domingo, 2 de maio de 2021

A EXPERIÊNCIA DE JMB

 



A EXPERIÊNCIA DE JMB

 

Ainda bem que eram aparas de grama. Algo mais sólido teria machucado o pé e adeus o torneio de futsal no 1º de maio.

Belo trabalho esse seu. Imbecil., idiota. Se enxergue, menino enxerido. Folgado, você, né? Nunca viu mulher não, moleque?

Desculpe, dona anta. É que...

O humilhado travou a explicação, já que a deseducada não o ouvia. Calçada de arrogância, saiu pisando a urbanidade, como se o gesto de encantamento do moleque tivesse lhe esporado a soberba.

Que anta é uma, avaliava o moleque, despejando as sobras do jardim numa caçamba de entulhos e dirigindo-se para a Sede dos Campeões. Imbecil! Imbecil é ela. Se a sacola tivesse caído em seus pés, até dava pra entender. Mas a grama nem respingou na dengosa. Foi meu olhar bater nela e a sacola cair junto com o queixo. Tenho culpa de ela ser gostosa, por acaso? Cada uma. Mulher ignorante da bexiga. Quem será? Conheço todo o mundo daqui e... Ah, deve ser ela. É isso. É a tal da JMB, a filha dos donos da fazenda.

“Linda e gostosa, mas cu-doce. Vive de nariz empinado”, costumam dizer meus colegas.

“Rica, famosa e cheia de frescura. Insuportável. Ingrata. Passa um tempão sem visitar os pais. Não sei por que vocês vivem arriando as asas pra essa coroa. Mais com esse apelido, JMB... Sei não, viu? Nunca veio aqui com namorado”. Essa é a fofoca preferida das meninas.

O moleque Bião - moleque de dezoito anos - chega à Sede dos Campeões pensando na grosseria da coroa - coroa de trinta anos. A Sede dos Campeões abriga tudo. Menos troféus disputados na região. Mas há que se reconhecer o esforço da rapaziada do futsal. E a garra das meninas do vôlei.

Enquanto cortava as frutas do pós-treino, Bião bolava uma brincadeira para escrever na lousa de aviso da Sede. Escreveu: “CUIDADO! HÁ UMA ANTA DE SAIA PASTANDO POR AQUI”. Riu, escreveu algo numa folha de papel e saiu. Daria um jeito de se encontrar com a anta. Diria umas verdades e lhe entregaria o papel. Estava se lixando para o emprego. Jardim na região é que não lhe faltaria para cuidar.

Bião saiu e logo avistou a formosura caminhando na área das piscinas. Bião contornou a quadra de basquete e ficou frente a frente com ela:

Sabe, dona, a senhora mandou eu me enxergar

e me chamou de imbecil. Imbecil é a senhora. A senhora tem um jeitão de formosa e decente, mas é só uma famosa carente. Mas não se preocupe. Esse papo fica entre nós. Agora tome esse papel e pregue nos peitos.

Bião entregou o papel e saiu. E se controlou para não responder com o dedão estirado ao grito de “Como se chama, moleque”?

“SOU A MELINDRA. NÃO ME TOQUES. NEM COM O OLHAR”, esse era o escrito do Bião.

Que moleque insolente. Ainda me chamou de anta. Agora estrategista ele é. “Esse papo fica entre nós”. Quer dizer que se eu não espalhar o desaforo dele, a minha arrogância igualmente não se espalhará. Pra idade, tem as batatas de pernas bem apetitosas. E que danado de olhar foi aquele. Nossa! Deixa pra lá.

A moça deixou o assunto pra lá e, na tarde seguinte, a do sábado, deixou a fazenda, segundo informou uma das empregadas:

Agora vocês sossegam o facho. A insuportável saiu agorinha para o aeroporto. Conhecesse ela, Bi? Ontem à noite ela estava perguntando à mãe como era o nome do jardineiro. Eu, hein!

Bião deu de ombros.

Também de ombros deu a Joelma quando se preparava para dormir. Decidira não mais remoer o “Dona anta e o famosa carente” do jardineiro.

Joelma se deita. Precisa dormir bem, pois na tarde seguinte, a do domingo, viaja para Manchester. Vai ser conferencista num fórum econômico. Para acariciar o sono, liga a TV e escolhe a BBC de Londres. Logo adormece.

Dormiu feito criança. E como criança acordou:

Peguei no sono com a TV ligada na BBC. Tenho certeza disso. Que emissora é essa, então? Que língua estão falando? Ah, é a BBC, realmente. Mas por que não estou entendendo nada? Por que não consigo ler as letrinhas passando na tela?

