Não
sou de festejar o simbolismo de certas datas, mas tem a minha aprovação quem
delas tira proveito para atingir estados mentais de excelência. Se data tal
catalisa o primitivo êxtase, não vejo por que ficar indiferente dela. Daí a
torcida para que os enamorados façam bom proveito deste 12 do 6, Dia dos
Namorados. Recebam uma beijoca e o conselho de irem com calma, pois o dia é
longo e a noite comprida. E as semanas também.
A propósito,
convém relatar um fato ocorrido ao meio-dia de hoje. Volto do mercadinho colado
a minha casa, estou pondo a chave no portão quando escuto pisadas surgidas do
nada. Viro-me. Quase tenho um troço, pessoal. Um cara esquisitão, de batinazona
verde, sorria pra mim:
“Não tenha medo, Sr. Tião. Sou do bem. Quero falar com o senhor,
preciso de grande favor seu”.
Que susto, homem. O senhor é padre? Vamos entrar. É perigoso conversar aqui
Sou padre, não. Mas já fui. Meu nome é Valetim, apresentou-se ele,
estirando-me a magra manzorra direita.
Em que posso servi-lo, Seu Valetim.
Veja, Sr. Tião. Eu era bispo no velho mundo. Fazia casamentos e mais
casamentos em Roma. Até que certo dia, certo césar me deu certeira cacetada. Sucedeu o seguinte. Sob a alegação de que os
solteiros eram mais dispostos pra guerra, o rei me proibiu de fazer casamentos.
Não dei bolas e continuei casando escondido. Resultado. Descobriram e me
prenderam. Fui condenado à morte. Mas, enquanto esperava o dia fatal, acabei me
apaixonando pela filha do carcereiro. E ela por mim. Ela não enxergava, Sr. Tião.
Nascia ali a verdade de que o amor é cego. Mas tão forte era a nossa paixão que
ela voltou a enxergar, acredita?
Bom, marcaram a minha execução para 14 de fevereiro. Mas, quando me
botavam a corda no pescoço, botei um papel na testa. Estava escrito: Te amo, linda. Seu namorado.
Esse episódio correu o mundo. 14 de fevereiro ficou conhecido como o
Dia dos Namorados e passei a ser chamado de o maior corta-jaca do universo. Não
conto os casamentos que já encaminhei. Alguns com extremo trabalho. O seu,
inclusive. Você era feiinho de doer, Sr. Tião. Falar nisso, como vai D. Tânia?
Está bem. Muito obrigado pela mãozinha, Seu Valetim. Aqui no Brasil o
Dia dos Namorados é 12 de junho, véspera de Santo Antônio. Então a história
está...
Erradíssima, Sr. Tião. O autêntico Dia dos Namorados é 14 de
fevereiro. Antônio foi brilhante intelectual lisbonense. Só isso. Mas gostava
de elaborar discursos amorosos, é verdade. A fama de santo casamenteiro vem
daquelas palavras, entendeu? Agora, quem faz as aproximações entre os casais,
arruma encontros, trabalha nos bastidores, enfim, sou euzinho aqui.
Compreendo. O senhor disse que precisava
de um favor meu. Beleza. Mas, pensando bem, o senhor podia me dar umas dicas do que posso fazer a fim de ajudar algumas conhecidas com dificuldade de... Ah, o senhor sabe.Tô ligado, Sr. Tião. Aliás, até conheço algumas com essas dificuldades.
O problema, Sr. Tião, é que a mulherada de hoje não sabe namorar. Nunca as vejo
batendo as pestanas pra ninguém. Encarar alguém batendo as pestanas é o
primeiro sinal de que está a fim de bater outras coisas, entendeu?
Entendi. Darei tal dica a quem eu supuser necessitada; Bom, o que é
que o senhor quer de mim, Seu Valentim?
Que restabeleça a verdade. Que escreva uma prosa pondo os pontos nos
is. Que o Dia dos Namorados é 14 de fevereiro e não 12 de junho. Que sou o
santo casamenteiro e não o golpista do Antônio. Que o 12 de junho foi invenção
dum coxinha paulista, o Dória. Que ele bolou o embuste para vender flores,
postais etc., já que em junho não havia data comemorativa. Que, que e que...
Ah, o senhor sabe, visto ser metido a escrevinhador.
Tá bem, Seu Valentim. Vou escrever, sim.
Obrigado, amigo. Agora dê-me um abraço de despedida, Sr. Tião.
Seu Valentim me abraçou e sumiu como chegou. Do nada.
Foi
assim. Foi desse do nada que escrevi essa da nada.
Boas
pestanejadas pra namorados e namoradas,
Tim-tim
JJunho namorador de 25,
TTC
2 comentários:
Quem é esse Valentim? Ele pretende derrubar a patente de Santo Antônio? Kkkkk
Se o Valentim soubesse, que hoje está tão complicado dá um simples fiu, fiu, sem ser preso por importunação, logo, logo fica ele e seu Antônio desempregado da função de casamenteiro, kk
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