A EXPERIÊNCIA DE JMB
Ainda
bem que eram aparas de grama. Algo mais sólido teria machucado o pé e adeus o torneio
de futsal no 1º de maio.
Belo
trabalho esse seu. Imbecil., idiota. Se enxergue, menino enxerido. Folgado,
você, né? Nunca viu mulher não, moleque?
Desculpe,
dona anta. É que...
O
humilhado travou a explicação, já que a deseducada não o ouvia. Calçada de arrogância,
saiu pisando a urbanidade, como se o gesto de encantamento do moleque tivesse
lhe esporado a soberba.
Que
anta é uma, avaliava o moleque, despejando as sobras do jardim numa caçamba de
entulhos e dirigindo-se para a Sede dos Campeões. Imbecil! Imbecil é ela. Se a
sacola tivesse caído em seus pés, até dava pra entender. Mas a grama nem
respingou na dengosa. Foi meu olhar bater nela e a sacola cair junto com o
queixo. Tenho culpa de ela ser gostosa, por acaso? Cada uma. Mulher ignorante
da bexiga. Quem será? Conheço todo o mundo daqui e... Ah, deve ser ela. É isso.
É a tal da JMB, a filha dos donos da fazenda.
“Linda
e gostosa, mas cu-doce. Vive de nariz empinado”, costumam dizer meus colegas.
“Rica,
famosa e cheia de frescura. Insuportável. Ingrata. Passa um tempão sem visitar
os pais. Não sei por que vocês vivem arriando as asas pra essa coroa. Mais com
esse apelido, JMB... Sei não, viu? Nunca veio aqui com namorado”. Essa é a
fofoca preferida das meninas.
O
moleque Bião - moleque de dezoito anos - chega à Sede dos Campeões pensando na grosseria
da coroa - coroa de trinta anos. A Sede dos Campeões abriga tudo. Menos troféus
disputados na região. Mas há que se reconhecer o esforço da rapaziada do
futsal. E a garra das meninas do vôlei.
Enquanto
cortava as frutas do pós-treino, Bião bolava uma brincadeira para escrever na
lousa de aviso da Sede. Escreveu: “CUIDADO! HÁ UMA ANTA DE
SAIA PASTANDO POR AQUI”. Riu, escreveu algo numa folha de papel e saiu.
Daria um jeito de se encontrar com a anta. Diria umas verdades e lhe entregaria
o papel. Estava se lixando para o emprego. Jardim na região é que não lhe
faltaria para cuidar.
Bião
saiu e logo avistou a formosura caminhando na área das piscinas. Bião contornou
a quadra de basquete e ficou frente a frente com ela:
Sabe, dona, a senhora mandou eu me enxergar
e me chamou de imbecil. Imbecil é a senhora. A senhora tem um jeitão de formosa e decente, mas é só uma famosa carente. Mas não se preocupe. Esse papo fica entre nós. Agora tome esse papel e pregue nos peitos.Bião
entregou o papel e saiu. E se controlou para não responder com o dedão estirado
ao grito de “Como se chama, moleque”?
“SOU
A MELINDRA. NÃO ME TOQUES. NEM COM O OLHAR”, esse era o escrito do Bião.
Que
moleque insolente. Ainda me chamou de anta. Agora estrategista ele é. “Esse
papo fica entre nós”. Quer dizer que se eu não espalhar o desaforo dele, a minha
arrogância igualmente não se espalhará. Pra idade, tem as batatas de pernas bem
apetitosas. E que danado de olhar foi aquele. Nossa! Deixa pra lá.
A
moça deixou o assunto pra lá e, na tarde seguinte, a do sábado, deixou a
fazenda, segundo informou uma das empregadas:
Agora
vocês sossegam o facho. A insuportável saiu agorinha para o aeroporto.
Conhecesse ela, Bi? Ontem à noite ela estava perguntando à mãe como era o nome
do jardineiro. Eu, hein!
Bião
deu de ombros.
Também
de ombros deu a Joelma quando se preparava para dormir. Decidira não mais
remoer o “Dona anta e o famosa carente” do jardineiro.
Joelma
se deita. Precisa dormir bem, pois na tarde seguinte, a do domingo, viaja para Manchester.
Vai ser conferencista num fórum econômico. Para acariciar o sono, liga a TV e
escolhe a BBC de Londres. Logo adormece.
Dormiu
feito criança. E como criança acordou:
Peguei
no sono com a TV ligada na BBC. Tenho certeza disso. Que emissora é essa,
então? Que língua estão falando? Ah, é a BBC, realmente. Mas por que não estou entendendo
nada? Por que não consigo ler as letrinhas passando na tela?
