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DE JOGO E ANIVERSÁRIO
De
rombo - 30! De número – 4! De rombo – 70!
É a boa!
Batesse,
vovô? Ganhasse o quê?
Quem
chama as pedras é a avó Tânia. Quem faz as perguntas é a neta, Beatriz. Influenciada,
por certo, pela algazarra dos parabéns pra você devido a chamada da última
pedra.
Trinta
e dois meses de mundo, e a menina mais bela do planeta já sabe o que é ganhar.
Compartilha a exaltação da vitória, pois já entende que viver é jogar. Percebe
que tudo na vida é jogo ou tem noção de jogo. No mais das vezes divertido. Mas,
não raro, dolorido. Beatriz, aliás, assim como nós, é uma campeã. Não começamos
a caminhada nocauteando os concorrentes ao
fazer da barriga da mãe um ringue? Pois! Erguemos os punhos quando, no primeiro
solzão, recebemos do Criador a dádiva do dom divino do dia a dia.
Ganhei
o quê? Vivo ganhando, Beatriz. Sou milionário. Meu patrimônio é afeto. Tenho
três famílias: a nuclear, a consanguínea, a anexada. Partes dessas famílias você
está vendo pelas janelas da modernidade. Bote o dedo no bolo e lhes ofereça uma
lambida virtual. Isso. Acabou de jogar uma pedra de afeição, Beatriz.
Beijos
virtuais, abraços remotos, palmas eletrônicas. E é assim sabe por quê? Em razão
do jogo sujo de um de assassino da pior espécie: um coroa de nome Corona. O
engenheiro do Apocalipse inventou funesto jogo de nome pega-pega-pandemia e
saiu pelo mundo a jogar dor e morte. O tirano fica se escondendo em todos os lugares pensando em nos dar o bote,
Beatriz. O covarde começou nos impingindo apreensão, em seguida angústia e por
fim medo. Há sempre ansiedade, insônia, censuras e disfarces entre os involuntários
jogadores. O escatológico ataca a mente antes de entrar no físico. Não é fácil.
Perguntas nos perseguem. É difícil agasalhar ponderação e perturbação na mente?
Mas quem disse que é fácil viver sob virulências?
Por
causa da covardia do execrável é que nos escondemos em casa a fim de fugir dele.
Quem pode ficar, né, Beatriz? Entendeu a razão de estar vendo esse povo feio
por essas janelinhas?
Pode
enfiar o dedinho no bolo, Beatriz. Não sou o JB, mas quem manda aqui sou eu. Em
resumo, minha nobre, o coisa-ruim fica jogando fichas de distração na nossa
prevenção. Agora, Beatriz, tenho que admitir. Muito a contragosto, é certo, mas
tenho que admitir. O virulento é bom de estratégia, viu? Jogou como ninguém o
ICC. ICC, Beatriz, são as iniciais das três palavras de cujos significados os
humanos vivem. Tudo no mundo, absolutamente tudo, tudo absolutamente, aqui, ali
e alhures, passa pela combinação do conceito delas três. Que carinha é essa? Acha
que estou exagerando, é? Quando estiver mais taluda eu explico. Minha frustração
é que o verdugo encaminhou os conceitos na direção da morte. Mas gostei dessa
carinha de cética, Beatriz. Carinha de jogadora, historiadora, escritora.
Falar
em escritora e verdugo, lembrei-me do amigo Ernest, renomado escritor
norte-americano. Dizia-me ele, coçando o cabelo:
Entenda,
Carneiro, nunca me pergunte por quem os sinos dobram. Eles dobram por nós. Porque,
quando morre um homem, Carneiro, morremos todos, pois somos parte da
humanidade. Então...
Estou
aborrecendo você, Beatriz?
Tá,
vovô.
Misericórdia,
Beatriz. Bote o dedo no bolo de novo.
Bom,
deixe-me falar só mais uma coisinha, já que uma coisa puxa outra. Isso aqui pra
nós, Beatriz, mas dizem, dizem, né, que o coroa do Corona, o engenheiro do mal,
está em Brasília. Vive jogando lero-lero com o presidente. Dizem que o malvado é
unha e carne com o presidente, Beatriz. Ficam trocando cafunés. Acredita,
Beatriz? Dizem, né, que os dois são gerentes da esquelética e desdentada dama
da foice. Dizem que a função do papa-figo de véio é amolar a foice e a do presidente é a ele indicar quem deve ser degolado. Dizem, né, Beatriz. Mas, isso aqui pra nós de
novo, estou propenso a acreditar na coisa. Veja a lógica.
O
presidente é fã de discórdias, é ruim de jogo bom. É intolerante, insensível,
indiferente... É arengueiro, enfezado, entediado... Na Saúde, em plena
pandemia, fala e age diferente do que o povo e especialistas dizem que é o certo.
O homem não esboça nem sequer um pingo de liderança, de empatia. Diz que tudo
não passa de uma gripezinha. Aí, anteontem, uma repórter achou de falar pra ele
que o Brasil acabava de ultrapassar a China em número de mortes. Sabe o que
presidente respondeu, Beatriz? Você não vai acreditar. Segure-se na sela, minha
amiga:
E
daí? Sou coveiro, por acaso? E ainda pensou: "Vida que cessa".
Tás
vendo, Beatriz? Sei não, viu? Pior, Beatriz, ele jogou pra Saúde um rapaz que
tem uma cara de alma penada que chega a dar dó. Parece um crupiê de...
Ei,
criatura, já vai? Quer mais furar o bolo, não?
Kelo
não. Não kelo, não kelo, vovô. Tu fala demais, vovô.
É
o quê? Tá certo, tá certo. Mas daqui a anos você vai chamar o bingo, OK? Vai chamar
assim, ó:
De
rombo – 80!
30
de abril de 2020,
Tião
Carneiro (TC)