Esse X é um galado. Não consigo
encontrar o valor do idiota.
“Galado e idiota é você, seu
burro. Estude”, escutei o X falando isso. Juro!
- Estudo, imbecil. Acontece que
você é um desqualificado, tremendo vira casaca. Vive mudando de valor. Você se
põe antes de dois tracinhos, bota na frente uma porrada de garranchos, cuja
função é se pegarem, se abraçarem, se fundirem, numa verdadeira suruba
numérica, e fica aguardando essa turma chegar a você. Chegam e você vira
licencioso orgasmo aritmético. Você é um pervertido, cara. Quer mais? Veja-se
no futebol. Você adora botar 11 machos num lado e 11 noutro. Bota e fica no
meio, de garranchos abertos, sem tomar partido. É mentira minha, é mentira minha?
“E você é pirado, bicho”
respondeu o peste.
- Pirado uma porra.
Xinguei-o com um vtnc e amassei
a prova todinha. Escutei uns gemidinhos e a ameaça:
Vou te pegar, miserável. Não
perde por esperar.
Não esperei muito. Mais tarde,
num XY íntimo, digamos assim, com a sapeca Mirainha, o peste ficou me
azucrinando. Eheheh, não consegue, não consegue...
- Nossa! Que foi, amor?
- O peste do X, Mirainha. Fica
me azucrinando no ouvido esquerdo.
Mirainha introduziu a língua no
meu ouvido e ficou mexendo. Mexia em cima e eu me mexia embaixo. O pestinha do
X pegou o beco.
A desbocada Mirainha contou
essas coisas para as colegas da classe, que contaram para outras meninas, que
saíram contando, que... Certo é que o apelido de Xis chegou junto com a Mirainha à universidade. Não
me importo. Só fico encabulado é com os risinhos da mulherada.
Bom, disse que o veado do X pegou
o beco. Pega, mas reaparece dali a duas horas. Estamos perto da casa da Mirainha
quando fomos parados pela Lei Seca. Sereno, já que não bebia havia duas
semanas, levo um susto com a ordem de prisão:
- O senhor está preso. Está com
sete decigramas de álcool no sangue.
- Impossível, policial. Não bebo
há duas semanas.
- Esse bafômetro tá doido,
policial. Meu namorado não bebeu uma gota de álcool. Só bebeu prazer. A menos
que...
- O que seu namorado bebeu ou
comeu não me interessa, moça. Ele está preso e pronto.
- Posso ver o laudo, policial?
Pego o laudo e não vejo a
informação dos sete decigramas.
- Não consta a dosagem,
policial.
- Consta, sim. Olhe no topo do
laudo.
Olho. Tem uns quadradinhos de
dosagens. E dentro de um deles escandaloso e vermelho X. Sorria. Juro.
Ah, filho da puta, falei. Me lasquei: fui preso pela lei seca e por desacato.
No 20 do 06 de 2015
TC
Um comentário:
Realmente. Temos que ter cuidado com o "x"
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