Inquietação no palácio da literatura
Transcender
é exceder em alguma qualidade. É elevar-se. É ir além dos limites. Mas, calma,
muita calma, nada existe de elevado nesta prosa. A menos que considere elevado
o acúmulo de mesmices.
Ficcionar
não é enrolar. Ficcionar é pensar. E pensar não é o mesmo que refletir. Ficcionar
– ou escrever – é a forma mais profunda de pensar. Refletir – ou ler – é a
forma mais profunda de entender. Daí que quem escreve pensa e quem lê reflete.
Ficção
é uma narrativa inconsistente com a realidade. Falam assim os teóricos da
literatura. Ficção, nesse caso, é um conceito dinâmico, já que o fato hoje inconsistente
pode amanhã não ser mais. Um texto escrito há setenta anos, cujo enredo é uma
eleição presidencial no Brasil, e em que o eleito é conhecido duas horas depois
de encerrada a votação, seria considerado inconsistentíssimo. Ficcional, portanto.
Com
relação ao sistema eleitoral brasileiro, como seria escrever hoje um texto
ficcional? Teria o autor a coragem de substituir urnas eletrônicas por urnas
orgânicas e nos dar a opção de votar envolto em lençóis, visto a cabine eleitoral
estar a um estirar de mãos? Será que vamos poder votar de botecos, nos quais chamaríamos
de mesários os indivíduos que nos atendem?
Bom.
Os fatos a seguir se passam com uma presidente da República. Essa presidente tinha a aprovação de 80% do país, sua
reeleição era dada como favas contadas, mas impetuosa declaração dela fez a
oposição potencializar o açodamento. Resultado: a média das pesquisas assegura
que 59% dos eleitores não votam mais nela.
Agora
peço-lhes cumplicidade na leitura deste conto. Em razão do receio de cair em
armadilhas literárias, optei por omitir algumas informações: entra no conchavo o nome da presidente, o nome
do país e o ano em que os fatos acontecem. Apertemos as mãos?
Alvoroço
no palácio do governo
Meia noite. A presidente dorme. O marido
lê no computador. Meia noite e um minuto. Chega o 1º de março. O marido da presidente se assusta com a estridência do aviso de que acaba de chegar um e-meio.Brincadeira
de extremo mau gosto, pensa, pensando em quem teria enviado tamanho
desatino, já que pouca gente conhece o e-meio dele. Olha pro WhatsApp. O
desatino está nele também. Surpreende-se com a gargalhada no cangote. É a
presidente beijando-lhe a cabeça:
“Acordei
com o barulho do zap. Tá vendo? Feche esses troços e vamos pra cama. Só tenho 15
dias de vida, meu amor. Vou morrer no dia de meu aniversário”, disse a
presidente, dobrando a risada.
A
presidente é da turma que perde o amigo mas não perde a piada. Ri de tudo e de tudo
ri. O eleitorado adora a presidente, pois vê nesses gestos a humana
naturalidade. Mas o voto popular é misterioso: a cinco meses da eleição, a desastrada
declaração da presidente ameaça a tranquila reeleição. A oposição estica a
corda da impensada declaração a um ponto tal que 59% dos eleitores dizem não
votar mais nela, apesar da elevada aprovação de seu governo.
“Você
e suas tiradas. Diverte-se até com o anúncio da própria morte. Isso só pode ter
vindo do Azulão”, especula o marido.
Foi
o que logo pensei. Mas pensa, Gonçalo. O Azulão (o Azulão, gente, é o candidato
da oposição à presidência) é um cabra de peia, mas não é burro. O que o Azulão
ganha dizendo que vou morrer no dia 15? Agora, essas letras alternando a cor formam
um espetáculo e tanto, Gonçalo.
Não
imaginava que fosse tão fácil enviar mensagens sem identificar o remetente. E
quem diabo é Lya? E o que significa missão? É verdade, querida. O Azulão não é
burro, Mas sabe o que estou pensando? Penso que o Azulão jogou uma isca. O
Azulão postou essa merda e aguarda que você divulgue dizendo que ele quer a sua
morte. Aí ele vai alegar que a sua derrota eleitoral é tão esperada que até inventou
uma história para se fazer de vítima e assim ganhar votos de compaixão.
