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POR UMA TAÇA DE VINHO
Voltei, gente.
Voltei com novidades: uma
taça de vinho pra vocês. “POR UMA TAÇA DE VINHO” é o meu novo rebento. Vai estar
indisponível nas piores livrarias do mundo. Nas melhores também. E igualmente
nas do meio. Só por meio de mim é que podem se servir dela. Taça de cristal,
digo logo. O endereço do boteco é tcarneirosilva@gmail.com.
Mas está fechado, gente. A chave está com a revisora, a Angélica. Não venham
agora. Avisá-los-ei (gostaram?) no momento oportuno.
Por enquanto, tomem três
goladas do delicioso. Mas nada impede que o julguem enjooso.
PRIMEIRA GOLADA. Começa assim:
Acontece na terceira
caipirinha, no Boteco 891, em 2010:
Silvana põe o copo na
mesa, suspende o blá-blá-blá e fixa-se em mim. O olhar é só insolência.
Vem coisa aí, pensei,
acionando a prudência verbal. Prevenção que me acompanha desde a adolescência.
Conselho de minha avó materna:
Escute, meu lourinho
danado. Não corte a palavra de ninguém e demore uns segundinhos para se
pronunciar. Além de manifestar respeito, está dizendo ao interlocutor que aquilo
que vai falar não será de afogadilho. Sobretudo se o falante for mulher. Mulher
odeia ser interrompida e adora o homem que a escuta olhando nos olhos.
Sabe, TS, somos apenas bons
amigos, então eu...
Silvana deve ter notado o
rascunho de sarcasmo no meu rosto, tanto que deu uma titubeada na voz. Percebi bem
a reprovação no olhar dela. Mais uma vez, por isso o rascunho, os conselhos da
vó batiam com a realidade:
Quando, do nada, uma
mulher lhe disser que “somos apenas bons amigos”, entenda a frase como
declaração amorosa. É que mulher é pragmática. Ela fala isso se estiver
percebendo que você não a quer. Seja porque não a quer mesmo, seja porque amá-la
não pode. Então ela usa o pragmatismo como proteção sentimental, uma espécie de
autoengano. Falei “do nada”, meu lourinho, porque se uma mulher falar os “bons
amigos” num contexto de romântico assédio, tudo leva a crer que ela o veja como
apenas bons amigos mesmo. Digo tudo leva a crer, porquanto, mulher, além de
pragmática, é...
SEGUNDA GOLADA. Lá pras tantas:
Dez pra tudo o que falou,
meu homem. Você é mil em sexo. E não apenas falando. Eu também sou mil, não sou? Na teoria, por
enquanto. Agora, nunca encontrei a resposta para a pergunta que vivo me
fazendo. Desde os anos de exilada. O que faz o sexo ser superpoderoso? Como se
explica a extrema perfeição do ato sexual? “Devido ao extremado prazer que
proporciona”. Isso é o que leio por aí. Chamo “isso”, meu homem, porque isso
não é resposta. Porra! Prazer é consequência. E o que eu quero é a causa. Por
que o peste é tão eficiente? Já se fez essas perguntas, meu homem?
Engraçado, há dois
minutinhos você pronunciou uma palavra que entra no contexto da resposta,
Sylvia.
Como é? Entra no contexto?
Tenho a resposta, Sylvia.
Ah, meu pai. Meu nome é
Sylvia Ouvidos das Ouças. Vou até me sentar no seu colo. Fale, fale.
O poder do sexo, Sylvia, vem
do fato de a cópula ser a única atividade humana realizada sob delegação de competência para o interesse e para o egoísmo. O sexo pede que os humanos deleguem todos os poderes a esses dois
atributos. Delegam entre si. Simultaneamente, por óbvio. É uma prova de confiança entre os copuladores, Sylvia.
Minha nossa. Delegação de
competência. Prova, confiança. O que é isso, meu homem?
Entenda, linda. Interesse
e egoísmo. Atributos pessoais, costumam andar juntos, certo? O interesse pode
ser delegado. Para um advogado, por exemplo. O egoísmo, não. Ninguém pode ser
egoísta no lugar de ninguém. O que fez o sábio sexo? Delegou os dois atributos,
já que, delegado o egoísmo, o ego ficar zerado dele. E ele, o egoísmo, delegado
que foi, ficar inoperante na mente alheia. O egoísmo fica perdidão. Fica no mato sem cachorro, está compreendendo?
Mais ou menos. Continue.
Funciona assim. Que tal
eu e você como exemplo? Em que estamos interessados? No orgasmo, certo? Então
eu lhe delego o interesse de ter orgasmo. E você me delega o interesse de ter
orgasmo. Estou nas suas mãos e você nas minhas, trocando em miúdos. Está
entendendo agora, minha delegada?
Estou. Beleza. E o
egoísmo? Por que foi delegado junto com o interesse?
