De
volta, pessoal,
Leiam a apresentação de
“Por uma Taça de Vinho”. São três páginas, gente. Vão encarar?
Um abraço,
Tião
Bate-papo com pretenso casal
de leitores
Martinha mostrou o livro
a gente, Sr. Tião. A capa é linda. Não vejo o momento de me deleitar com o
jantar à luz de velas e de me comover com o tilintar das taças de vinho. Sou
incurável romântica, Sr. Tião. Tem jantar, não tem? Por que o senhor não bota o
romance nas livrarias para vender em consignação?
Não me levem a mal, Sra.
Y e Sr. X, mas julgo melhor entrarmos. Vamos ficar aqui no jardim. Não convém
facilitar a tarefa da bandidagem.
Engraçado, Sr. Tião, quando
falou maravilhas de seu romance, a Martinha disse que o senhor não era muito
chegado a vinho, não, mas o título e a capa do livro desmentem ela. Mas numa
coisa a Martinha está certa: o senhor é realmente brincalhão. Por isso não causa
surpresa alguma em ficar nos chamando de Sra. Y e de Sr. X.
Fiquei matutando. Parece-me
prematuro ver jantar romântico na expressão “Por uma taça de vinho”. Igualmente
prematuro concluir que sou chegado a vinho tão somente em razão da capa e do
título do romance. Juntei tudo e cheguei à conclusão de que a senhora não era lá
essas coisas em percepção linguística. O que me chateou, mesmo, porém, foi ela
ter me chamado de burro. Detesto determinados por quês. Sobretudo os de
entonações atrevidas. O “Por que o senhor não bota o romance nas livrarias para
vender em consignação” chegou-me abarrotado de atrevimento. Mas ficou no cuspe
a resposta: “Por que não quero, ora bolas”. Engoli a deselegância, mas cuspi-lhe
direta indireta:
Martinha é leitora sagaz.
Atributo indispensável para o leitor aferir que não comprou gato por lebre. Tão
sagaz que as aparências literárias não a enganam. Martinha está certa, Sra. Y.
Sou realmente brincalhão. Agora, tratá-los por Sr. X e Sra. Y não está sendo
simples brincadeira. A brincadeira é séria.
Nossa. Brincadeira séria?
Pode nos falar o motivo?
Melhor não, Sr. X. Certamente
ficarão constrangidos, posto eu precisar contextualizá-lo.
Ficaremos não. Pode falar.
Tem certeza, Sra. Y? Pressinto
que vão desconjurar meu livro.
Desconjurar? De onde
tirou a absurda palavra, meu amigo?
Quis responder que da
Martinha. Martinha, entretanto, deu-me apenas sinais, conquanto tenha usado um
termo mais forte: amaldiçoar:
Oi, Tião. Falei de seu
romance a um casal amigo. Eles quiseram saber onde comprá-lo e tal. Disse-lhes
que apenas o autor estava vendendo o pirado e forneci o seu endereço. São meios
avoados, Tião. Pegue leve com eles. Além disso, são castos e... Ah, deixe pra
lá. Depois a gente se fala. Acho até, Tião, que vão amaldiçoar o livro.
Especialmente na parte em que você mete o reio em certos governantes e chama o
nosso maluco de maluco.
Martinha encerrou a
ligação e caiu na risada. Agora, ali, na minha frente, a romântica moça me
fazia rir. E o conjunto da obra fazia-me dar razão à Martinha. Achei por bem
presenteá-los com o livro e assim encerrar a conversa.
Vou apanhar o livro.
Presente, tá?
Às vezes, a gente pensa em fazer um giro e faz um jirau. Fi-lo,
como diria o outro:
Obrigada, Sr. Tião. Falar
em presente, o presente só ficará completo se nos explicar por que iríamos
desconjurar o livro e disser por que está me chamando de Sra. Y.