Pode
ser, Gonçalo. Mas o Azulão vai quebrar o focinho. Essa coisa vai ficar só entre
nós três, já que a Viviane precisa descobrir de qual máquina saiu a merda. Quer
saber? Vamos lanchar e cair na cama. Minha morte me deu fomes.
O
plural de fome faz o Gonçalo esboçar um sorriso, mas que logo vai se desfazendo
em razão de um zap da Viviane, a chefe da segurança institucional do palácio
governamental:
Bom
dia, senhora presidente. Vi que a senhora acessou o WhatsApp há meia hora.
Preciso falar com a senhora. Pode ser?
Bom
dia, Viviane. Quero falar com você também. Podemos conversar pela manhã?
É
sobre a mensagem da morte, presidente? Se for, nosso assunto é o mesmo. Precisamos
tratar dele pessoalmente agora. Posso ir aí?
Nossa,
Viviane. Parece nervosa. Como soube da mensagem? Vou pedir que alguém traga você
aos meus aposentos. Pode vir.
Viviane
vai. Conversam por cerca de duas horas. Resumo da conversa:
Viviane
está fechando um relatório, por isso fica até meia noite no palácio. Quando vai
saindo é surpreendida com o barulho na caixa de e-meios. Abre o e-mail,
pesquisa e percebe que a mensagem está também no Facebook e no WhatsApp de
todos os dispositivos eletrônicos do palácio. Dá pouca importância ao caso da
presidente, pois a atenção se volta para algo nunca visto na internet: as
letras, coloridas numa fonte inusitada, mudando de cor num espetáculo
extasiante. Viviane nada descobre sobre o remetente do e-meio. Pior. Aquela
fonte não existe. Sua certeza é corroborada pela IA: “Impossível letras mudarem
de cor em postagens”.
Apesar
disso, os três concordam que a melhor estratégia é a presidente atribuir ao
Azulão a autoria do agouro, tão logo a imprensa noticie o fato. A própria
presidente redige a nota de defesa. Nota pronta, a acusação ao adversário fica apenas
nas entrelinhas, por lógico.
Vamos
dormir, gente. Veremos onde vai dar isso amanhã, diz a presidente.
Dá
pano pra manga â vontade. As redes sociais bombam a notícia. Só perdem para a
repercussão da mensagem do primeiro minuto do dia seguinte, 2 de março. Está na
hora de conhecerem as mensagens. Vejam:
A
do 1º de março:
Senhora
presidente. A senhora precisa conhecer a Lya. A senhora vai morrer no dia 15
deste março.
DC
Deus
A
de 2 de março:
Faltam
13 dias para a senhora morrer, senhora presidente.
DC
Deus
Aqui,
os peritos já estão de queixo no chão pelo inusitado. O povão, porém, se limita
a fazer mangoça nas redes sociais. No 3 de março – no lembrete de que faltam 12
dias – quem fica de queixo no chão e coçando a cabeça é o mundo: descobre-se
que a postagem atual exclui a anterior. Não é simples exclusão. Não fica nos
dispositivos nenhum registro de que houve mensagem anterior.
Simplesmente
impossível, asseguram os donos das digitais. É o fim do mundo, alardeia a
imprensa sensacionalista, pois alguém que engana assim a internet pode muito
bem usá-la para fins criminosos. Ou mesmo extingui-la. Mas quem é esse alguém?
O alguém se chama alienígena, falam abertamente as pessoas que no início da
coisa apenas cochichavam. Da morte da presidente quase não se fala. O foco é a
chegada dos alienígenas. Das manchetes jornalísticas do mundo inteiro, a do norte-americano
USA Today é a mais assustadora: GET OUT. DON'T WAIT TO BE
DEPORTED TO THE BEYOND. A do brasileiríssimo
Tribuna do Norte é jocosa: Ô DE CASA!
