O BICHO HOMEM
Alguns leitores começam a me espinafrar. Dizem que
sempre contextualizo meus textos com barzinhos. Normalmente, essa reclamação
bafeja depois da quinta cerveja. Dou-lhes razão. Barzinho é um gradeado de boas
histórias. Abstêmio de imaginação ficcional, não posso deixar de bebê-las
nesses recintos.
Barzinho e
jogo do bicho, pessoal, constituem as melhores faculdades de ciências humanas.
Tive o privilégio de tê-las cursado. A primeira ainda estou cursando,
evidentemente. Houve tempos em que estudava nas duas, pois vendia jogo de bicho
num barzinho. Hoje o jogo está meio avacalhado (vaca?), mas naqueles dias a
atividade era extremamente lúdica.
Ou não é
divertido jogar um palito de fósforo aceso numa xícara de café e observar o
bicho formado? Quer algo mais prazeroso que vincular um sonho a determinado
bicho? E o que dizer de ajudar o jogador a montar a estratégia matemática a fim
de adivinhar o número da sorte? Fui especialista nisso. Estudante de Economia,
cansei de abandonar Samuelson ou Chapiro a fim de decifrar um sonho ou dizer
que o prego de carneiro é porco.
Pois não é que
abriu um barzinho defronte de minha casa?
E, vejam só, com uma banquinha de
jogo do bicho? Quero ver às seis horas e quatro minutos das sextas-feiras eu
não está lá curtindo a jogatina noturna. Sento-me vizinho a Seu Antônio, o
cambista, peço uma gela e pegue a ouvir resenha. De candidatos a bêbados e de
aspirantes à sorte. Também sou resenhista, é lógico.
Não sabia para
onde me virar na última sexta-feira. Num lado, PEC, Feliciano, Daniela. Noutro,
tabela de jogos, cambista sangue ruim, milhar invertido. Milhar, gente, não
mulher. Por favor!
Sete horas,
encerrado o jogo, volto-me definitivamente para os vizinhos de mesa: um, óculos
de aros, cabeludo - o cara, é evidente -, sugeria-me o intelectual do grupo.
Outro, agalegado, mostrava-se relativamente sóbrio. O terceiro, um negrão
barbudo, parecia-me o mais exaltado. Falavam alto. O intelectual se posicionava
acerca de certo assunto:
- Não entro
nessa discussão. É uma questão de foro íntimo. Quem tem o que é seu dá a quem
quer, quando quer e como quer.
“Seu, dela, né
amigo?”, rebateu o agalegado. Mas concordo com você. É uma questão pessoal, por
isso respeito. Só não me peçam aplausos, pois mulher se agarrando com outra é feio
pra caramba.
O negrão quis
se pronunciar, mas os óculos de aro não deixou:
- Isso é
preconceito enrustido. Concorda, porém discorda. Qual é, meu!
- Preconceito
uma porra, cara. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, entendeu?
Acontece...
O Galego não
terminou a frase. O Negrão barbudo levantou-se, brabo feito um siri na lata. O
bicho parecia um armário. O bicho vai pegar, pensei:
- Posso falar,
posso falar! Pra mim, isso é frescura. Vocês estão falando bobagens. Mulher
ficou pra homem, e homem ficou pra mulher. Sou pai dum casal. Agora, digo um
negócio a vocês. Se um dia eu souber que eles estão mudando de lado, vão sair
de casa na base do chicote.
Nessas
alturas, a atenção da galera estava grudada no barbudão. Alguém aplaudia,
alguns apupavam. O de óculos também se levantou, abriu a boca, mas esperou o
barbudo atender o celular. Vaias e ovações também cessaram:
“Oi”, disse o
cavernoso, voz estranhamente suave. “Não, não. Estou em D. Lucinha. Aqui? Já
estou de saída. Espere...”
O lado de lá,
igualmente parrudo e alto, estava pertinho do bar, pois o “espere” do lado de
cá foi infrutífero. O Tarzan nem pediu licença. Ainda de celular na mão, pegou
o copo do companheiro de chicote, deu uma golada, sapecou-lhe suculento beijo
na face, acomodou-se ao lado, acariciou a barba do colega, e...
“Mas olha só!
Beleza! Pois diga! É isso aí! Caramba! Minha nossa! É o fim do mundo! Valeu!”
As exclamações
foram abafadas pelo risadeira da clientela, visto Raimundo de Zeca, melado
todo, ter decifrado assim o amoroso gesto dos dois amigos:
- O bicho de
amanhã é viado, gente!
Até mais ver,
Tião
Um comentário:
Livre arbítrio, democracia, liberdade de expressão, liberdade de opoção, bicho homem, homem bicha e vice-versa, mulher idem, tudo muito natural, mas não consigo entender, ainda, porque o ser humano vira bicho,isso me causa e
espanto e medo! Mas... é dele!!!Sds. Zé Alves
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