Joelma fica uns minutinhos de olhos fechados. Torna a olhar pra TV: a mesma coisa. Fica mudando de canal. Alemão, francês, espanhol: a mesmíssima coisa. Esfrega os olhos, dá uma tapinha no rosto e sintoniza a Globonews. Entende o português da repórter, mas não consegue ler as notícias do rodapé.

Joelma enche os olhos de lágrimas e vai se molhar. Banho de ensopar cabelo. Deita-se despida, toda molhada, olhos no teto. Procura uma prece. Não acha. Jamais deu valor a banalidades religiosas. Repete os procedimentos da TV: nada mudou.

Joelma vai à varanda da cobertura. Desconfiada, olha o vai e vem das ruas. Letreiros são garranchos. Joelma se dá conta de que está nua e retorna vestida de desconfiança: enlouquecera?

Joelma choraminga, descabela-se. Pensa em pedir ajuda pelo smartphone. Mas a quem? À mãe, em Ribeirão Marrom? Não convinha. Ia deixá-la ansiosa. Procura uma pessoa íntima. Lembra-se da secretária. Mas como usar o WhatsApp se não sabe escrever? Ainda bem que distingue os números. Puxa pela memória o número da Cláudia. Liga aos prantos.

Cláudia chega em quarenta minutos:

Ah, Claudinha, me ajude. Estou desesperada, amiga. Como lhe falei...

Cláudia é a tranquilidade em pessoa, mas tem hora...

Vou ajudá-la, Joelma, mas preciso lhe falar umas coisinhas.

Escute, Joelma. Sou sua secretária há cinco anos. Aí o que acontece. Conversamos por cerca de cinco minutos pelo celular. E não faz um minuto que estou aqui. Ouvi e vi nesse tempinho o que jamais ouvi e vi nesse tempão. É a primeira vez que me chama de Claudinha e amiga. Também só hoje vejo súplica no seu semblante. Nesses cinco anos, você nunca me deu um abraço. Sequer no meu aniversário. Mas entendo sua deselegância social. Nem vejo oportunismo agora. Você simplesmente acostumou-se a viver assim. Vida é costume, Joelma. Ocorre que esses costumes tangeram de si a cumplicidade de sentimentos. Cumplicidade não é algo ruim. E o é se parida de conluios.

Você, Joelma - reconhecida mundialmente como a mais bem preparada executiva do ramo da mineração -, acostumou-se a ser chamada pelo horroroso JMB em substituição ao sonoro Joelma Montoro Bezerril. Você adora ser abreviada. Vive chapada de profissionalismo. Precisa se desintoxicar com pelo menos um pouquinho de informalidade. Você, Joelma, lindíssima, corpo ensopado de luxúria, acostumou-se a desdenhar dos desejos carnais dos homens. E o das mulheres, obviamente. Falar nisso, está passando da hora de dar esse negocinho, mulher. Não deixe criar casa de aranha, não...

Misericórdia, Claudinha. Fez até eu esquecer a desventura.

Que legal a sua “misericórdia”. Bela pista de humanidade, Joelma. Bom. Antes que diga que estou julgando você e me metendo na sua vida, quero lhe dizer que estou me metendo, sim. E ajo assim porque sou sua amiga, Joelma. Por isso estou lhe tratando por você em vez do protocolar doutora. Ajo assim porquanto entender que está sendo vítima do nefasto costume da arrogância. Mas costumes podem ser alterados, substituídos, mudados. Medo, coragem, paranoia, deslumbramento. Tudo isso é costume, Joelma. Não espero que mude da arrogância para o pior dos defeitos: a fingida humildade. Mas torço para que fique indiferente para a indiferença comportamental.

Caramba, Claudinha, não sabia que é tão sabida.

Como saber, Joelma, se costuma fugir das conversas? Você não se mistura, amiga. Mas sua alma não concorda com você. Sua alma é conversadeira, leve e justa. Já flagrei muitas vezes a sua ânsia de dialogar juntando-se à aura da ternura. Mas logo você as expulsa. Com vergonha, imagino. Você não tem ideia de sua volumosa poupança de ternura. Se conversasse, Joelma, já saberia do que eu soube por intermédio do Dr. Anchieta. Você ameaçou sair da empresa se não dobrassem o meu salário: Cláudia é integra e eficiente, Dr. Anchieta, assim ele me falou o que você tinha lhe falado.

Falar em eficiência, Joelma, suponho que ainda não tomou café. Eu também não. Enquanto prepara o café, vou falar com um médico amigo, Dr. Guilherme, especialista em cabeça.