É
dispensável descrever o dia a dia de alguém com a morte na porta. Em especial a
morte da presidente da República de um país continental. A presidente oscila
entre o bom humor e a resignação. “Deus está no comando”, diz, na mais eloquente
das ironias. Chega o 15 de março. A mensagem fúnebre é esta:
É
hoje, presidente.
Eu
e a Lya a esperamos de braços abertos.
DC
Deus
Oito
horas da manhã. A imprensa está de plantão no entorno do palácio residencial. A
presidente soluça nos braços do marido, o Gonçalo. Estão apenas os dois na
suíte presidencial. A presidente para de soluçar. Fala rindo:
Vamos
tomar café. A morte não vai gostar de me levar com fome, querido. Gonçalo,
amor, se você for um deles, faça-me a gentileza de me matar sem sofrimento.
Gonçalo
continua circunspecto. Isso mesmo. Gonçalo vive sisudo. A alegria tem ido
embora com a chegada da agenda funesta.
Bom.
Café de frutas. Todas inspecionadas pelo serviço sanitário da presidência, por
lógico. Terminado o café, deitam-se e vão ler a bíblia. Coisa de uma hora:
Tá
me dando umas pontadas na barriga, diz a presidente, correndo pro banheiro.
Deixe
a porta aberta, querida.
Será
que suporta a coisa, Gonçalo? Isso é que é amor, viu?
Dali
a instantes, Gonçalo escuta a presidente imitando Elis Regina. A presidente
adora tomar banho cantarolando Águas de Março: “É pau, é pedra, é o fim do
caminho...” Gonçalo escuta um barulho de queda. Corre. As lágrimas chegam
lentamente: A presidente está estirada no piso do banheiro. Não se mexe. Tem um
galo na testa. A presidente está desacordada. E o alívio. “Nada demais”, diz o serviço
médico do palácio. A presidente fica desacordada em razão das circunstâncias
emocionais. 5 minutinhos e ela volta a si.
Mas
passam 5 minutos, mais 5, mais 5 e nada. Os médicos ficam assustados. Os sinais
vitais estão normalíssimos. Não há sangue na cabeça da presidente. O galo na
testa está sumindo, sinal de que ela bateu apenas de raspão na pia do banheiro.
Os médicos decidem fazer exames complementares. Levam a presidente para um
hospital militar. A imprensa se contorce de orgasmos. Certo instantâneo digital
pergunta:
A
PRESIDENTE MORREU?
Outro
faz o leitor se ligar aos alienígenas com a indagação:
SERÁ
O COMEÇO DO FIM?
Deslumbramento no palácio do céu
A
presidente se vê num deslumbrante jardim, embaixo de exótica e perfumada
árvore. Absorta com tamanha beleza, não percebe um meia-idade se aproximando
dela:
“Bem-vinda
ao céu, presidente’, diz o meia-idade, beijando-lhe a face. Sou o Jesus. O
paizão a espera no Departamento Cristão. Acompanhe-me. Sou o caminho
A
presidente entra num chalé de piso de areia colorida. Nos fundos, um garoto
dirige uma camionete de madeira:
Olá.
Cadê seu pai, garoto? Você é irmão do Jesus? Sua camionete é linda, viu? E esse PC da placa quer dizer o quê?
Olá,
presidente. Vou lhe dar o beijo de parabéns antes de responder. Chegou jovial e
linda aos cinquenta, filha. PC significa Povo Cristão, presidente. Não. Não sou irmão de Jesus. Sou o pai de
Jesus.
A
presidente despeja incontida gargalhada. Fala com sobejos de risos:
Como
assim. Você é um garoto. Como pode ser pai de um bonitão daqueles?
Não
sou um garoto, filha. Sou como você quis me ver. Ou diferente de como
acostumou-se a me imaginar. Acontece que filhos e filhas botaram na cabeça que
sou um ser masculino, ancião de barba branca e morador de um mundo suspenso.
Vocês criam nome para as coisas, mas esquecem que esse nome não é a coisa. Você
chamou de camionete aquela coisa ali. Mas aquela coisa não é uma camionete. É o
povo cristão a quem tanto amo.
