segunda-feira, 29 de novembro de 2021

SOBRE A CHAVE NÚMERO 4

 




Bião Decente. O apelido “Decente” é irônico deboche, dizem. Tem sentido. Bião é desleixado (falo do desleixo do Bião no post SOBRE EDUCAÇÃO, abaixo. Leia). Além de desleixado, Bião Decente é analfabeto de pai, mãe, parteira e vizinhos. Radical, vive no pódio da birra. Talvez por viver no mundo do contra, é que Bião teve de se hospedar numa UTI/Covid.

Bião Decente é casado com a enfermeira Miraia. Miraia, aliás, não suportou as truculências do marido, pegou o filho, o Mião, e foi morar com a mãe. Mas tão logo ciente de que o infeliz estava com os sintomas da covid correu e o internou. Bião teve alta com duas semanas de UTI. Miraia o trouxe pra casa. E em casa a Miraia ficou. No terceiro dia, Miraia preparava a janta, Bião a observava...

Que foi, Bião? Venho notando você bastante pensativo. Vai ficar bom, homem.

Acho que sim, acho que sim, Miraia. Não tô pensativo por isso. É sobre um negocinho que leu naquela tabuleta esquisita. Diz que quem não sabe ler não pensa, não conhece as palavras, as imagens, a chuva, um troço assim. Só me lembro duma palavra, uma tal de sapricanta. O que diabo é isso, Miraia?

A palavra é sacripanta, Bião. É o sujeito falso, patife, velhaco. Vou procurar a tabuleta. Bião, homem de Deus, olha só. Tem um monte de tabuletas agora. Tinham apenas 11. Estão dando cria. Misericórdia. Tem três aqui que... Caramba! Achei a sua, Bião. É a 4. Diz assim:

      4. O GHSP (gênero humano, espécie sapiens, família dos primatas) PENSA POR MEIO DE IMAGENS FORMADAS POR PALAVRAS CUJOS SIGNIFICADOS SÃO DO CONHECIMENTO DELE. O NÃO ALFABETIZADO PODE SE ABRIGAR DE CHUVAS, MAS NÃO PODE SE LIVRAR DE POLÍTICOS SACRIPANTAS.

           Puxa! Pura verdade. Me diz uma coisa, Miraia. Você acha que um cabra de 45 anos ainda dá pra aprender alguma coisa?

           É claro, Bião. Está interessado? Serei sua professora. Vamos começar pela Carta do ABC. Topa?

          Sim, sim. Escute, Miraia. Já que a gente tá se entendendo, queria me desculpar pelas brigas que puxei. Você tava certa. Já pensou se você e o Miãozinho tivesse aqui quando peguei a peste dessa covid? Agora, não acho justo você ficar dormindo de rede. O médico disse que eu não passo o vírus pra ninguém. Sinto sua falta. Volte pra cama. Pode até trazer a Carta do ABC e me dar umas aulinhas de reforço. Aí eu ensino a você com quantos paus se faz uma jangada.

Ficaram na risadagem. A educação acabava de oferecer

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

SOBRE EDUCAÇÃO

 




SOBRE EDUCAÇÃO

Bião Decente. O apelido “Decente” é irônico deboche, dizem. Tem sentido. Bião é desleixado. Falam bem dele a tampa da caixa d’água caindo aos pedaços e as garrafas de cerveja dormindo no oitão da casa. Bião é microempresário de material de construção. Mas a BCONSTRUÇÃO é registrada no nome da mulher, Miraia (Bião teve vergonha de sujar os dedos a fim de fixá-los nos documentos de abertura da firma).

Bião é radical. Diz que todo político é ladrão, exceto um; que toda mulher é chifreira, exceto a dele; que todo fiscal é corrupto, exceto o irmão. Miraia vivia mais ou menos bem com Bião até a pandemia covid-19 chegar. Por volta de abril/maio de 20 a cara por acolá da Miraia só mostrava o rascunho do belo sorriso de antes. Em maio mesmo o mais ou menos melou de vez. Miraia arrumava o filho - Mião, de 6 anos – pra levar pro médico. Bião pegou ar.

Botando essa porcaria na cara do menino. Tire isso, mulher. Não quero filho maricas.

Briga feia, gente. Miraia decidiu morar com a mãe. Até porque Bião comprara uma pistola não fazia muito tempo. Bião, diga-se, já estava dormindo no sofá havia boas noites.

Nos meados de outubro/21, Miraia sabe da notícia: Bião está se queimando de febre e a garganta fecha não fecha. “Mal ficou bom da dengue, Mi”, completou uma antiga vizinha.

Miraia leva o marido pro hospital. Bião vai direto pra uma UTI da covid-19. Quinze dias entre a vida e a morte, Bião

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

OBVIEDADES, OBVIEDADES, OBVIEDADES...

 




OBVIEDADES, OBVIEDADES, OBVIEDADES...

 Escrevemos algumas ficções por ordem do capeta. Entendam. Vivo escrevendo, criei até este diabo, diabo, diabo Pocilga de Ouro ponto com para divulgar as tontices, nunca ganhei nem um pão amassado pelo dito cujo, mas continuo escrevendo as traquinices. Literatura é arte. Precisa ser mostrada, meu. O ganho é o aplauso recebido, dirá alguém. Sei não, viu, Seu Alguém?

Agora vejam se os disparates a seguir não são coisas do coisa-ruim pra cima de mim. Entrem no contexto. 1- O jornalista Vicente Serejo soltou esta notinha na Tribuna do Norte: “O romance potiguar Por uma taça de vinho está entre os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Livro do Ano publicado em 2020”. 2- Sou auditor da Receita Federal. Aposentado, pessoal. Por isso vivo escrevendo. 3- A intervenção da colombiana Sylvia, coautora do romance.

Então. Vejo com naturalidade ter recebido parabéns e mais parabéns de colegas da Receita Federal em virtude da simpática nota jornalística. Mas a Sylvia não entendeu assim. Pegou-me no banheiro, eu esfregando o sabonete no quengo. Ela subiu nas tamancas e tomou-me o espumante:

Bonito, né, Antônio (assim a Sylvia me chama. Sylvia é linda. Só perde para as brasileiras). Vale-se da instigação subliminar, a estratégia persuasiva de nossa Taça de Vinho, para vender livros encalhados aos colegas de repartição.

Eu?

Sim, criatura. Você plantou a notinha na Tribuna dizendo-se finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Somos nós