sexta-feira, 11 de junho de 2021

CLÓ O AMANTE E O MT

 

                                              Demi Moore - Proposta Indecente 


CLÓ O AMANTE E O MT

 

Desde dezembro do ano passado, 2020, que a Demi não falava comigo. Vivia emburrada porque eu me esquivava das investidas dela. Mas ontem um apitinho do  WhatsApp me informava que a insensata estava de volta:

Desculpa não ter falado contigo antes, MT. É que a impiedosa me pegou de jeito. Não tinha ânimo pra nada. Tinha receio até de digitar. Imaginava um corona mordendo-me os dedos, eu coçando os olhos sem querer e o infeliz querendo juntar-me os pés. Minha sorte foi a Fernanda. Ela deixou um saco de estopa cheio de dedais na porta de meu apartamento. Grampeado no sacão o bilhetinho:

Passei por isso, amiga. Digite com um dedal. Assim não vai coçar os olhos.

Segui os conselhos dela, MT. Fui perdendo o medo e com quinze dias estava boazinha. Boazinha, vírgula. Só saio do apartamento para exames médicos. Mas a clausura tem me trazido reflexão. Daí que te faço uma pergunta, MT.

Agora, gente, preciso explicar quem é a Demi.

Chamo a Clotilde de Demi porque ela é escritazinha a Demi Moore do filme Proposta Indecente. Cagado e cuspido, como dizia vó. A Demi de cá tem os mesmos 31anos de quando a Demi de lá estrelou a Indecente. De mais a mais, as duas são divertidíssimas, brincalhonas. Gozadoras por excelência, digamos assim. A Demi, a daqui, é viúva de meu primo Bião. Ela quer porque quer ter um caso comigo. Não quero:

Você só tem 1 ano e 3 meses de viuvez, Demi. Não vai rolar nada entre nós antes de 2 anos. Deixe de ser insensata, mulher. Essa conversa aconteceu em dezembro, mas a Demi começou a me chamar de Matuto Tião – MT - 22 dias depois de o Bião morrer. Bom, a pergunta dela:

Tu és não binário, não é, MT?

Não. Sou binário como todo o mundo. Dois olhos, dois ouvidos, dois braços, duas mãos, duas pernas. De um só tenho dois negocinhos. Um pra certa atividade suja, outro pra certa atividade súper. Igualzinho a você, Demi.

Aí ela botou uma figurinha, que não sei que diabo queria dizer, e escreveu:

Tu és Cis, MT?

Cis? Que porra é Cis, pensei. Será de cismado, já que não quero ter um caso com ela? Será de cisoro, antigo povo matuto da África? Saí pela tangente:

Acho que não, Demi. Quer dizer, sabe-se lá, talvez. Você é?

Então ela botou uma fileira de K, uma de aviõezinhos e escreveu:

Tás voando, né? Não, MT. Não sou Cis. Sou não binária, entendeste?

Você tá de sacanagem, né, Demi? Explique esses troços, menina. Outra coisinha. O que deu em você pra ficar escrevendo nessa bossal segunda pessoa.

Mais uns K, outras figurinhas sem sentido, e...

Assim, ó. Te falei. Refleti bastante na pandemia. De repente, percebi que me vejo dúbia. Nem na perfeição de mulher, nem na plenitude de homem. E às vezes me sinto os dois seres. Daí que sou não binária. Equilibro-me fora da curva.

Vixe.

E tu? Tu te sentes assim também, MT?

Não. Sou macho todo e toda hora.

Então tu és Cis, cara. Identifica-se totalmente com o teu pinto.

Se Cis é isso, é isso mesmo, Demi. Quer dizer que você está no zap na segunda pessoa porque sempre está disposta a arrochar uma segunda pessoa. Não lhe interessa se de pinto ou de pinta.

Isso mesmo, MT.

Meu Deus. É o fim do mundo, Demi.

Não é, MT. Tu é que és matuto. Ah, mas tô num caso sério. Tô tendo um caso com o presidente.

Não brinca. Da CBF, da República ou da CPI?

Segredinho, né, meu filho. Conto o milagre, mas não digo o nome do santo.

Tá OK. Esse presidente sabe que você é, como se diz, não binária? Como começou o caso, Demi?

Sabe. A gente começou a ficar depois...

Espere, espere, Demi. Como assim ficar, se acabou de dizer que só sai do apartamento pra exames médicos? Como rolar alguma coisa desse jeito, mulher de Nossa Senhora?

Tu és matuto mesmo, MT. Pelo computador, caipira. Depois que a Fernanda me deu os dedais, eu passava a noite entrando nas casas de recursos. Numa dessas, dei de cara com o Ternonero. Mas aí eu já me via Pan.

Agora deu a bexiga, Demi. Pan? Tá dando um nó que não tem tamanho na minha cabeça. Você não era a tal da não binária? Que porra significa a Pan que você virou? E Ternonero é o tal presidente, é?

Calma, MT. É o presidente, sim. A gente faz tudo pra não pronunciar o nome do outro, mas, se inevitável, o presidente me chama de amadíssima Cló. E eu o chamo de amadíssimo Ternonero. Ele é muito terno, MT. Ternura chegou ali e ficou.

Pois então. Vou dar uma simplificada pra ver se desmancho teu nó, MT. Veja. Sou não binária porque não me vejo totalmente mulher, apesar de minha estrutura entrepernas ter a forma da de todas as mulheres. E sou pansexual porque me sinto atraída por todos os gêneros humanos. Não me interessa se é homem, mulher, transgêneros etc. Vejo algo interessante em alguém e já quero traçar o alguém. Entendeste ou queres o desenho?