A
presidente se estremece com a fala do garoto. A ficha da verdade acaba de cair.
Atordoada, só agora percebe que o Jesus que a trouxera ali era realmente Jesus.
As mensagens recebidas no palácio vinham de Deus, sim. Nada a ver com
alienígenas. O colorido das mensagens era igualzinho ao colorido em que estava
pisando. Tudo se encaixava. Deus ia entrevistá-la a fim de saber se a mandaria
pro inferno. Estava morta.
A
presidente se ajoelha e implora:
Misericórdia,
paizão. Saiba que nunca tive maldades no coração. Mas se assim não entender e quiser
me enviar pro inferno, por favor, por tudo que é sagrado, não me jogue no
piscinão. Piscinão, não. Por que me matou, paizão?
É
a vez do paizão cair na risada.
Não,
filha. Você não morreu. Está aqui porque quero que se torne íntima da Lya a fim
de cumprir especial missão na Terra. Não existe inferno, presidente. Seu temido
piscinão é uma bem bolada piada de vocês. Só não sei se a sua versão é a que
conheço. Conte a sua. Adoro piadas. Piadas são prenúncios de bom humor. E só tem
bom humor quem é sensível. Por isso é que você não vê déspotas criando piadas
ou rindo das piadas alheias.
É
sério? Deus adora piadas? Assim, paizão. Um boêmio morre. Aí você, o senhor, quero
dizer, o acolhe. Acontece que o boêmio não se acostuma com a quietude daqui e pede
que o senhor o transfira para o vizinho.
Aqui
é um saco, senhor. É tudo muito parado, morgadão. No vizinho é uma animação só.
Vivo escutando a gritaria da galera avisando “lá vem ela, lá vem ela, lá vem
ela”. Deve ser uma gostosa e tanto, né? Já tentei escalar o muro, mas não
consegui. O senhor pode pedir que um anjo me deixe lá?
Deixar,
não, diz você, o senhor, quero dizer. Mas posso mandar os anjos jogá-lo por
cima do muro. Ali é o inferno, sabia? Ninguém mora aqui contra a vontade, filho.
Jogaram. O infeliz cai de mergulho num piscinão. Mal levanta a cabeça, escuta o
“lá vem ela, lá vem ela” e mergulha de novo. Era uma onda de 5 metros de merda.
Passam dois minutinhos e eis que volta a gritaria do lá vem ela, lá vem ela. Essa
é versão que você, senhor, quero dizer, conhece?
É,
querida. Falta só o “deu merda”. É assim que vocês falam quando um plano dá
errado. Bem. Vamos pra Lya. Quero que a conheça bem.
Ah,
paizão. Pensava que a Lya fosse uma anja. É esse pé de pau? Fiquei um tempo
debaixo dele. É esplendoroso e perfumado. Bem cuidado, viu? Amei a arquitetura.
Esse galhão na vertical que parece não ter fim é um espetáculo à parte. Os dois
ramos no topo parecem orelhas. Por que Lya, paizão?
Este
pé de pau simboliza a origem do mundo, amada presidente. Esta árvore chama-se
liberdade. Fui eu que a plantei. Lya é a expressão de meu amor por ela. Jesus é
quem cuida da Lya.
Sabe,
paizão, estou fazendo um esforço danado para me convencer de que não morri, mas,
mas...
Mas
o quê, filha? Você está viva, criatura. Está no Departamento Cristão. Ali pro
oeste ficam o Departamento Islâmico e o Budista. São vizinhos. Pro leste ficam os
menores. Dou expediente em todos, querida. Sou Deus. Sou o criador do universo,
lembre-se.
Mas,
mas, mas... Veja só. O senhor diz que é o criador do universo. Tudo bem. Mas o
Budas, o Maomé, e o próprio Jesus, eles, eles, em certo sentido, não são Deus
também, não? E o Allah? Não é Deus não, é?
