domingo, 11 de abril de 2021

FORA-SE

 


FORA-SE

 

Recebo constantes queixas sobre minhas prosas longas. Notadamente da Sylvia. A prolixidade derruba o que hipoteticamente viria de bom em seus escritos, diz ela. Digo a você, se é que joga no time dela, o que costumo a ela responder: Respeito a opinião do leitor, quero ser lido – e elogiado, se for o caso –, mas não sou capataz de leitor algum. Tema, para alguns cavilosos, e extensão, longa para muitos, dependem exclusivamente de minhas telhas. De mais a mais, nestes tempos bicudos, não serei eu quem vai deixar a prolixidade e sua prole desempregadas.

Não obstante esse parágrafo (sou fã do obstante), vou postar quatro minicontos. Castigo para a Sylvia (com Y, gente, porque a Sylvia é colombiana) e para você. Se é que é parceira dela, repito. Ocorre que para cada miniconto, eu deveria usar uma média de duas páginas do word. Aqui usei, em média, sessenta palavras para cada um. Isso porque no miniconto há permanente briga entre concisão e precisão. O autor precisa ser cirúrgico nesse aspecto a fim de expor o conteúdo imaginado. Castigo, já que para entender a mensagem, o leitor necessita ser bom de entrelinhas, saber ler o não escrito. Ser expert em subtextos, enfim.

Complicadíssimo para o autor é se o miniconto contiver um quezinho de humor. Aqui o bicho pega, porquanto qualquer vacilo transformar o miniconto em simples piada. Na verdade, o miniconto passa de raspão no ridículo e tira fino na presunção. Não obstante (de novo) tudo isso, leia os cavilosos. Podem sentar a ripa em mim nos comentários, tá legal?

 

No jogo

Quando as cabeças não pensam... Erro coletivo. O Senhor anteviu tudo daqui da cabine, não? – Sim, sim. O nº 1 de vocês é sem tino da posição e virulento. Merecia ser expulso. Agora desça e vire o jogo. – Sozinho? - Sim, filho. Mas conte comigo. Entrei na causa. Desça! Desça!

As lágrimas do narrador descia. Torcia por aquele time. Daria seus pulinhos:

 

No café

Fosse você não ia tomar esse troço não. Vai que vira bicho do mato. “E você nem se toca. Olhe sua cara no espelho e verá que essa mania de ser do contra já fez de você bicho do mato daqueles de dois... - Quê? Como é que é? “Esse cabelo compridão e a barba branca deixam você, meu marido, escritozinho um leão: imponente e feroz.  Vai negar isso também”?

Ele deu de ombros. Ela deu-se um ufa!

Na fila

A menina brincava de levantar o vestido da mãe. - Para, filha. Tem graça não. “Deixe a garota brincar, mãe desnaturada”, comentou o vizinho de trás. A insolência fez a mãe se distrair e soltar as mãos do vestido. Pra que! “E precisa usar direitinho a máscara. O nariz tá aparecendo” reforçou o vizinho. - E a sua tá caidona. Precisa dum cabo de aço pra ficar nas orelhas.

 

Na ora H

Sentiu desconforto com a picada, moça? “Pelo contrário, moço. Só não senti o líquido escorrer. Você pode repetir”? Daqui a duas semanas. Me procure. Cuide-se. “Eita!”, comentou o vizinho de trás.

 

No boteco

Abril de 2023, eu, Marthinha, Sylvia, François, Beatriz, comemorávamos a vitória de nosso time e meu aniversário. Mas ainda respeitávamos o distanciamento. Taça de vinho nas mãos. Tínhamos elegido François para fazer a loa. François levanta-se. Mas a saudação não veio dele. Chega um senhor de suspensório, barbona branca, uma taça de vinho na mão. Conheci de cara. Era o narrador do jogo. Falou antes do tim-tim:

A PAZ ESTEJA CONVOSCO

É isso, gente. Mas não duvido nada se a Sylvia ainda encontrar prolixidade nos minicontos. Ela é cricri. Pra prevenir, contudo, vou escrever mais um miniconto. Não dirigido a ela, obviamente.

FORA-SE

Mês 04 de 2021,

TC

Té mais ver. Cuide-se

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


sábado, 3 de abril de 2021

ISSO AQUI PRA NÓS

 



ISSO AQUI PRA NÓS

 

Chega de esconder sentimentos.

Não quero que me leia mais.

Estaria mentindo se dissesse que
Vejo você como suprassumo da compreensão ficcional.
Tenha certeza de que

Nada, nem mesmo o meu tijolão, o “Por uma Taça de Vinho”, foi em vão.
Percebo muito bem, bem mesmo, que, que, que...

Que é pixititinha a sua paciência com livros.
Você não é perspicaz em leitura e

Jamais eu poderia afirmar que
Nutro por você uma grande admiração literária.
Sinto cada vez mais que
Vou cancelar você das minhas redes sociais.
E nunca jamais usarei a seguinte frase:
Você é dez em alfabetização mental.
Preciso lhe dizer a verdade.

Chega de esconder sentimentos.

                        FIM

Calma, vizinha. Calma, gente. Muita calma nesta hora. Leia de baixo pra cima (Chega de esconder sentimentos..). Ah, bom!

 

COMPROVAÇÃO


 

Comprove ser realmente de baixo pra cima o seu perfil. Faço o convite para ler a prosa até o fim. Comprove não ser realmente pixititinha a sua paciência com a leitura. Tenho uma surpresa guardadinha lá. Combinado?

O mérito dessa criação, gente, não é meu. O poema rola há tempos na internet. Chama-se “Não te amo mais”. É de autor desconhecido. Mas há quem alegue ter saído da imaginação de Clarice Lispector. Fiz tão somente jogar na moldura dele uma propagandazinha de meu recente romance, “Por uma Taça de Vinho”. Mas a propaganda não veio do nada. Acompanhe o processo.

De cara, é bom falar de certa maldição alojada na mente de escrevinhadores desmiolados: o apego de personagens. Muitos personagens passam um tempão azucrinando o seu infeliz criador. No meu caso é a Sylvia, protagonista da “Taça de Vinho”. Ela não larga de meu pé nem a pau. Sylvia é colombiana. Tem 26 anos. É a principal executiva do Vobel, empreendimento do brasileiro Antônio. E namorada dele. Sylvia é a perspicácia em pessoa.

No sábado, 27 do 3, a Sylvia foi implacável com este pobre coitado. Deu-se assim.

Vou me vacinar contra a tirana no drive do Palácio dos Esportes (velhinho gagá é você, cara). Duas e meia da tarde