quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Dois

 




Venero o dois dono da dúvida e da vida

Aquele, aquela, isto, aquilo, amanhã, jamais?

Sabes que nasceste. Tens a parida

Sabes que morreste? Não terás os anais

Fingir é a dúvida namorar ou a certeza trair?

Enganaste-me? Estás certo disso? Tens dessa certeza os sinais?

Certeza e fé não se bicam e são desafetas do porvir

Se tens fé por que falar em ter certeza? Irritar mais?

Se tens certeza por que falar em ter fé? Só pra bulir?

Certeza e fé chamam o mistério de pai 

Mistério abraça suspense e começam a rir


Rir ou chorar?

Mas quem ousa dizer que não pode chorar de rir?

É dando que se recebe?

Mas quem ousa dizer que não pode receber pra dar?

Ama-se alguém ou a ideia do que se faz do alguém?

Mas quem ousa dizer que é preciso idealizar pra amar?

Muita paciência ou muita tolerância?

Mas quem ousa dizer que paciência é o mesmo que tolerância?

A lógica é previsível?

O previsível é lógico?

O erro é sempre errado?

O acerto é sempre certo?

A certeza é sempre verdade?

A certeza começa na dúvida

A certeza é o dois da dúvida

A dúvida é o dois do mistério

O mistério é o dois da origem

Morrer é o dois do nascer

Amar é o dois do viver

Gastar é o dois do ganhar

Chegar é o dois do partir

 

O dois é ex da acomodação. Virar a chave é decidir pelo dois

És pau-mandado do dois

És dois.

Um é só a tua vontade, outro

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Silêncio transcendental

 



Inquietação no palácio da literatura

 

Transcender é exceder em alguma qualidade. É elevar-se. É ir além dos limites. Mas, calma, muita calma, nada existe de elevado nesta prosa. A menos que considere elevado o acúmulo de mesmices.

Ficcionar não é enrolar. Ficcionar é pensar. E pensar não é o mesmo que refletir. Ficcionar – ou escrever – é a forma mais profunda de pensar. Refletir – ou ler – é a forma mais profunda de entender. Daí que quem escreve pensa e quem lê reflete.

Ficção é uma narrativa inconsistente com a realidade. Falam assim os teóricos da literatura. Ficção, nesse caso, é um conceito dinâmico, já que o fato hoje inconsistente pode amanhã não ser mais. Um texto escrito há setenta anos, cujo enredo é uma eleição presidencial no Brasil, e em que o eleito é conhecido duas horas depois de encerrada a votação, seria considerado inconsistentíssimo. Ficcional, portanto.

Com relação ao sistema eleitoral brasileiro, como seria escrever hoje um texto ficcional? Teria o autor a coragem de substituir urnas eletrônicas por urnas orgânicas e nos dar a opção de votar envolto em lençóis, visto a cabine eleitoral estar a um estirar de mãos? Será que vamos poder votar de botecos, nos quais chamaríamos de mesários os indivíduos que nos atendem?

Bom. Os fatos a seguir se passam com uma presidente da República. Essa presidente tinha a aprovação de 80% do país, sua reeleição era dada como favas contadas, mas impetuosa declaração dela fez a oposição potencializar o açodamento. Resultado: a média das pesquisas assegura que 59% dos eleitores não votam mais nela.

Agora peço-lhes cumplicidade na leitura deste conto. Em razão do receio de cair em armadilhas literárias, optei por omitir algumas informações:  entra no conchavo o nome da presidente, o nome do país e o ano em que os fatos acontecem. Apertemos as mãos?

 

Alvoroço no palácio do governo

 

Meia noite. A presidente dorme. O marido