quinta-feira, 12 de junho de 2025

A VERDADE SOBRE O DIA DOS NAMORADOS

 

Não sou de festejar o simbolismo de certas datas, mas tem a minha aprovação quem delas tira proveito para atingir estados mentais de excelência. Se data tal catalisa o primitivo êxtase, não vejo por que ficar indiferente dela. Daí a torcida para que os enamorados façam bom proveito deste 12 do 6, Dia dos Namorados. Recebam uma beijoca e o conselho de irem com calma, pois o dia é longo e a noite comprida. E as semanas também.

A propósito, convém relatar um fato ocorrido ao meio-dia de hoje. Volto do mercadinho colado a minha casa, estou pondo a chave no portão quando escuto pisadas surgidas do nada. Viro-me. Quase tenho um troço, pessoal. Um cara esquisitão, de batinazona verde, sorria pra mim:

“Não tenha medo, Sr. Tião. Sou do bem. Quero falar com o senhor, preciso de grande favor seu”.

Que susto, homem. O senhor é padre? Vamos entrar. É perigoso conversar aqui

Sou padre, não. Mas já fui. Meu nome é Valetim, apresentou-se ele, estirando-me a magra manzorra direita.

Em que posso servi-lo, Seu Valetim.

Veja, Sr. Tião. Eu era bispo no velho mundo. Fazia casamentos e mais casamentos em Roma. Até que certo dia, certo césar me deu certeira cacetada.  Sucedeu o seguinte. Sob a alegação de que os solteiros eram mais dispostos pra guerra, o rei me proibiu de fazer casamentos. Não dei bolas e continuei casando escondido. Resultado. Descobriram e me prenderam. Fui condenado à morte. Mas, enquanto esperava o dia fatal, acabei me apaixonando pela filha do carcereiro. E ela por mim. Ela não enxergava, Sr. Tião. Nascia ali a verdade de que o amor é cego. Mas tão forte era a nossa paixão que ela voltou a enxergar, acredita?

Bom, marcaram a minha execução para 14 de fevereiro. Mas, quando me botavam a corda no pescoço, botei um papel na testa. Estava escrito: Te amo, linda. Seu namorado.

Esse episódio correu o mundo. 14 de fevereiro ficou conhecido como o Dia dos Namorados e passei a ser chamado de o maior corta-jaca do universo. Não conto os casamentos que já encaminhei. Alguns com extremo trabalho. O seu, inclusive. Você era feiinho de doer, Sr. Tião. Falar nisso, como vai D. Tânia?

Está bem. Muito obrigado pela mãozinha, Seu Valetim. Aqui no Brasil o Dia dos Namorados é 12 de junho, véspera de Santo Antônio. Então a história está...

Erradíssima, Sr. Tião. O autêntico Dia dos Namorados é 14 de fevereiro. Antônio foi brilhante intelectual lisbonense. Só isso. Mas gostava de elaborar discursos amorosos, é verdade. A fama de santo casamenteiro vem daquelas palavras, entendeu? Agora, quem faz as aproximações entre os casais, arruma encontros, trabalha nos bastidores, enfim, sou euzinho aqui.

Compreendo. O senhor disse que precisava

de um favor meu. Beleza. Mas, pensando bem, o senhor podia me dar umas dicas do que posso fazer a fim de ajudar algumas conhecidas com dificuldade de... Ah, o senhor sabe.

Tô ligado, Sr. Tião. Aliás, até conheço algumas com essas dificuldades. O problema, Sr. Tião, é que a mulherada de hoje não sabe namorar. Nunca as vejo batendo as pestanas pra ninguém. Encarar alguém batendo as pestanas é o primeiro sinal de que está a fim de bater outras coisas, entendeu?

Entendi. Darei tal dica a quem eu supuser necessitada; Bom, o que é que o senhor quer de mim, Seu Valentim?

Que restabeleça a verdade. Que escreva uma prosa pondo os pontos nos is. Que o Dia dos Namorados é 14 de fevereiro e não 12 de junho. Que sou o santo casamenteiro e não o golpista do Antônio. Que o 12 de junho foi invenção dum coxinha paulista, o Dória. Que ele bolou o embuste para vender flores, postais etc., já que em junho não havia data comemorativa. Que, que e que... Ah, o senhor sabe, visto ser metido a escrevinhador.

Tá bem, Seu Valentim. Vou escrever, sim.

Obrigado, amigo. Agora dê-me um abraço de despedida, Sr. Tião.

Seu Valentim me abraçou e sumiu como chegou. Do nada.

Foi assim. Foi desse do nada que escrevi essa da nada.

Boas pestanejadas pra namorados e namoradas,

Tim-tim

 

JJunho namorador de 25,

TTC

 

2 comentários:

Damião Fernandes disse...

Quem é esse Valentim? Ele pretende derrubar a patente de Santo Antônio? Kkkkk

Anônimo disse...

Se o Valentim soubesse, que hoje está tão complicado dá um simples fiu, fiu, sem ser preso por importunação, logo, logo fica ele e seu Antônio desempregado da função de casamenteiro, kk