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A SENHORA DO
JOGO
Responda-me daqui a pouquinho. De
quem é a culpa? Da invisível mão, dos dois paus-mandados dedinhos ou da impulsiva
cabeça? Seria do conjunto da obra? Ou o trio anatômico não tem culpa de nada,
porquanto o ato supostamente punível ter sido simples efeito de uma causa. A
meu ver, o delito é sempre da causa, não da consequência. É da origem, não do
destino. É o cúmulo da paspalhice absolver causa e punir consequência. É
evidente que existem causas e causas, como evidente é que existam consequências
e consequências.
Pois não é que ela – a causadora, a
razão de ser - acabou induzindo o grande júri a condenar o ser da razão, a
vítima?
Culpado pelo conjunto da obra,
exceto pela mão invisível, assim decidiram os jurados.
Tudo começou na primeira encarada.
Ali rolou aquele clima e ela me seduziu, ainda que eu tenha julgado atípicas as
oscilações faciais: ora ela sorria, ora ela careteava. Majestosa e
maquiavélica, já que, em sonhos, imaginando-a, fazia-me experimentar o místico prazer
e, acordado, fazia-me sofredor, por vezes, em razão da indiferença.
Convivemos inúmeras estações nesse
tumultuoso compasso. Tumultuoso, mas que não impediu de me deliciar com a dupla
vertente dela. Rapidinhas, curtinhas, espaçadas, em média três vezes ao mês, é
verdade, mas de extremo êxtase. Ela parecia um ser de outro mundo, tão singular
excitação me impunha o corpo soneteado. Trocávamos intimidades, ficávamos
proseando, ela reprovando com o não de cabeça, aprovando com o sim dos olhos, mas
fazendo beicinho por eu não entender a sua veia poética. Estou por ver criatura
mais enigmática.
A sarrabulhada começou quando lhe
disse que queria um rebento, um formoso filho que atestasse a nossa relação, e
ela contrapôs dizendo que eu não tinha condições de fazê-la parir um rebento
assim. Pior. Jogou-me na cara a preferência por celebridades. Esses, sim,
faziam filhos formosos, de futuro.
Não suportei a afronta. Injuriado,
voei pra cima dela. Só não digo que a estuprei porque ela revirava os olhinhos.
O rebento nasceu. Dei-lhe o nome de Toinho. Mas ela o renegou, tanto que não
moveu uma palha para que o pimpolho tivesse o merecido reconhecimento. Botei-a
na Justiça, é claro, acusando-a de ter abandonado o filho. De mais a mais,
peticionei para que ela conversasse com os canais competentes a fim de que o nosso
moleque tivesse um futuro.
Perdi, gente. O grande júri me
condenou a... Já, já direi a pena.
Jamais imaginaria que aquela
encarada seria o meu cadastro na confraria dos trouxas e que estaria encetando
o protocolo da frustação. De nada valeram os argumentos de que a coisa só chegara
àquele ponto porque ela me seduzira, fora a causa de tudo. Ele é quem foi
seduzido por mim, é o causador do imbróglio, rebatia ela. Ela me seduziu e ser
seduzido por ela dá no mesmo, retrucava eu. Não, contestava ela. E explicava: “ela
me seduziu” é algo avassalador, de cara, pontual. Impensável para uma pessoa
experiente como você, TC. Já “o ser seduzido por ela” é algo que vai se
formando, analisando-se, ponderando-se, entendeu? Você se iludiu, TC. Aí ela
voltou-se para o grande júri e foi impiedosa comigo:
Não queria esse filho, senhores,
porque o TC não tinha condições de fazê-lo imponente. Sabia que o moleque sairia
mal-amanhado. Para fazer filho em mim não basta querer, tem que saber. Não sou
uma parideira qualquer. Renego essa cria, senhores. O TC me estuprou, essa é a
verdade.
Como
disse, gente, fui condenado. Paciência. Só não gostei do discurso debochado
quando ela se despedia de mim: perdeste, boy. Ganhei no jogo de palavras,
artimanha em que és péssimo. E saindo, acenando, foi dizendo:
És
muito ruim de jogo, TC, eis outra verdade.
Essa
oração foi tremendo canto de carroceria em mim. Sou bom de jogo, pessoal. No de
palavras talvez não, mas sou dez no de negociador, vendedor. Vendi muito saco
de papel feito de saco de cimento, picolé, cocada, bolo e por aí vai. Agora,
minha especialidade foi jogo do bicho. Fui o melhor cambista na minha época.
Não é fácil vender sonhos. Vender tantos reais no cachorro é moleza.
Principalmente quando o jogador chega com aquele palpite. Difícil é fazê-lo
jogar no macaco, sob o argumento de que quem joga no cachorro joga no macaco.
Difícil é com a dúvida pôr a esperança na mente do infeliz.
Sou
muito bom de jogo, verdade seja dita.
Bom, voltemos à literatura.
Ela me seduziu na primeira leitura.
Instalava-se