INGRATIDÃO
É, D. Totinha, tudo chega ao fim. Estas mal traçadas linhas significam
a melancólica rescisão da mais bela amizade de minha existência. Mas não se
sinta culpada, Totinha. A culpa é da crônica matutice deste caipira. Os
recheios da modernidade, Totinha, não serão capazes de diluir-me o brejo da
naturalidade, de afastar-me das raízes da autenticidade, de fazer-me fugir do
paul da simplicidade. Para você, contudo, são nos fermentos das novidades que
uma relação sobrevive. Fazer o quê? Pontos de vistas distintos não devem
condenar ninguém, não é certo?
Tem culpa você se minha
teimosia em mudar-me fê-la abusar de mim? Dez mil vezes não, Totinha. Agora
veja bem. Sentir-se enfarosa é uma coisa. É um direito seu. Ser desrespeitosa é
outra coisa. É um defeito seu. Se não lhe dou mais prazer, por que então
continuar a me acolher, a procurar-me no balcão dos velhos sentimentos? “O que
não traz prazer não dá proveito”, dizia o dramaturgo inglês, o nosso amigo
Shakes. Você pegou carona no aforismo do mestre e vem me tascando indiferença.
Estou me sentindo o mais desprezível dos seres inanimados, Totinha.
Veja como se comportou hoje,
na boquinha da noite. Estávamos sozinhos em casa. Você, lindíssima,
destoalhada, pingando lascivos mormaços,