COMO SE LIVRAR DOS GRAMPOS
DA LAVA JATO
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Não temos o que conversar, o senhor sabe disso:
Mas bastaram
trinta segundos de prosa cifrada do outro lado da linha para convencer o arredio
da linha de cá:
-
Estou convencido, sabe, meu querido, que o remédio da divergência é a
convergência. Vou pedir que a segurança deixe você passar. Apresente-se como
Acácio, o meu antigo conselheiro do interior.
Foi assim que os dois mais espertos políticos
brasileiros se encontraram. Viviam brigando havia um tempão, falavam-se até de
inimizade pessoal, mas um fedorento interesse comum acabava de estender a cheirosa
bandeira branca. Ou de jogar no esgoto o fétido caráter de cada um.
Abraçaram-se com tapinhas no coração. Mão espalmada
no coração do amigo, diga-se logo, constitui o selo de garantia da sinceridade
política. Na mulher, é evidente, o beijinho na face substitui a tapinha
peitoral.
- Olá, meu querido. Gostei do disfarce. Você está
irreconhecível, pode acreditar.
- Tem que ser assim, meu nobre, pois nem no domingo a
imprensa nos deixa em paz. Já pensou no rebuliço, caso os repórteres me vissem
entrando na sua residência oficial?
- É verdade. Já que falou em repórter, me diga uma
coisa. É verdade esse buchicho de que você está ficando com aquela repórter
linda? Desculpe falar assim, mas as nossas estripulias autorizam fazer a
pergunta, penso eu. Agora, meu querido, só me resta lhe dar os parabéns.
Aqueles olhos grandes, a naturalidade, a voz, o biquinho ao se despedir da
câmara, o batom. Nossa!
- Ah, meu nobre, virei adolescente. Estou apaixonado.
Tão comentando isso, é? Não aconteceu nada ainda. Às vezes imagino ela lendo a
minha intenção libidinosa, às vezes imagino ela me usando para dar as notícias
de bastidores, às vezes...
O anfitrião não deixaria passar em branco a
oportunidade de afagar o visitante. Até porque o buchicho não existia. Fora
criado agora por ele, o anfitrião, pois conhecia a fanfarronada do colega. E o
jeito como o colega falava com a repórter dava-lhe a certeza do delírio
amoroso. Daí a verdade absoluta:
- Olha, meu querido. Você está deixando a jumenta
passar selada. A repórter quer você. Estou convencido disso. Cuidado para não
ser tachado de bundão. Beijá-la-ia sem titubear, como diria o Miguel. Mas,
amores à parte, estou curiosíssimo com...
- Pois é. O que tenho a lhe falar é, é... Esta sala,
você não... é muito grande, essas coisas, você sabe como é. É... Precisamos ser
transparentes e...
Entendi. Você está pensando que tem algum gravador por
aqui. Tem não, meu querido. Tem não, mas vamos mudar de local. Assim você fica
sossegado. Tem uma salinha ideal pra isso lá nos fundos. Vou pedir que preparem
a sala. Realmente, hoje em dia não dá pra confiar em ninguém.
- Dá não, meu nobre. Dá não. A Lava Jato, aquele maluco,
acabou com a paz do País. Não podemos falar merda em canto nenhum. Churrasco. Churrasco,
meu nobre, em sua própria casa, com convidados, um uisquezinho a mais... Tem
que ter cuidado. Você sabe que nossa sinceridade adora álcool. Então... Então
não posso mais dizer que você é um filho da puta, ou você me chamar de corno. Por
que