INGRATIDÃO
É, D. Totinha, tudo chega ao fim. Estas mal traçadas linhas significam
a melancólica rescisão da mais bela amizade de minha existência. Mas não se
sinta culpada, Totinha. A culpa é da crônica matutice deste caipira. Os
recheios da modernidade, Totinha, não serão capazes de diluir-me o brejo da
naturalidade, de afastar-me das raízes da autenticidade, de fazer-me fugir do
paul da simplicidade. Para você, contudo, são nos fermentos das novidades que
uma relação sobrevive. Fazer o quê? Pontos de vistas distintos não devem
condenar ninguém, não é certo?
Tem culpa você se minha
teimosia em mudar-me fê-la abusar de mim? Dez mil vezes não, Totinha. Agora
veja bem. Sentir-se enfarosa é uma coisa. É um direito seu. Ser desrespeitosa é
outra coisa. É um defeito seu. Se não lhe dou mais prazer, por que então
continuar a me acolher, a procurar-me no balcão dos velhos sentimentos? “O que
não traz prazer não dá proveito”, dizia o dramaturgo inglês, o nosso amigo
Shakes. Você pegou carona no aforismo do mestre e vem me tascando indiferença.
Estou me sentindo o mais desprezível dos seres inanimados, Totinha.
Veja como se comportou hoje,
na boquinha da noite. Estávamos sozinhos em casa. Você, lindíssima,
destoalhada, pingando lascivos mormaços,
saía do banheiro. Usava volúpia em
cima, no meio trajava luxúria, embaixo vestia sensualidade. Pena que o líquido
a tenha despido das boas maneiras, porquanto fez de conta que não me viu. Por
onde andam aquelas mãos que me acariciavam? Quedê aquela mulher que me comia
com o olhar. Onde está a ganjenta que me escondia das colegas? Que é feito dos
lábios inquietos, da boca ansiosa, dos dentes perfeitos, da língua afiada. Cadê
a mordidinha básica e o “hum!” de satisfação?
Sumiu tudo, não foi? Você
abandonou-me na mesa, deixou-me na esperança de ao menos um olhar de desprezo e
pôs-se a andar dum lado pro outro, celular nas ouças, a falar pelos cotovelos.
Um olhar de desprezo é dez mil vezes melhor do que ser desprezado por esse
olhar. Seu gesto de não gesto foi extremamente desumano. Sua adúltera
indiferença converteu-se no mais desprezível dos sentimentos: a ingratidão,
Totinha.
Não me entenda mal, mulher.
Longe de mim pechinchar gratidão, esmolar carinho, mendigar amor. Isso é o
cúmulo da estupidez. Agora, respeito é bom e eu gosto, Totinha.
Bem, telefone ao ouvido,
você falava com uma amiga:
“E é, Daniela? Acabei de
sair do banho. Vou me arrumar e correr praí. Tá, tá, entendi. Pois diga! Não é
isso! A mulherada adivinha essas coisas, sente o cheiro. Francesa e alemã?
Nossa! Terceiro piso do Miduei, não é?”
O terceiro piso do Miduei me
doeu. Foi um pisão na alma, Totinha.
Compreendo certas atitudes,
conquanto com um pé atrás. Cada pessoa, Totinha, deve agir como bem lhe
aprouver. Mas sua gulodice internacional foi acintosa. Então você fora incapaz
de me dar bucólica lambiscada, mas alimentava o sonho de debicar francesinhas e
alemãs.
Que ridículo. Ninguém
merece!
Bom, você vestiu-se rápido e
saiu. Esqueceu-se até de desligar a tevê. Fiquei pensando no canto de
carroceria que acabara de levar: Totinha me enjoou, enojou-se, enfastiou-se.
Não me acha mais gostoso. Não quer me comer mais.
Nisso, a tevê entra ao vivo
do chópin. Vejo você lá, Totinha, rodeada de mulheres, um homem de branco a
servi-las as tais tortas francesas e alemãs.
Tem gosto pra tudo, pensei.
Como é que uma criatura deixa de comer um bolo de batata, verdadeiro,
naturalíssimo, pra comer um melado seboso desses, meu Deus do céu? Saiba você,
minha nobre, que, no mais das vezes, o tanto de quanto e o quanto de tanto com
que é feito seu ilusório eretismo provêm das mais autênticas milacrias de
falsidade.
Daí, Totinha, eu estar terminando com você. Vou para outras bocas. Não contarei a ninguém que sou um
bolo traído. “Feito de fidelidade”, explicarei aos meus provadores; “assado na
gratidão”, falarei a todos.
Ah, quer saber? “De simples
aniversário”, direi a quem me mastigar.
Foi bom enquanto durou,
Totinha. Até o dia do juízo final. Nem me procure que não vai rolar.
Fui!
Solanum Tuberosum da Sirva
Tubérculo
Adoro bolo de batata, gente.
Sinta-se homenageado, amigo velho.
Tião Carneiro
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