Filha,
filha, o Allah é tido como o Deus dos muçulmanos, é certo. Mas Jesus e o Maomé
foram profetas. Deus, porém, só existe eu. Já imaginou a confusão que daria com
três, quatro, cinco criaturas criando o mundo? Sou o Deus único porque somente
eu, Deus, fui capaz de criar os humanos por meio da liberdade. O Budas, amada,
criou o budismo, assim como o Jesus criou o cristianismo e o Maomé criou o
islamismo. Cada um usando a liberdade que eu lhes havia proporcionado, mas a
interpretando de formas diferentes.
Juro,
paizão, juro, mas não estou entendendo bulhufas do que está me dizendo.
Liberdade é liberdade e ponto final. O Maomé, por exemplo, não deixa a mulherada
mostrar um centímetro de coxa. Se isso for liberdade, sou obrigada a admitir
que açoitar também é. Outra coisa. Se o paizão plantou o pé da liberdade, a
Lya, donde pegou a semente? Mais uma, paizão. Qual é a sua religião?
Peguei
a semente da Lya em virtude da liberdade que dei ao caos. Não tenho religião. Minha
religião é o incondicional amor que acompanha vocês, amada.
Imaginem
a gargalhada da presidente. Deus sem religião? Liberdade ao caos? A presidente
chorou de tanto rir. O paizão riu de volta e explicou:
Filha
amada, deixe-me lhe explicar umas coisinhas. Fique à vontade para me
interromper, tá? Começo desfazendo um equívoco dos humanos. É equivocada a
ideia de que o caos é a origem de tudo. Não. A natureza veio antes do caos. Agora,
o que veio antes da natureza só posso lhe revelar quando você morrer. No caos,
querida, já existiam insetos, riachos, tempestades, essas coisas. E outras. Mas
era uma bagunça completa. Nada respeitava nada. Do nada brigavam.
Eu
era um caoszinho, é evidente. Então pensei em pôr ordem na bagunça. Uma
catitinha se encontrava com outra, por exemplo, ficavam se encarando, já que
nenhuma delas queria ceder a passagem à outra. Comecei a domesticá-las no
sentido de que uma podia deixar livre um dos lados a fim de que a colega
passasse. “Libere um lado”, dizia. Deu certo. Aí abreviei o “libere um lado”
para liberado. Tempos depois as brigas desapareceram. Sem brigas, o caos foi se
entediando e cedeu lugar ao cosmos. Esse fenômeno me fez substituir o liberado
por liberdade. Curiosidade. As formigas foram as últimas a aceitar a
convivência pacífica. Ainda hoje, ao ficarem frente a frente, demoram um
tempinho se encarando antes de se desviarem.
O
cosmos, amada, era cheiroso, harmônico, florescente. Eu não podia ser o único a
contemplar aquele espetáculo. Precisava criar um ser a fim de compartilhar tamanha
emoção. Então peguei uma plantinha, dei-lhe o nome de liberdade e criei os
libertários. Milênios passados, vocês se rebatizaram para humanos, o que
adorei, acrescento.
Então. Sempre de olho na plantinha, a
liberdade, comecei a operação de criar os libertários. Primeira providência foi
escolher a Terra como morada deles. Escolha feita, levei pra lá 12 primatinhos
e 12 primatinhas, na casa dos 18 anos, ungi-os de dignidade, bravura e
injetei-lhes no sexo o prazer supremo. Eu estava preservando a espécie libertária,
haja vista o caráter insaciável do prazer supremo.
Agora,
amada, note o nivelamento dos dois primeiros galhos da Lya. Essa dupla
representa o conhecimento e o interesse. O conhecimento é o suporte de tudo. Nenhum
libertário iria nascer sabendo, não é verdade? Então dei aos primatinhos o
saber primário a fim de que o conhecimento fosse repassado para a espécie. Ocorre
que, por si só, o conhecimento não faz nada acontecer. É o segundo galho, o interesse,
que fez a vida dos libertários florescer de verdade. Desses dois galhos brotaram
ramos, flores, folhas e nervuras que ora lhe enchem de prazer. Ramos, flores,
folhas e nervuras representam o que vocês foram achando necessário para viver.
