IMPLICÂNCIAS DE UM BEIRADEIRO
Faz muito tempo que as implicâncias
me azucrinam. Vivo implicando com alguém, com algo, com contextos. Já impliquei
até com a minha sombra. Sobretudo quando estou tomando vinho de jurubeba, como
agora. Vou citar a última implicância. Favor pegarem leve nas críticas. Afinal,
é o ponto de vista de iletrado matuto. Minhas leituras preferidas, gente, são
as leituras do mundo.
Lembro-me da primeira
implicância postada neste chiqueiro de ouro. Deu-se na construção do Arena das
Dunas, aqui, em Natal. A TV mostrava um monte de autoridades - no gramado da
Arena - olhando ao redor. O perigo de uma lasca de cimento cair no quengo deles
era zero, como diria o outro. Mas todos usavam um capacete na cachola.
Será que é para esconder certas
coisinhas que estão rolando na mente delas? Penso assim, começo a rir da
patética cena e tome implicar com os inocentes capacetes.
Vejam agora a última implicância.
É a respeito de um dos inquéritos do presidente Bolsonaro no STF. Aquele de sua
suposta interferência na Polícia Federal, denunciada por Sérgio Moro. O
presidente, dizem os fofoqueiros de plantão, queria livrar os dele de indigestos
apetites da Federal. Lembram-se disso? Pois.
Intimado a depor, o presidente
bateu o pé e disse que só prestaria depoimento por escrito (já acertara tudo com o Temer). Aí, aos 45 do segundo tempo, Bolsonaro mandou dizer pro Alexandre de Moraes, o dono do inquérito no STF, que toparia prestar depoimento de forma presencial. Mas sabem vocês quem vai colher o depoimento? A própria Polícia Federal, a supostamente interferida. Sabiam disso? Pois. Implico com esse modelo inquisitório, porquanto pressenti-lo sujeito a burburinhos. O povo, pessoal, só quer um pé pra sair falando abobrinhas,Por sorte, o Brasil é
governado por um presidente que respeita as instituições. Sabe que terá diante
de si um agente do Estado. Democrata todo, saberá se comportar como fidedigno
cidadão. Fosse o presidente um desses arengueiros da vida, autoritário, praticante
da corrente de que quem pode mais pode menos, não seria exagero imaginarmos este
diálogo:
Presidente: Eu me
intrometi em você, Polícia Federal? Eu lhe pedi algo fora das quatro linhas da Constituição,
Polícia Federal? Polícia Federal: O que acontece, presidente, é que...
Presidente: Responda sim ou não, taokei? Polícia Federal: Não. Nem se
intrometeu nem pediu, presidente. Imagina.
Nessas alturas, alguém aí
deve estar me tachando de bolsonarista e
tal pelo fato de eu ter usado “suposta interferência e dizem os fofoqueiros de
plantão”. Se pudessem, esses desinformados socariam nas minhas ouças estas
palavras do presidente Bolsonaro naquela reunião ministerial de 2020:
“Não vou esperar foder a
minha família, os amigos. Por que não posso trocar alguém da segurança na ponta
da linha? Vou trocar, sim. Se não puder trocar, troco o chefe dele. Não pode
trocar o chefe dele? Troco o ministro e ponto final. Não estamos aqui pra
brincadeira”.
Ouviu, seu escrevente
tendencioso? Aí chega você e fala de suposta interferência e fofoqueiros de
plantão. É sério que esse homem não é autoritário? Qual é a sua, meu?
E daí, digo eu aos analfabetos
em contextos. O presidente vivia o calor de uma reunião ministerial, meu povo. E,
como do nosso saber, o presidente é terrivelmente sincero quando submetido ao
calor desses momentos. Não viram e ouviram, por acaso, o que o presidente falou
daquele ministro do STF, no calor do 7 de setembro, em São Paulo?
Agora, na Polícia Federal,
portas fechadas, ar-condicionado, água geladinha, ausência total de calor do
momento, o contexto é outro. O risco de o presidente Bolsonaro ser
terrivelmente sincero é zero, como diria o outro (adoro risco zero e o outro, pessoal).
De qualquer forma,
implico com esse modelo de a Polícia Federal imprensar um presidente da
República.
Sabem o que penso?
Acompanhem o raciocínio deste beiradeiro. O presidente, assim como qualquer
cidadão brasileiro, precisa estar amparado pelo Devido Processo Legal para ser
inquirido. E DEVIDO, aqui, como ensina o professor François, é o particípio do
verbo DEVER. Portanto, o Estado DEVE ao
presidente Bolsonaro o Devido Processo Legal para inquiri-lo. Inquiri-lo,
condená-lo ou inocentá-lo. Estão a me acompanhar, como diria o outro?
Pois bem. O guardião das
leis brasileiras é o Supremo Tribunal Federal, certo? O inquiridor de um
presidente da República deveria ser um ministro do STF, certo? Só assim evita-se
a falação do povo, porquanto assegurado ao presidente o Devido Processo Legal. Por
que deveria? Porque o STF pode ser fechado a qualquer momento. E fechado por aquele
que é, hoje, a maior autoridade do Brasil. E quem vislumbrou essa autoridade, justiça
seja feita, não fui eu. Foi a ímpar proficiência de um parlamentar brasileiro.
