sábado, 15 de maio de 2021

Babaquices de babaca escrevinhador

 

Babaquices de babaca escrevinhador

 

Não nego as minhas babaquices literárias. Fiquei consciente delas no primeiro livro, A Senhora 2, em 2010, quando estava no boteco de Amarildo tomando cerveja com Damião. Puxei um papo de literatura só para lhe dar um livro. Daí fui me acostumando com a babaquice. Comecei a entupir de exemplares o banco traseiro do carro. Bastava uma pessoa rir pra mim pra eu engatar uma resenha de livros, escrever um “Espero que goste, fulano” e dar o livro ao incauto. Bom. Damião vai embora, mas dali a mais ou menos uma hora está se lamuriando diante de mim. Lamuriava-se e eu me comprazia:

Tião, cara, roubaram o livro enquanto eu tomava uma cerveja em Assis. Deixei o carro aberto, cara. Me vende um livro, mas só pago no fim do mês, tá legal?

Ter meu livro roubado é a glória, exultei. Pensei, mas passei-lhe a reprimenda:

Porra, Damião. Deixar o carro aberto, meu. Vou lhe dar outro livro e emprestar 50 paus pra você voltar pro Assis, já que está na pindaíba.

Mas gritei quando ele dava partida no carro:

Deixe o carro aberto, viu?

 

Pior é quando a babaquice aparece de mãos dadas com a insanidade do escritor pé- rapado. Se bem que babaca insano de paletó existe em todas as atividades. Inclusive nas governanças. A propósito, vou dar singela resumida numa insana historinha narrada por Luís Fernando Veríssimo. Veríssimo chamou-a de Sebo. Deu-se assim. Com poucos dias do livro na rua, certo autor descobre sacaninha cacófato e sai recolhendo os exemplares. Fácil nas livrarias, pois ainda encaixotados. Difícil foi identificar os compradores dum sebo, onde havia deixado 17 exemplares. Mesmo assim, o escriba consegue rastreá-los. Estrangula um a um. Até que chega ao adquirente 17:

Leu?

Li.

Leu todo?

Li. Li. Todinho. Aliás, peguei e não larguei até chegar ao fim. Depois li de novo.

Cadê ele?

Vou pegar. Veja. Que livro! Puxa!

Mas o escritor não o escutava. Apertava o livro entre as mãos.

O último, finalmente.

Quê?

Este livro tem um cacófato horrível, senhor. Preciso deixar o mundo puro, livre de insinuações maldosas. Quem o leu tem de morrer. Só falta o senhor.

Eu não li. Juro por Deus! Só queria fazer um afago pro senhor.

De nada adiantaram a verdade e a jura. O infeliz quedou-se estrangulado.

 


Bom. Esse é um resumo do Sebo, de Veríssimo. Agora, segundo Bião, meu primo, Veríssimo omitiu importantes detalhes.

O imbróglio não termina ali, Tião. Acontece que o estrangulado era eu, confessou-me o azoreta Bião. Fingi ter desmaiado, Tião. Aí o pirado foi embora. Levantei-me e corri pra porta. O Sr. Sotáfoco Vasconcelos – esse era o nome do maluco – estava dobrando a esquina que a minha namorada, Sylvia, estava dobrando ao contrário. Peguei a Sylvia e começamos a seguir o serial, eu contando a história a ela. O piradão entra em casa, esparrama-se numa espreguiçadeira, acende um cachimbo. A gente aparece:

O senhor tá vivo?

Mostre-me o cacófato, Sr. Vasconcelos.

Não posso.

Então vai ser preso. Vou dar parte do senhor. Mostre-me e eu mato esse assunto. Escute. Também escrevo, Sr. Vasconcelos. Espalho cacófatos à beça por aí. Façamos uma panelinha. Eu elogio os seus textos, o senhor elogia os meus. Seu cacófato vai ficar só entre mim e o senhor. O que acha do pacto?

Tá certo, Sr. Bião. Mas só entre nós dois mesmo. Ninguém mais. Fecharemos os olhos de quem ousar lê-lo, certo? Tome. Leia a página 38.

Fechadíssimo, Sr. Vasconcelos, respondi, abrindo o livro.

Começo a ler, Tião. Mas o que acontece. Sylvia fica por trás de mim, fazendo-se de morta, corujando, os mamilos furando-me as costas. Até que a danada dá escandalosa gargalhada. Acabara de ler o bicho. Na verdade, Tião, se tinha cacófato ali era de extrema sutileza, mas a insanidade do velho e a mente erótica da Sylvia não viam o contexto em que se enquadrava o “só que ela” da frase: “Só que ela queria mais, ficava chorando, rindo e...”

Agora, pacto é pacto, Tião. Sylvia havia dado sacana demonstração de rebeldia. Então por ter me tido como parceiro de sua gozação, e por cada risinho irônico, enchemos a boca dela de porrada.

Você é um grandessíssimo bucéfalo, Bião, foi só o que me deu na telha.