Passados alguns minutos:

Deixe  que passo os ovos, Joelma. Dr. Guilherme está no aeroporto. Vai pra Paris. Ele quer falar com você.

Mais alguns minutos, no café:

Nossa, Claudinha. O doutor disse que meu caso é único na literatura médica. Ficou de antecipar o retorno e me deu o contato dele. Mas brincou dizendo que tinha uma carta de ABC em casa. Tem cartaz com ele, né, amiga? Chamou você de princesa. Sei não, viu? É gato?

Ah, Joelma. Você nem imagina como fico feliz com essa fofoquinha. É gatão. Estamos saindo, sim. Agora me diz. Quais foram as recomendações dele?

Mais perguntou do que falou. Pediu que eu passasse uns dias na fazenda, que não contasse meu caso a ninguém, que agisse com naturalidade, que praticasse um esporte físico e que... Veja só, Claudinha, o inusitado, e que se a preocupação chegasse forte, eu tomasse uma taça de vinho. Falou e riu o danado.

Ih, já estou ficando enciumada, Joelma. Sabe o que penso, amiga? Isso é um bloqueio besta. Coisa de estresse. Acho que seus neurônios sentimentais, por viverem ociosos, estressaram-se, quiseram dar uma lição em você e pediram a cumplicidade do intelecto. Embora orgulhoso de você, o intelecto aderiu aos planos dos amigos e comentou: vocês têm razão. Já estava apreensivo com o modo de vida dessa moça. Não quero um aparelho sem vida. Essa jovem precisa aprender a viver. Ninguém a vê chorando, rindo, amando. Precisa fazer jus à sistêmica educação que a ela proporcionei. Dei-lhe conhecimento, erudição, inteligência emocional, empatia. Mas ela vive pondo no lixo as duas últimas dádivas. Tô dentro, rapazes. Faremos o seguinte.

E o seguinte, Joelma, é o agora. É o desaprender. É a terrível experiência que começa a vivenciar. Eles puseram um adesivo sobre sua memória de letras, Joelma. Mas podem removê-lo a qualquer momento. Sabe, amiga, existem certas coisinhas que a gente só dá valor quando perde. Como não sabe o que está perdendo, pois nunca perdeu, o analfabeto vive numa boa. Não dá o devido valor à educação. Ele nem sabe que vive no cabresto mental dos letrados. Sobretudo dos sacripantas. Já imaginou se belo dia os analfabetos acordassem “doentes”, alfabetizados? Será que iriam querer se curar?  Certamente que não. Eles estão fartos de fingir, representar, conquanto ajam de maneira automática. Eles fingem para glândulas, vitrines, jornais. Tudo o que você vai começar a fazer, Joelma.

Bom. Agora você vai ligar pra sua mãe e informar que está indo passar uns dias na fazenda. Diz que o evento de Manchester foi cancelado. Daí que achou por bem tirar umas férias e tal. Pode deixar que darei ciência de tudo ao Dr. Anchieta. Apenas ele vai saber de seu drama, Joelma. Você não deve contar nem a sua mãe, OK? Escute. Já encontrei um voo para Ribeirão Marrom. Vou comprar. Dê-me o cartão. Sai às onze e meia. Antes de uma hora da tarde você estará em casa, OK? Vou deixa-la em Congonhas. Arrume uma mala para uns quinze dias, tá?

Vá e faça tudo para esquecer essa coisa. Fale com todo o mundo, ande pela cidade, divirta-se...

Em termos de divertimento, Claudinha, a fazenda é ideal. Meus pais são festeiros. Hoje, por sinal, vai ter um torneio de esporte em comemoração ao Dia do Trabalho.

E assim se deu. Uma hora da tarde, Joelma batia papo com a eufórica e coruja mãe, D. Jacira:

Mãe, vou dar umas piscinadas. Vai comigo?

Vou, minha filha. Vá na frente que vou já. Vou dar algumas orientações ao pessoal da cozinha:

E assim se deu. Ou melhor, não se deu. Joelma paramentou-se de biquíni e canga, ficou por demais cheguei, digamos assim, mas não chegou na piscina.

Joelma fica parando no caminho, uma simpatia só. Primeiro exemplo:

Ih, pelo visto vai rolar um churrasquinho. Tem picanha, não tem? Gosto mostrando o sangue. Me aguardem.

É claro que o pessoal apenas balançou a cabeça. Seria mesmo a tal da JMB?

Último exemplo.