Quero não. Entendi direitinho o mundo chegando ao fim. A pandemia pegou você de jeito, minha amiga. Agora me diz. Quando começou o caso com o tal presidente Ternonero? E como se dão os pegas de vocês no computador? E como você disse que já era Pan, pergunto: o presidente é o que? O chique Cis, o nojento não binário ou o putanheiro Pan?

Nisso, a Demi botou um bocado de interrogação, umas figurinhas se abraçando, um kkkk e respondeu:

Tem quatro meses. Começou em fevereiro. Ele também é pansexual. Começamos... Bom. Bati os olhos nele e logo vi o que a imprensa e as redes sociais falavam – e falam: gato. O homem é gato todo, MT. Depois fui vendo que a família toda é gato. MT, cara, o homem bateu o olhar em mim e pirou. Chamou-me de lindíssima, apetitosíssima, alucinantíssima, feiticeiríssima. Recomposto, ele pediu pra ver as tirinhas verticais de meu sutiã. Respondi-lhe que não podia mostrar:

Impossível, presidente, falei:

Tô sem sutiã.

Prove.

Tirei a blusa.

Ele tirou a camisa.

Também tô sem, tá vendo?

Ele estava alucinado, MT. Babava. Nisso, começou a não falar coisa com coisa. Que seria capaz de fazer o impensável para usufruir de minhas tetas, ao menos por um tempo, que, que e que. Esse presidente não tem juízo não, eu pensava. E ainda penso que não. Aí, MT, sabe o que o presidente fez? Começou a dizer que eu era poderosa e a chamar as minhas tetas de bússolas. Em seguida, falou, querendo arriar as calças:

Adoro uma rachadinha, minha poderosa.

Tire.

Tirou?

Não, MT. Disse-lhe que devia matar a sede nos dois potes e que a cacimba era muito perigosa pra ele: podia morrer afogado. Ou do coração. Aí ele fez um risinho de hiena e disse que todo mundo ia morrer um dia. Mas deu o taokei.

Isso tudo no primeiro encontro, Demi?

Sim, sim. Depois de alguns encontros, ele se tornou meio tenso, agitado além do normal, digamos assim. Mas o ritual continua o mesmo. Tiro a blusa, ele fica alucinado. Sabe, MT, tenho certeza de que o presidente gosta mais de minhas tetas do que de mim, a verdadeira dona. Como disse, ele tem andado meio nervoso, preocupado com hipotéticos vazamentos de nossos encontros. Daí achamos por bem criar alguns códigos de comunicação. Ele passou a me chamar de Cló e eu a ele de Ternonero. Além disso, passamos a escrever numa variação da linguagem não binária.

O que é isso?

A sapeca tarada botou umas figurinhas de burros pastando e uns eheheh antes de digitar:

Fugir de termos masculinos e femininos. Usamos pronomes neutros, uma variação da linguagem não binária. Por exemplo. O “ele ou ela” a gente escreve “elx”. Lindo ou linda a gente escreve “lindx”. Verbos da primeira conjugação a gente digita “1”, da segunda, “2”, da terceira “3”.  Beijar e transar, ilustrando, é 1. Comer e feder é 2. Trair e fingir é 3. Entendeste, MT?

Me dê um exemplo.

Aqui, a Demi ficou bons minutos sem escrever. Então apareceu uma figurinha com alguma coisa como um lenço nos olhos:

Não entendi, Demi. A figurinha tá chorando, é?

Tá.

Quem é?

Eu.

Caramba. Por quê?

Por causa de algo terrível que o mentiroso e encrenqueiro Ternonero tá tramando contra o povo. Falo assim, MT, porquanto ser isso que o dissimulado realmente é. Para servir-se de minhas tetas é um mecenas. Saciado, é uma hiena mercenária.   

Nossa. Você conhece bem a peça, viu? E qual é o algo terrível de seu amante e dissimulado presidente?

Não posso revelar aqui, MT. Mas posso dizer que é algo gravíssimo. Impensável nos dias de hoje. Escuta. Podes vir ao meu apartamento?

Sim. Vou, é claro. Sabe, Demi, tentei falar com você durante esse tempo todo.

Ficava de coração partido, MT. Mas tava muito sentida. Desculpa.

Acontece, Demi, que a pandemia me pegou de jeito também. Mudei bastante. Na prática, percebi a besteira de vir rejeitando você sexualmente em razão da morte de um primo distante, o Bião. Idiotice total, linda. Você sempre teve razão. Demi. Mas fique certa de que não a amarei na mesma intensidade do Bião. Amá-la-ei numa intensidade infinitamente maior.

Ah, meu pai. Não faz isso comigo não, MT. Que mesóclise linda. Já tá de saída? É bom trazer máscaras sobressalentes, amor. Precisamos bolar estratégias a fim de darmos um fora no presidente. Adeus tetas saborosas e durinhas da viúva Cló, Ternonero.

Demi escreveu e inseriu uma fileira de coração.

Encontrei a Demi com uma taça de vinho na mão. Esquerda. Demorou um tempão para sair de certo contexto para o contexto certo, o do algo terrível do presidente:

Entenda, amor. O presidente Ternonero é pansexual, certo? Então. No encontro de ontem, o equipamento dele mostrou-me um quadro cheio de avisos pregados com alfinetes. O aviso era um só, escrito nos códigos da gente. E a loucura, obsessão e monstruosidade escritas com maiúsculas, amor. Ah, você não me pediu um exemplo de nossa linguagem? Relembre os códigos e leia o aviso:

2 BRASILEIRXS E BRASILEIRXS. TODXS E TODXS.

 

Apaixonante mês dxs namoradxs de 21,

TC

 

 

 

 

 

 


Nenhum comentário: