FORA-SE
Recebo constantes queixas sobre minhas prosas
longas. Notadamente da Sylvia. A prolixidade derruba o que hipoteticamente viria
de bom em seus escritos, diz ela. Digo a você, se é que joga no time dela, o
que costumo a ela responder: Respeito a opinião do leitor, quero ser lido – e elogiado,
se for o caso –, mas não sou capataz de leitor algum. Tema, para alguns
cavilosos, e extensão, longa para muitos, dependem exclusivamente de minhas
telhas. De mais a mais, nestes tempos bicudos, não serei eu quem vai deixar a prolixidade
e sua prole desempregadas.
Não obstante esse parágrafo (sou fã do obstante),
vou postar quatro minicontos. Castigo para a Sylvia (com Y, gente, porque a
Sylvia é colombiana) e para você. Se é que é parceira dela, repito. Ocorre que para
cada miniconto, eu deveria usar uma média de duas páginas do word. Aqui usei,
em média, sessenta palavras para cada um. Isso porque no miniconto há
permanente briga entre concisão e precisão. O autor precisa ser cirúrgico nesse
aspecto a fim de expor o conteúdo imaginado. Castigo, já que para entender a
mensagem, o leitor necessita ser bom de entrelinhas, saber ler o não escrito. Ser
expert em subtextos, enfim.
Complicadíssimo para o autor é se o miniconto
contiver um quezinho de humor. Aqui o bicho pega, porquanto qualquer vacilo
transformar o miniconto em simples piada. Na verdade, o miniconto passa de
raspão no ridículo e tira fino na presunção. Não obstante (de novo) tudo isso, leia
os cavilosos. Podem sentar a ripa em mim nos comentários, tá legal?
No jogo
Quando as
cabeças não pensam... Erro coletivo. O Senhor anteviu tudo daqui da cabine,
não? – Sim, sim. O nº 1 de vocês é sem tino da posição e virulento. Merecia ser
expulso. Agora desça e vire o jogo. – Sozinho? - Sim, filho. Mas conte comigo.
Entrei na causa. Desça! Desça!
As
lágrimas do narrador descia. Torcia por aquele time. Daria seus pulinhos:
No café
Fosse você não ia tomar esse
troço não. Vai que vira bicho do mato. “E você nem se toca. Olhe sua cara no
espelho e verá que essa mania de ser do contra já fez de você bicho do mato daqueles
de dois... - Quê? Como é que é? “Esse cabelo compridão e a barba branca deixam
você, meu marido, escritozinho um leão: imponente e feroz. Vai negar isso também”?
Ele deu de ombros. Ela deu-se um
ufa!
Na fila
A menina
brincava de levantar o vestido da mãe. - Para, filha. Tem graça não. “Deixe a
garota brincar, mãe desnaturada”, comentou o vizinho de trás. A insolência fez
a mãe se distrair e soltar as mãos do vestido. Pra que! “E precisa usar
direitinho a máscara. O nariz tá aparecendo” reforçou o vizinho. - E a sua tá
caidona. Precisa dum cabo de aço pra ficar nas orelhas.
Na ora H
Sentiu
desconforto com a picada, moça? “Pelo contrário, moço. Só não senti o líquido
escorrer. Você pode repetir”? Daqui a duas semanas. Me procure. Cuide-se. “Eita!”,
comentou o vizinho de trás.
No boteco
Abril de
2023, eu, Marthinha, Sylvia, François, Beatriz, comemorávamos a vitória de
nosso time e meu aniversário. Mas ainda respeitávamos o distanciamento. Taça de
vinho nas mãos. Tínhamos elegido François para fazer a loa. François
levanta-se. Mas a saudação não veio dele. Chega um senhor de suspensório,
barbona branca, uma taça de vinho na mão. Conheci de cara. Era o narrador do
jogo. Falou antes do tim-tim:
A PAZ
ESTEJA CONVOSCO
É isso,
gente. Mas não duvido nada se a Sylvia ainda encontrar prolixidade nos
minicontos. Ela é cricri. Pra prevenir, contudo, vou escrever mais um miniconto.
Não dirigido a ela, obviamente.
FORA-SE
Mês 04 de 2021,
TC
Té mais
ver. Cuide-se

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