Por precaução. Sabedoria
do sexo, Sylvia. Se o meu egoísmo tivesse ficado em mim, talvez eu não
conseguisse fornecer orgasmo a você, dada a preocupação em me satisfazer antes.
Mesmo procedimento de você em relação a mim, certo de novo? Egoísmo é egoísmo,
não é, linda? É o que acontece na solitária cópula da masturbação. O sexo
fornece o orgasmo, mas, de posse do egoísmo, o masturbador ou a masturbadora fica
incapaz de repassá-lo a quem de direito. A rigor, na cópula saudável e espontânea, eu e você somos tão somente pedaços de carnes famintas. Ficamos zerados de discernimentos, porquanto a atividade mental ter se afastado levando a tiracolo egoísmo, interesse, sobrosso, ponderação. A única coisa que ela não leva, Sylvia, é o instinto. Até porque o instinto é o guia da viagem.
Em resumo. Não há um pingo de egoísmo
numa cópula. Pelo contrário. Altruísmos gotejam do começo ao fim. Os copuladores
sabem que sentirão o supremo prazer, mas não copulam pensando em si. Doam-se por
completo com a exclusiva ideia de satisfazer o outro, de ver a expressão de
júbilo do comparte. Entregam-se de corpo e alma com o objetivo de escutar sons
ininteligíveis. Pertencimento total. A sua palavrinha, Sylvia.
Como reforço, Sylvia: o
que mais quero foi delegado a você, da mesma forma que foi delegado a mim o que
você mais quer. Não pode dar errado. São Francisco pegou o corolário da ideia e
propagou o “É dando que se recebe”. Genial, não?
Genialíssimo. Mas me
fala. Desculpe a advocacia sacana. Não pode dar errado, disse você. Mas às
vezes dá. Por quê?
A delegação de competência é um pacto, Sylvia.
Os copuladores precisam cooperar. Se um deles, ou os dois, não cooperar e ficar
com uma nesga de egoísmo, por exemplo, a operação tenderá ao insucesso, pois o
sexo não pode obrigar ninguém a nada. Daí o lugar comum: sexo pode muito, mas
não pode tudo. Beleza?
Beleza. Pra encerrar, meu
homem: como sabemos que a delegação de competência vai funcionar? Ou que esteja
funcionado?
Por sinais. O homem
mostra anomalias anatômicas visíveis a olho nu. Os sinais da mulher são mais
sutis e diferenciados. Vejamos você. Ainda que não estivesse me chamando de meu
homem, a respiração pesada...
Pausei e ri. Sylvia não é
de deixar barato certas coisas. Esperava a sorridente réplica mais ou menos
nestes termos:
OK, meu homem. Agora a
pergunta que não quer calar, Conselheiro Acácio. Por que não há egoísmo numa transa?
Estava pronto para
responder:
Em razão da ancestral
cultura do pertencimento e da herança social advinda, quiçá, de Adão e Eva. O
primeiro sexo, porque celestialmente orientado, há de concordar, Sylvia, deu-se
na linha da desambição.
Depois da primeira:
Como se faz isso?
Assim, ó. Posicionem-se,
só pensem no outro e encostem os beiços nos beiços do consorte. Beleza! Isso,
isso, isso; desse jeito, desse jeito, desse jeito; assim mesmo, assim mesmo,
assim mesmo. A partir dos ensaios coletivos, a coisa caiu no leito do costume e
foi passando de geração a geração até chegar a você e a mim, Sylvia. Costume é
a palavra resposta.
Sylvia, entretanto, nada perguntou.
Entregava os pontos. Não raciocinava, pensava somente naquilo. Desfez-se do
roupão e tentou me botar nos braços. Não podia comigo. Mas pude com ela.
Caminhávamos pra cama, ela sussurrava:
Odeio egoísmo e abomino
egoísta, meu homem.
Não demorou muito e
estávamos gaguejando:
Delegação de competência
dez, minha delegada.
Operação realizada com
sucesso, meu delegado.
TERCEIRA GOLADA. Lá pras tantas das tantas:
Antes me tire uma dúvida.
Faça o seguinte, seu esquadrinhador. Não é bem dúvida, mas... Bom, pegue lápis,
papel e escreva três palavras que, no seu julgamento, é claro, mais representam
a vida em sociedade. Três palavras, cujas vísceras vivam transportando
sentimentos de distintas gradações. Três palavras de cujas seivas ninguém passa
ileso. Escreva, afinal, as três palavras mais importantes da língua portuguesa.
Língua portuguesa já que no Brasil estamos, mas a importância se equivale em
todas as línguas.
Você escreve em português
e eu em espanhol. Precisa de tempo ou já pode escrever, Antônio?
Tenho as três na ponta da
língua. Quer apostar um cacho de pitombas como nossas respostas serão
coincidentes?
Um comentário:
Teste na nova plataforma..
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