Então,
abatido pelo contexto ameaçador, o STF, haveremos de convir, comportar-se-á
(como diria o outro) titubeante, para dizer o mínimo, no tête-à-tête com o
presidente. Daí que, na modéstia opinião deste beira de estrada, quem deve
interrogar o presidente da República é a maior autoridade do país, aquela
vislumbrada pelo proficiente parlamentar.
Essa
autoridade, hoje o único ser que assegura o DPL ao presidente, é um cabo da
gloriosa Polícia Militar. E o proficiente parlamentar, o descobridor do feito, é
o deputado Eduardo Bolsonaro. Disse o deputado no mais alto dos sons: “Basta um
cabo e um soldado para fechar o STF”. Falou assim a duas semanas de o Sr. Jair
Bolsonaro ser eleito presidente da República. E o deputado, é bom que se registre,
é filho do Sr. Jair Bolsonaro.
Até
há quem diga que o deputado puxou ao pai. Acho que não. Acho que estamos diante
do raríssimo caso em que o pai puxa ao filho. O que você acha?
É
isso.
Seria
isso, mas, como falei em cabo da PM, lembrei-me de outra implicância em cujo
enredo também existe um cabo. A implicância é com o Google, pessoal. Vou pegar
outra garrafa de Jurubeba. Começa assim.
Meu
primo Bião começou a vender laranja e pitomba na calçada lateral do Banco do
Brasil, no bairro da Ribeira, aqui, em Natal. Não atrapalhava os negócios do BB
em nadica de nada. Mas o gerente do BB, o Guedinho, achou de se ter com o Bião.
Discutiram e brigaram. Guedinho, gente,
é economista, assim como eu. Ele da Escola de Chicago. Eu da Escola de
Extremoz.
Guedinho
sempre foi ligado ao sistema bancário. Como eu trabalhava na Receita Federal, pertinho
do Banco, aqui, acolá, trocávamos ideias econômicas. Em nome da eficiência, Guedinho
defendia uma economia de extremada
privatização. Em nome do bom senso, eu advogava no sentido do meio termo.
E justificava: no seu sistema, Guedinho, a concentração de renda acaba com a
classe média. E nenhum país, exceto os de regimes repressores, terá sossego
político na ausência de pujante classe média, estimulada e cuidada pelos
Governos. É ela quem faz o meio de campo social e ajuda os mais necessitados.
Até porque rico não dá um pão a um doido, Guedinho. Classe média não cria empregos,
Sr. Carneiro, retrucava ele, com um risinho de canto de boca.
Mas
divergíamos educadamente. Isso durou até ele me chamar de parasita. Não saímos
no bofete em razão de minha conhecidíssima frouxura. Mas o Bião saiu no tabefe
com o Guedinho. Acabaram na polícia. Lá, o cabo Dedé lavrou um Termo de Acordo
de Cavalheiros e pôs o ponto final na briga. Ficou acordado que o Bião podia
vender laranja e pitomba na calçada do BB, desde que não emprestasse dinheiro a
ninguém. E que o BB não podia vender laranja nem pitomba.
Aí
o que acontece. Acabo de saber que o Guedinho tem uma empresa no exterior, numa
tal de Ilhas Virgens Britânicas. Fiquei bege, como dizia uma colega de
trabalho. No lugar de botar uma empresa no Brasil, criar emprego aqui, o infeliz
vai botar lá nos cafundós do judas. Que Judas.
Fiquei
doido pra saber o que o Guedinho está vendendo. Bens ou serviços? Vende laranjas
e pitombas? Vende lavagem de ternos e terninhos? Ninguém soube responder.
Perguntei ao Google. Não dizem que ele sabe de tudo? Faz uma semana que
pergunto e nada de resposta. O Google sai pela tangente. Diz que o Guedinho tem
vários negócios no estrangeiro e tal e fica me enrolando.
Por
isso comecei a implicar com o sacana do Google. Sacana, já que, pelo visto, é
cúmplice do Guedinho.
Será
que você pode me informar o que a empresa do Guedinho vende? Não? Acho que vou
implicar com você, viu?
Oi, pessoal. Preciso editar uma coisinha aqui.
Seguinte. 30 minutos depois da postagem, o blogue acolheu um comentário pra lá
de sacana de um anônimo. Ou anônima, já que a mente pervertida não quis se
identificar. Escreveu ele. Ou ela: “Olha, TC, não conheço os negócios do
Guedinho em outros cafundós. Mas conheço os das Ilhas Virgens. De certa forma,
os negócios dele lá tem relação com os cachos de pitomba e as laranjas
descascadas que seu primo Bião vendia. Guedinho, TC, vende bens e serviços. Ele
abriu nas Ilhas virgens uma rede de beréu, casa de drink, cabaré. Casas de
recurso, enfim. Vende camisinhas e os serviços vinculados ao bem. Ah, a PF –
Paraiso Fisgar, o nome da empresa – vai de vento em popa, TC. Homem de visão, o
Guedinho, não?
Natal,
10 do 21,
TC
TIM-TIM,
professoras e professores.

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