quinta-feira, 4 de novembro de 2021

OBVIEDADES, OBVIEDADES, OBVIEDADES...

 




OBVIEDADES, OBVIEDADES, OBVIEDADES...

 Escrevemos algumas ficções por ordem do capeta. Entendam. Vivo escrevendo, criei até este diabo, diabo, diabo Pocilga de Ouro ponto com para divulgar as tontices, nunca ganhei nem um pão amassado pelo dito cujo, mas continuo escrevendo as traquinices. Literatura é arte. Precisa ser mostrada, meu. O ganho é o aplauso recebido, dirá alguém. Sei não, viu, Seu Alguém?

Agora vejam se os disparates a seguir não são coisas do coisa-ruim pra cima de mim. Entrem no contexto. 1- O jornalista Vicente Serejo soltou esta notinha na Tribuna do Norte: “O romance potiguar Por uma taça de vinho está entre os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Livro do Ano publicado em 2020”. 2- Sou auditor da Receita Federal. Aposentado, pessoal. Por isso vivo escrevendo. 3- A intervenção da colombiana Sylvia, coautora do romance.

Então. Vejo com naturalidade ter recebido parabéns e mais parabéns de colegas da Receita Federal em virtude da simpática nota jornalística. Mas a Sylvia não entendeu assim. Pegou-me no banheiro, eu esfregando o sabonete no quengo. Ela subiu nas tamancas e tomou-me o espumante:

Bonito, né, Antônio (assim a Sylvia me chama. Sylvia é linda. Só perde para as brasileiras). Vale-se da instigação subliminar, a estratégia persuasiva de nossa Taça de Vinho, para vender livros encalhados aos colegas de repartição.

Eu?

Sim, criatura. Você plantou a notinha na Tribuna dizendo-se finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Somos nós

e mais 99, Antônio. Isso é ser finalista, é? Vou lhe mostrar apenas 4 desses 99 escritores: Cristovão Tezza, Michel Laub, Tati Bernardi, Nélida Piñon. Porra, cara. É como se os dois times reeiras de sua cidade - ABC e América - estivessem disputando um campeonato de 300 participantes e se autoproclamassem finalistas quando 200 disputantes fossem eliminados. Não entro na sua maracutaia. Me poupe, Antônio. De mais a mais, faltou-lhe honestidade intelectual, seu tapeador.

Eu?

Sim, porra! Precisava dar ciência aos caros amigos e amigas das 570 páginas de obviedades do romance, do viés crítico e político da história e da não presunção de sermos donos da verdade.

Falou de acharmos óbvio meninos e meninas saírem da puberdade conscientes do descomunal  poder carregado entre as pernas? Consciência essa fundamental para não se acharem donos do corpo de ninguém e assim poderem evitar caras por acolá, briguinhas, brigonas, cemitérios, cadeias.

Falou da obviedade das historinhas de sexo botando em pratos limpos a imaginação libidinosa dos humanos? Muitas delas escondidinhas nos cafundós da mente de cada um?

Falou da necessidade de o sexo ser o primitivo e poderoso provedor do primeiro prazer, pois do contrário as repetições corporais tenderiam ao enfado, ao desinteresse, e à consequente extinção do Homo sapiens por absoluta falta de cópias sapiens?

Falou de acharmos óbvio a polícia de trânsito rebocar o automóvel largado pelos zerados de consciência na frente da garagem alheia?

Falou de acharmos óbvia a indignação de nichos da população brasileira por causa dos milhões de analfabetos funcionais e analfabetos oficiais brasileiros? Indignados com governantes, é claro.

Falou de minhas lágrimas ao ver alguém pondo os dedos cheios de tinta num documento ou comprando algo pelo desenho da embalagem? Falou dos sacripantas presidentes se beneficiando da demência mental impingida pelos próprios em considerável parcela da população por não lhe ter dado uma educação de qualidade?

Precisava falar de sexo, consciência e educação, o tripé de nossa da Taça de Vinho, Antônio.

Falou da pacata São Mateus, cidade onde numa sexta-feira, 13 de agosto, as ruas amanheceram repletas de notas de 100 reais, com a chuva indo e voltando, o trovão chegando e saindo e o relâmpago clareando e escurecendo? E com três ilustres moradores assassinados? São Mateus é o nome bíblico de Levi, fiel cobrador de tributos para Herodes. E foi sua, Antônio, a sugestão do nome São Mateus. Em homenagem aos colegas, justificasse.

Falasse disso para as moças e rapazes com quem fingia trabalhar, Antônio? Algumas e alguns bastantes usados, suponho, por isso propensos, e por sorte da gente, a ser tolerantes com as nossas flatulências literárias. Mas essa possível tolerância, Antônio, não eliminava a salutar iniciativa de alertá-los sobre o puxadinho de loucura presente na história. Entenda, meu. Sabe-se lá se alguém  não vai entender como obscenidades do Marquês de Sade as historinhas de sexo? Sabe-se lá se alguém não vai julgar merecedor de nota 10 o ex-ministro da educação, o Weintraub. Sabe-se lá se alguém não vai ver no Bolsonaro um poço de consciência. Sabe-se lá, sabe-se lá...

Aqui, o sabonete escorrega da mão da Sylvia. Ou ela o deixa se escorregar, não sei. Ela quase cai no banheiro. Mas cai na risada completa. Recompõe-se, enlaça-me pelo pescoço, dá uma mordidinha básica na minha orelha esquerda e cochicha a coisa:

Misericórdia. Tá maluca, Sylvia? Não sou tão bom nisso assim.

É sim, Antônio. Fizemos algo parecido duas vezes no decorrer do livro. Ah, Antônio. Seja criativo, espante a mesmice, triture esse monte de obviedades.

Rendi-me aos gigantes olhos azuis sorrindo, gente. Atendi a súplica dela. Triturei as obviedades. Narrei o nosso encontro, queridas e queridos, sem escrever sequer um “que”. Perceberam? Ganha uma taça de vinho quem encontrar um quê de querido aqui. E as duas vezes mencionadas pela sapeca? Tem duas cartas no livro, gente. Uma, de amor, escrita sem o “a” de amor. Outra, de estima, escrita sem o “e” de estima.

É isso, amados, amadas, estimados, estimadas. Da Receita Federal e de demais sítios.

 

Natal, 11 do 21,

TC

                                               Tim-tim

 

 


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