sexta-feira, 4 de março de 2022

RETRATOS DE AMANTES

 




Sou fissurado em barzinhos, confesso. É raro eu sair deles sem uma boa história no quengo. Neles, algo cósmico cozinha a nossa mente e logo nos serve a solução para as mazelas da vida.

Repito o discurso com o qual deixo cambaleantes os incrédulos abstêmicos. Barzinho - ou boteco - é terapêutico, já que mestre em eliminar angústias. É produtivo, posto criar soluções. É humorístico, porquanto prover descontração. É democrático, visto acolher qualquer assunto. É extrovertido, haja vista destravar línguas. É abastado, pois costuma tornar o cliente endinheirado. E também é o que você está pensando: catalizador contumaz de carnes carnais.

Então, terça-feira do carnaval-22, vou ao boteco do Assis – na esquina do quarteirão de minha casa -, acomodo-me numa mesinha de calçada e peço uma gela. Minutos depois chegam quatro senhores e sentam-se a uma mesa a três metros da minha. Pedem cerveja e churrasquinhos. Não eram nem moços nem velhos. Adolescentes da velhice, ou rapazes usados, digamos assim. Não eram bonitos nem feios. Apenas apresentáveis, se é que me entendem. Mas traziam aquela distinção não desprezada pelos veteranos da alegria. Aquele indescritível quê, que, alegre, sagaz e irônico, diz claramente: já vivemos muito e ainda procuramos o que poderíamos amar e estimar.

Cumprimentamo-nos apenas de cabeça. Amizades de botecos sempre começam timidamente. Mas tapinhas nas costas e abraços são comuns nas despedidas. Esse é o protocolo dos biriteiros oficiais.

Foquei os olhos numa morena-jambo, olhos azuis, que caminhava na direção da mesa vizinha à dos pré-idosos. Vinha da parte interna do bar e bebericava uma bebida vermelha. Andava e dava carona a certas imaginações e a olhares deleitosos. E delituosos. Culpa do seu excesso de beleza. Falava ao celular, gesticulava e olhava na extensão da rua. Sentou-se e se pôs a mexer no aparelho.

Bom, os senhores falaram por alguns instantes da política brasileira, tiraram fino na pandemia covid, passaram de raspão na guerra Rússia/Ucrânia e iniciaram um papo sobre a gastronomia francesa.

Não dou dois minutos para o assunto ser mulher, penso. Acerto na mosca. Um deles