TC,
primo velho do meu coração, espero que ao receber estas mal tecladas linhas
esteja a gozar da mais perfeita saúde. Por aqui, vou indo como Deus quer e
consente. Tô de porre desde 30 de agosto,
primo. Desgosto grande.
A Eduarda, primo. A duas
caras ia pros jogos do ABC comigo, sempre de boa e de beijos, mas não segurou a
euforia quando o ABC caiu pra série D. Flagrei a Eduarda gravando pra alguém um
“Chupa ABC, viva o América”. Dei-lhe as contas na hora. Não dá pra dormir com
uma traíra de valores. Mas não deixarei de frequentar a lanchonete onde ela trabalha.
O hamburger da Eduarda é incomparável, cara.
Acontece que agosto
passou o desgosto para setembro. Voltei até a fumar cachimbo e a mascar fumo. Tudo
pra ver se passava a vergonha de ter visto aquela bandeirona dos Estados Unidos
na Av. Paulista. Logo no dia da nossa independência. Porraé, primo. Pior é que vi
pessoas dizendo na TV que estavam lutando pela liberdade, direito, democracia,
essas coisas, já que os brasileiros viviam numa ditadura. Um repórter perguntou
a certo dirigente partidário se o público estava correspondendo à expectativa do
partido. O Yes do entrevistado e o thanks do entrevistador embrulharam-me o
estômago. Corri pro banheiro, primo velho.
Ditadura, primo. Ditadura
em que milhares de indivíduos vão pra rua enrolados com a bandeira de outro
país e fazem gato-sapato das autoridades do seu? Fiquei com a impressão de que aquele povo implorava
por uma ditadura de verdade para combater uma ditadura de mentira. Minha inquietação
só foi embora com a chegada de um amigo das antigas, o JC. O JC me pegou dando
uma cusparada de fumo. Não disse uma nem duas. Só fez sorrir.
Falei pra ele da vergonha
por causa da bandeirona paulista e perguntei o que tinha achado daquilo:
- Ah, Bião. Coisas da
liberdade. Já te falei dessas coisas. Esqueceste? Vou te explicar de novo.
Deixe-me explicar umas coisinhas sobre o JC, primo velho. O JC ama vinho de pinha