 


A prosa de Veríssimo e Bião acabou me desviando das babaquices. Mas foi bom, porquanto terem visto aonde chega a sandice de certos autores. Voltemos às babaquices, então. Como falei, a inaugural se deu com a Senhora 2. Vou pular pro meu último romance, o “Por uma Taça de Vinho”. O livro ficou massa. Osair Vasconcelos, Z Editora, botou pra quebrar. Da capa da Luíza nem se fala. Acontece que o romance nasceu com a triste sina da rejeição. É um sofredor, coitado. Só um parêntesis.

Postei um exemplar para a amiga Fernanda, em Boa Viagem-Recife. Dias depois, o rastreamento/Correios me informou que o endereço não fora encontrado. Um prédio do tamanho do mundo, endereço certinho, mas o Correios não o viu. O livro tinha viajado de Jaboatão dos Guararapes para Guarulhos-São Paulo. Passados uns dias, o rastreamento disse que o livro estava em Caicó-RN. Mais uns dias, e a Taça de Vinho já estava de novo em Jaboatão, de onde voltaria pro aconchego do lar. Já imaginaram o sofrimento de avião, depósito, avião, depósito? A Taça só não quebrou porque feita de empatia.

Então. Vendi alguns exemplares. Outros começaram a fazer a festa das traças daqui de casa. Agora entram as babaquices, gente. Catei endereços virtuais de alguns letrados (bem uns dez), que eu supunha gostarem de literatura, e pedi um endereço a fim de que eu lhes enviasse um exemplar do romance. Apenas quatro responderam. Vivemos dias de danação, pessoal. Como não esperava a rejeição, cuidei de redigir as dedicatórias tão logo pedi os endereços. Tempo perdido, pois. Só lamentei o trabalho de minhas noras, já que aninharam o livro em papel seda, acomodaram-no em sacola de papel e os identificaram com etiqueta personalizada. Ficaram dias emburradas comigo porque não as deixei dar um banho de colônia nas sacolas: “Babaquice tem limites, moças”.

Bom. Entre os que responderam, destaco, pelo inusitado do porvir, François Silvestre e Sérgio Vilar. Sérgio tem um blogue de cultura, o Papo Cultura. Não conheço Sérgio pessoalmente. Só o focinho dele no blogue. Parece-me um menino usado. Conheço François, dono do melhor texto ficcional das redondezas, e dono do blogue Coluna da Palavra. Conheço François pessoalmente. Costumamos jogar conversa fora regularmente. A última ocorreu em 76, no Curso Delta, onde ele ensinava literatura. No papo com Sérgio, François me pareceu um rapaz usado.

Pois bem. Quarta-feira, agora, 12 do 5, entro na Coluna da Palavra e me deparo com um vídeo de Sérgio batendo papo com François. François tomava vinho. Papo vai, papo vem, François deixa escapar que tinha lido, ou estava lendo, algo assim, a Taça de Vinho de Tião Carneiro. Nisso, Sérgio diz que eu tinha dito que mandaria um exemplar pra ele, mas que até agora não o recebera.

Como assim não recebeu, matutei. Pesquisei: o livro fora entregue no condomínio dele no dia 10 do 2, três meses atrás.  Daí liguei pra ele:

É o Tião, Sérgio, o da Taça de Vinho. Pode falar?

Sim, sim. Fala, Tião. Pode falar. Tô no trânsito, mas pode falar.

Escuta, Sérgio. Assisti ao seu papo com François. Você disse que não tinha recebido meu livro. Mas meu filho o deixou na portaria de seu prédio no dia 10 de fevereiro.

Pois não recebi, não, Tião.

Vejo duas situações aí, Sérgio. Ou alguém de seu apartamento recebeu o livro e entocou no quartinho onde costumam botar os trecos de utilidade duvidosa, ou alguém da portaria do prédio se engraçou do bicho e tá lendo. Nesse caso, tenho de ficar pulando com a belíssima transgressão funcional. De qualquer forma, Sérgio, meu filho acabou de deixar um livro no seu prédio.

É. Mas, mas... Obrigado... Tião, meu caro. Escute. Tião, cara, entrei agora na minha rua. Amigo, minha rua tá cheia de polícia, bombeiro, ambulâncias. Até o Itep e a televisão, bicho. A área tá isolada. Caramba! É alguma coisa na frente do meu prédio. Ligo depois pra você.

Tenha calma... Sérgio não me ouvia. Por certo estava furando o isolamento. Jornalista é bicho ousado. Ele não me ouvia, mas eu o ouvi perfeitamente, já que o alvoroçado tinha esquecido de desligar o celular:

Parem! Parem! Com licença, policial. Meu nome é Sérgio. Moro nesse prédio. O que tem nessa sacola aí é um livro. Um presente que mandaram pra mim.

 

Natal, 5 do 21. Tenebroso maio de angústia e de esperança. E de bombas.


TC

Até mais ver.

Tim-tim

 

 

 

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