Só de calção, carregando um cacho de coco, camisa nas costas, cabelo na testa, Bião vai chegando à Sede dos Campeões quando Joelma o avista:

Ei, moleque. Quero um coco desses.

Tem gelado aqui dentro. Quer no copo ou no canudo? Entre, D. JMB? Disseram que a senhora tinha ido pra capital...

Fui apenas pegar uns trecos. Mas escute, moleque... posso ficar chamando você de moleque, não posso? E ia adorar se me chamasse de Joelma. Bom, queria pedir desculpa pela sexta-feira. Fui grossa com você, moleque.

Águas passadas, Dona... Ah, Joelma, desculpe. Também quero me desculpar por aquele papel. Também vou adorar se ficar me chamando de moleque.

Então tá. Quero desses do cacho. Nem canudo, nem copo. Vou tomar na boca. Caramba, moleque, a Sede dos Campeões é muito legal. Nunca tinha entrado aqui. Esses quartinhos são o que? E aquela mesona nos fundos?

Bom. Bião sai mostrando tudo à Joelma, que, entre uma bocada e outra no coco, elogia o aconchego da Sede:

Coisa de sua mãe, Joelma. D. Jacira é uma santa. É a mais vibrante torcedora de nossos times.

E é? Parece que a diabinha da família sou eu. Sou santa sem o “s”. Não foi assim que me chamou sexta-feira? Desculpe, moleque. Não resisti. Você joga também?

Jogo. Sou o goleiro do time de futsal.

Não brinca? Deixe-me ver se você tem as mãos de goleiro mesmo.

Nossa. São macias demais pra goleiro, moleque.

Mas agarro bem, Joelma.

Só quero ver.

Aqui, a voz de Joelma já parecia atrapalhada. E saiu fraquinha, fraquinha na pergunta:

Você olha desse jeito pra toda mulher, é, moleque? Nossa!

Perguntou, mas não esperou a resposta. Aliás, passaram longos minutos sem se falar. Pelo menos com sons inteligíveis.

Somente os corpos falavam. Deliravam é melhor. Um delírio divino, uma dança sagrada, desordenada, mas que a incrível ondulação dos corpos desmentia a desordem. Corpos que faziam apenas o que devia ser feito um para o outro. Corpos que queriam ir além da fronteira do êxtase. Corpos que queriam embarcar no plano sutil da experiência mística.

Queriam e conseguiram.

A voz de Joelma saiu trôpega:

Agarra bem mesmo, moleque.

Só neste momento Bião lembrou-se de algo. O sacana aviso na lousa. Mesmo na frente de Joelma. Não tem como não ver. Devia ter apagado. Que vacilo. Que sorte ela não ter visto, pensou: Pensou e bolou a saída:

Feche os olhos, Joelma.

Por quê?

Daqui a pouco lhe digo. Quer saber? Não confio em você, não.

Ah, amor. A camisa tem até um cheirinho legal de sovaco. Mas você apertou demais. O que tá fazendo?

Escrevendo uma loa pra você. É pra ler devagar, curtindo as palavras.

Bião já havia apagado o “CUIDADO! HÁ UMA ANTA DE SAIA PASTANDO POR AQUI”.

Não! Não quero ler nada. Quero ir pra piscina. Desamarre a camisa, por favor. Não faz isso comigo não, filho.

Já tá feito, Joelma.

Bião tirou a camisa do rosto dela. Não tinha como não ver:

Joelma caiu no choro. O 1º de maio estava sendo pra ela o dia do choro:

Obrigada, meu pai. Obrigada, meu filho. Meu Deus do céu. Não faz isso comigo, não, filho.

Bião não entendia tanto choro, tanto abraço, tanto beijo. Joelma beijava, abraçava, rebeijava, reabraçava. Bião jamais imaginaria que a loa tocasse tanto em Joelma.

Joelma, lia, relia, tornava a ler, tornava a reler:

JOELMA, LINDA E MARAVILHOSA. E A MULHER MAIS MULHER DO MUNDO

 

2 do 5 do 21, passados 5 anos e 1 dia desse acontecimentos,

TC

Até mais ver

 

CUIDE-SE

 

 


2 comentários:

João Lucas disse...

Bastião seu estilo de escrita é único! Cômico e bem articulado o vai e volta do texto é excelente
Lerei algumas anteriores para dar boas risadas e apreciar seu vasto vocabulário e notório "jeitinho" de escrever.
Abraços,
João Lucas - Seu eterno vizinho

Anônimo disse...

Concordo com o João. Uma escrita que nos permite vivenciar o imaginário e entrar no personagem. ����