Não queria esticar a
conversa, mas foi o jeito. Tirei a máscara. Mas não a contra o coronavírus. O
casal permaneceu com a do peste caindo no pescoço. Com a voz mais amena do
mundo, comecei a açoitar verbos:
Então, Sra. Y. Martinha
me avisou que viriam aqui. Tomava um cafezinho e olhava as câmaras quando vi um
carro estacionando no outro lado da rua. Motorista e passageiro desceram e
ficaram olhando para o meu portão. O casal do livro, pensei, indo recebê-los.
Vocês atravessavam a rua
e eu soltava um “caramba, meu”. Subiam a calçada e quase esbarravam em duas
moças, por distração delas, já que caminhavam se beijando. Num claro gesto de
empatia, as moças abriram um sorriso e deixaram vocês passarem. Os dois
fecharam a cara e, antes mesmo de me apresentar, vomitaram um “A gente vê cada
uma, viu”.
Naqueles segundos, Sra.
Y, antessenti que o romance não lhes seria do agrado. A certeza chegou com
cinco, seis minutos de conversa.
Nossa, Sr. Tião. Seu romance
é assim julgador?
Não é o caso de julgar ou
de criticar. É o de se adequarem ao
ideal do romance. Não lhes seria do agrado, pois o livro vai de encontro ao
que, em segundos, vocês demonstraram ser. Não custa lembrar, Sr. X, que o
senhor é o somatório de suas prioridades. E que o arguto observador soma
rápido.
Bom. Imaginem dois
carretéis de linha sendo desenrolados simultaneamente. Andando pra trás, alguém
vai desenrolando um carretel chamado educação. No lado oposto, alguém desenrola
o carretel chamado sexo. Entre os carretéis, garbosa dama supervisiona o
trabalho. Competentíssima árbitra de entrelinhas, falemos dessa forma. O nome
dessa árbitra é consciência, Sr. X. E “Por uma Taça de Vinho” é a imagem da
história, Sra. Y.
Agora vejam a soma. Vocês
estacionam o carro e atropelam a imponente árbitra, já que deixam o carro na
frente da garagem do vizinho. De mais a mais, usam no pescoço o instrumento
protetor e de proteção contra uma pandemia.
Nessas alturas, a
consciência, coitada, deve estar inconsciente numa UTI.
Caminhemos, Sr. X. Vocês
chegam ao portão censurando a sexualidade de duas mulheres.
Nessas alturas, o boboca
do preconceito deve estar nas alturas de uma roda-gigante, ou da gigante roda,
espremendo-se de tanto rir.
Vamos em frente, Sra. Y. Estamos
nos vendo pela primeira vez, há cerca de quinze minutos conversando, e embora
eu tenha dito “Sou o Tião”, vocês nem sequer informaram que eram o casal Tição.
Nessas alturas, e dado o contexto
de poucos minutos, a educação deve estar pondo em ordem as letras “e, s, p, i,
t, o, u, d”.
Nossa, Sr. Tião, está
pegando pesado com a gente, não?
Não, Sr. X. Quem está
pegando pesado é a obviedade. O livro é obviedade do começo ao fim.
Naturalmente que a imbecil da estupidez fica dando rabanada pra ela.
Voltemos aos carretéis.
Veja o da educação, Sra. Y. A senhora sabe quantos milhões de analfabetos
existem no mundo? E no Brasil, a senhora sabe, Sra. Y? Segundo o IBGE, no ano
passado, 2019, eram onze milhões de brasileiros e brasileiras (como dizia o
outro outro), acima de quinze anos, que não sabiam ler e escrever ao menos um ridículo
bilhetinho de amor. Como danado esse povo vai viajar na cidadania, pegar carona
na consciência e se pendurar no pensamento crítico? Esse povo tem culpa de ter vindo ao mundo no Brasil?
Os governantes que deem seus pulinhos e arrumem um jeito de ir consertando a
coisa, né, não?
A babaca da estupidez, Sra.
Y, fica fula da vida em razão de o carretel da educação desmascará-la.
Agora, Sr. X, veja o carretel do sexo. Antes, gostaria de fazer uma pergunta aos dois. Como é a vivência de vocês na horizontal? Na cama, pra ser mais reto.