Joelma
fica uns minutinhos de olhos fechados. Torna a olhar pra TV: a mesma coisa. Fica
mudando de canal. Alemão, francês, espanhol: a mesmíssima coisa. Esfrega os
olhos, dá uma tapinha no rosto e sintoniza a Globonews. Entende o português da
repórter, mas não consegue ler as notícias do rodapé.
Joelma
enche os olhos de lágrimas e vai se molhar. Banho de ensopar cabelo. Deita-se
despida, toda molhada, olhos no teto. Procura uma prece. Não acha. Jamais deu
valor a banalidades religiosas. Repete os procedimentos da TV: nada mudou.
Joelma
vai à varanda da cobertura. Desconfiada, olha o vai e vem das ruas. Letreiros são
garranchos. Joelma se dá conta de que está nua e retorna vestida de desconfiança:
enlouquecera?
Joelma
choraminga, descabela-se. Pensa em pedir ajuda pelo smartphone. Mas a quem? À
mãe, em Ribeirão Marrom? Não convinha. Ia deixá-la ansiosa. Procura uma pessoa
íntima. Lembra-se da secretária. Mas como usar o WhatsApp se não sabe escrever?
Ainda bem que distingue os números. Puxa pela memória o número da Cláudia. Liga
aos prantos.
Cláudia
chega em quarenta minutos:
Ah,
Claudinha, me ajude. Estou desesperada, amiga. Como lhe falei...
Cláudia
é a tranquilidade em pessoa, mas tem hora...
Vou
ajudá-la, Joelma, mas preciso lhe falar umas coisinhas.
Escute,
Joelma. Sou sua secretária há cinco anos. Aí o que acontece. Conversamos por
cerca de cinco minutos pelo celular. E não faz um minuto que estou aqui. Ouvi e
vi nesse tempinho o que jamais ouvi e vi nesse tempão. É a primeira vez que me
chama de Claudinha e amiga. Também só hoje vejo súplica no seu semblante.
Nesses cinco anos, você nunca me deu um abraço. Sequer no meu aniversário. Mas entendo
sua deselegância social. Nem vejo oportunismo agora. Você simplesmente
acostumou-se a viver assim. Vida é costume, Joelma. Ocorre que esses costumes tangeram
de si a cumplicidade de sentimentos. Cumplicidade não é algo ruim. E o é se
parida de conluios.
Você,
Joelma - reconhecida mundialmente como a mais bem preparada executiva do ramo
da mineração -, acostumou-se a ser chamada pelo horroroso JMB em substituição
ao sonoro Joelma Montoro Bezerril. Você adora ser abreviada. Vive chapada de
profissionalismo. Precisa se desintoxicar com pelo menos um pouquinho de
informalidade. Você, Joelma, lindíssima, corpo ensopado de luxúria,
acostumou-se a desdenhar dos desejos carnais dos homens. E o das mulheres,
obviamente. Falar nisso, está passando da hora de dar esse negocinho, mulher.
Não deixe criar casa de aranha, não...
Misericórdia,
Claudinha. Fez até eu esquecer a desventura.
Que
legal a sua “misericórdia”. Bela pista de humanidade, Joelma. Bom. Antes que
diga que estou julgando você e me metendo na sua vida, quero lhe dizer que estou
me metendo, sim. E ajo assim porque sou sua amiga, Joelma. Por isso estou lhe
tratando por você em vez do protocolar doutora. Ajo assim porquanto entender
que está sendo vítima do nefasto costume da arrogância. Mas costumes podem ser
alterados, substituídos, mudados. Medo, coragem, paranoia, deslumbramento. Tudo
isso é costume, Joelma. Não espero que mude da arrogância para o pior dos
defeitos: a fingida humildade. Mas torço para que fique indiferente para a
indiferença comportamental.
Caramba,
Claudinha, não sabia que é tão sabida.
Como
saber, Joelma, se costuma fugir das conversas? Você não se mistura, amiga. Mas
sua alma não concorda com você. Sua alma é conversadeira, leve e justa. Já
flagrei muitas vezes a sua ânsia de dialogar juntando-se à aura da ternura. Mas
logo você as expulsa. Com vergonha, imagino. Você não tem ideia de sua volumosa
poupança de ternura. Se conversasse, Joelma, já saberia do que eu soube por intermédio
do Dr. Anchieta. Você ameaçou sair da empresa se não dobrassem o meu salário:
Cláudia é integra e eficiente, Dr. Anchieta, assim ele me falou o que você
tinha lhe falado.
Falar
em eficiência, Joelma, suponho que ainda não tomou café. Eu também não.
Enquanto prepara o café, vou falar com um médico amigo, Dr. Guilherme,
especialista em cabeça.
Passados
alguns minutos:
Deixe que passo os ovos, Joelma. Dr. Guilherme está
no aeroporto. Vai pra Paris. Ele quer falar com você.
Mais
alguns minutos, no café:
Nossa,
Claudinha. O doutor disse que meu caso é único na literatura médica. Ficou de
antecipar o retorno e me deu o contato dele. Mas brincou dizendo que tinha uma
carta de ABC em casa. Tem cartaz com ele, né, amiga? Chamou você de princesa.
Sei não, viu? É gato?
Ah,
Joelma. Você nem imagina como fico feliz com essa fofoquinha. É gatão. Estamos
saindo, sim. Agora me diz. Quais foram as recomendações dele?
Mais
perguntou do que falou. Pediu que eu passasse uns dias na fazenda, que não
contasse meu caso a ninguém, que agisse com naturalidade, que praticasse um
esporte físico e que... Veja só, Claudinha, o inusitado, e que se a preocupação
chegasse forte, eu tomasse uma taça de vinho. Falou e riu o danado.
Ih,
já estou ficando enciumada, Joelma. Sabe o que penso, amiga? Isso é um bloqueio
besta. Coisa de estresse. Acho que seus neurônios sentimentais, por viverem
ociosos, estressaram-se, quiseram dar uma lição em você e pediram a
cumplicidade do intelecto. Embora orgulhoso de você, o intelecto aderiu aos
planos dos amigos e comentou: vocês têm razão. Já estava apreensivo com o modo
de vida dessa moça. Não quero um aparelho sem vida. Essa jovem precisa aprender
a viver. Ninguém a vê chorando, rindo, amando. Precisa fazer jus à sistêmica
educação que a ela proporcionei. Dei-lhe conhecimento, erudição, inteligência
emocional, empatia. Mas ela vive pondo no lixo as duas últimas dádivas. Tô
dentro, rapazes. Faremos o seguinte.
E
o seguinte, Joelma, é o agora. É o desaprender. É a terrível experiência que começa
a vivenciar. Eles puseram um adesivo sobre sua memória de letras, Joelma. Mas
podem removê-lo a qualquer momento. Sabe, amiga, existem certas coisinhas que a
gente só dá valor quando perde. Como não sabe o que está perdendo, pois nunca
perdeu, o analfabeto vive numa boa. Não dá o devido valor à educação. Ele nem
sabe que vive no cabresto mental dos letrados. Sobretudo dos sacripantas. Já
imaginou se belo dia os analfabetos acordassem “doentes”, alfabetizados? Será
que iriam querer se curar? Certamente
que não. Eles estão fartos de fingir, representar, conquanto ajam de maneira
automática. Eles fingem para glândulas, vitrines, jornais. Tudo o que você vai
começar a fazer, Joelma.
Bom.
Agora você vai ligar pra sua mãe e informar que está indo passar uns dias na
fazenda. Diz que o evento de Manchester foi cancelado. Daí que achou por bem
tirar umas férias e tal. Pode deixar que darei ciência de tudo ao Dr. Anchieta.
Apenas ele vai saber de seu drama, Joelma. Você não deve contar nem a sua mãe,
OK? Escute. Já encontrei um voo para Ribeirão Marrom. Vou comprar. Dê-me o
cartão. Sai às onze e meia. Antes de uma hora da tarde você estará em casa, OK?
Vou deixa-la em Congonhas. Arrume uma mala para uns quinze dias, tá?
Vá
e faça tudo para esquecer essa coisa. Fale com todo o mundo, ande pela cidade, divirta-se...
Em
termos de divertimento, Claudinha, a fazenda é ideal. Meus pais são festeiros.
Hoje, por sinal, vai ter um torneio de esporte em comemoração ao Dia do
Trabalho.
E
assim se deu. Uma hora da tarde, Joelma batia papo com a eufórica e coruja mãe,
D. Jacira:
Mãe,
vou dar umas piscinadas. Vai comigo?
Vou,
minha filha. Vá na frente que vou já. Vou dar algumas orientações ao pessoal da
cozinha:
E
assim se deu. Ou melhor, não se deu. Joelma paramentou-se de biquíni e canga, ficou
por demais cheguei, digamos assim, mas não chegou na piscina.
Joelma
fica parando no caminho, uma simpatia só. Primeiro exemplo:
Ih,
pelo visto vai rolar um churrasquinho. Tem picanha, não tem? Gosto mostrando o
sangue. Me aguardem.
É
claro que o pessoal apenas balançou a cabeça. Seria mesmo a tal da JMB?
Último
exemplo.
Só
de calção, carregando um cacho de coco, camisa nas costas, cabelo na testa, Bião
vai chegando à Sede dos Campeões quando Joelma o avista:
Ei,
moleque. Quero um coco desses.
Tem
gelado aqui dentro. Quer no copo ou no canudo? Entre, D. JMB? Disseram que a
senhora tinha ido pra capital...
Fui
apenas pegar uns trecos. Mas escute, moleque... posso ficar chamando você de
moleque, não posso? E ia adorar se me chamasse de Joelma. Bom, queria pedir
desculpa pela sexta-feira. Fui grossa com você, moleque.
Águas
passadas, Dona... Ah, Joelma, desculpe. Também quero me desculpar por aquele
papel. Também vou adorar se ficar me chamando de moleque.
Então
tá. Quero desses do cacho. Nem canudo, nem copo. Vou tomar na boca. Caramba,
moleque, a Sede dos Campeões é muito legal. Nunca tinha entrado aqui. Esses
quartinhos são o que? E aquela mesona nos fundos?
Bom.
Bião sai mostrando tudo à Joelma, que, entre uma bocada e outra no coco, elogia
o aconchego da Sede:
Coisa
de sua mãe, Joelma. D. Jacira é uma santa. É a mais vibrante torcedora de
nossos times.
E
é? Parece que a diabinha da família sou eu. Sou santa sem o “s”. Não foi assim
que me chamou sexta-feira? Desculpe, moleque. Não resisti. Você joga também?
Jogo.
Sou o goleiro do time de futsal.
Não
brinca? Deixe-me ver se você tem as mãos de goleiro mesmo.
Nossa.
São macias demais pra goleiro, moleque.
Mas
agarro bem, Joelma.
Só
quero ver.
Aqui,
a voz de Joelma já parecia atrapalhada. E saiu fraquinha, fraquinha na
pergunta:
Você
olha desse jeito pra toda mulher, é, moleque? Nossa!
Perguntou,
mas não esperou a resposta. Aliás, passaram longos minutos sem se falar. Pelo
menos com sons inteligíveis.
Somente
os corpos falavam. Deliravam é melhor. Um delírio divino, uma dança sagrada, desordenada,
mas que a incrível ondulação dos corpos desmentia a desordem. Corpos que faziam
apenas o que devia ser feito um para o outro. Corpos que queriam ir além da
fronteira do êxtase. Corpos que queriam embarcar no plano sutil da experiência
mística.
Queriam
e conseguiram.
A
voz de Joelma saiu trôpega:
Agarra
bem mesmo, moleque.
Só
neste momento Bião lembrou-se de algo. O sacana aviso na lousa. Mesmo na frente
de Joelma. Não tem como não ver. Devia ter apagado. Que vacilo. Que sorte ela
não ter visto, pensou: Pensou e bolou a saída:
Feche
os olhos, Joelma.
Por
quê?
Daqui
a pouco lhe digo. Quer saber? Não confio em você, não.
Ah,
amor. A camisa tem até um cheirinho legal de sovaco. Mas você apertou demais. O
que tá fazendo?
Escrevendo
uma loa pra você. É pra ler devagar, curtindo as palavras.
Bião
já havia apagado o “CUIDADO! HÁ UMA ANTA DE SAIA PASTANDO POR AQUI”.
Não!
Não quero ler nada. Quero ir pra piscina. Desamarre a camisa, por favor. Não
faz isso comigo não, filho.
Já
tá feito, Joelma.
Bião
tirou a camisa do rosto dela. Não tinha como não ver:
Joelma
caiu no choro. O 1º de maio estava sendo pra ela o dia do choro:
Obrigada,
meu pai. Obrigada, meu filho. Meu Deus do céu. Não faz isso comigo, não, filho.
Bião
não entendia tanto choro, tanto abraço, tanto beijo. Joelma beijava, abraçava,
rebeijava, reabraçava. Bião jamais imaginaria que a loa tocasse tanto em
Joelma.
Joelma,
lia, relia, tornava a ler, tornava a reler:
JOELMA, LINDA E MARAVILHOSA. E A MULHER MAIS MULHER DO MUNDO
2
do 5 do 21, passados 5 anos e 1 dia desse acontecimentos,
TC
Até
mais ver
CUIDE-SE

2 comentários:
Bastião seu estilo de escrita é único! Cômico e bem articulado o vai e volta do texto é excelente
Lerei algumas anteriores para dar boas risadas e apreciar seu vasto vocabulário e notório "jeitinho" de escrever.
Abraços,
João Lucas - Seu eterno vizinho
Concordo com o João. Uma escrita que nos permite vivenciar o imaginário e entrar no personagem. ����
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