E tudo graças à liberdade criativa brotada de mim. Tudo de produtivo, amada, se
deve à liberdade. E tudo de destrutivo se deve à deturpação da liberdade.
Nossa,
paizão. Sabe tudo, viu? Você foi genial. Agradeço em nome dos humanos.
O amor não pede agradecimento, querida. Bom. Vou
desfazer mais um equívoco humano. O da existência do inferno que você tanto
temia ao chegar aqui. Criei vocês em razão de um propósito, o do compartilhamento
da emoção emanada do cosmos. Para criá-los, usei o princípio da liberdade. Você
e seus irmãos são livres, independentes, autônomos. A liberdade é inegociável. A liberdade é o meu
amor por vocês. Daí que os humanos são a minha semelhança. Vocês são eu. É
absurdo incomparável julgar que condicionei liberdades a vontades minhas. Que
liberdade é essa, querida? Seria eu o crápula-mor do universo? Desminto,
portanto, a sequência maligna: nem pecado, nem punição, nem inferno.
Sabe,
paizão, uma coisinha não se encaixa na sua fala. Se não existe pecado - e você é
Deus único - por que cargas d’água você não interfere naquela região onde a
mulherada não pode mostrar um palmo de coxa? Elas vivem assim por que têm medo
de pecar, não é verdade? Então aquela mulherada não goza da liberdade. Estou
certa, paizão?
Querida
presidente. Precisa analisar a estrutura social da região. O Maomé criou aquele
perfil de comportamento há cerca de 1300 anos. Outros tempos, outras
realidades. No coletivo, foi aquele condicionamento que acabou se instalando
como liberdade. Agora, quando você compara a sua liberdade com a daquelas moças
vê um absurdo sem limites. Da mesma forma que as moças de lá acham um absurdo
você se espichar praticamente pelada na areia das praias. Preciso respeitar a
liberdade do povo daquela região. Mas está certíssima quando põe o medo como fogo
do pecado. Botar o medo do inferno nos seguidores é prática comum nas religiões.
Seja por nociva estratégia de certos líderes religiosos, seja pela aceitação
ingênua de muitos praticantes.
A
pergunta que deve se fazer, amada, é a razão pela qual inúmeros indivíduos não
temem o suposto pecado. A resposta é simplória e risível: liberdade. Esses
indivíduos têm a liberdade de não acreditarem na existência do inferno.
Nossa.
Posso inferir da sua fala, paizão, que você é contra as religiões?
Não
sou contra religião nenhuma, filha. São abençoados os ritos, dogmas, eventos,
cânticos, seja lá o que for, que ajudem os assíduos dessas práticas a se
conectar comigo. Mas esses fiéis devem ficar cientes de que tais procedimentos
são dispensáveis. Mais: fiquem de olhos abertos nos camelôs da fé. Esse camelô
faz muitos adeptos sacrificarem o bem-estar, por vezes até o familiar, para obter
lucro, mas nem sempre o monetário. Você prepara supimpa garoupa, aí chega o
camelô e lhe diz que só na garoupa do restaurante dele é que você terá a
satisfação plena. Mesma garoupa, mesmo tempero. Mas você vai pro restaurante.
Sabe,
querida, venho notando a sua afeição pelos temas religiosos. Acredito que
algumas coisas deixam a sua cabecinha com dúvidas. Não sou contra religiões, já
disse. Grave isto: não posso ser contra nada, posto eu ter dado aos humanos a
liberdade de tudo. Agora, nem tudo goza da minha aprovação. Desaprovo o
preceito islâmico de obrigar as muçulmanas a se vestirem assim, assim e assim,
assim como desaprovo o preceito cristão de as cristãs não comerem isso, isto e
aquilo em determinados dias. Em resumo, aprovo a espontânea prática de crenças
religiosas, mas desaprovo a obrigação moral e o dever sagrado impostos por essas
crenças.
Mudemos
de assunto. Você tem ideia do que simboliza na Lya o galhão vertical que lhe pareceu
não ter fim?
Amor?
Não, espere, espere. Razão, já que somos racionais?
Não.
Vocês são racionais, sim, mas são primariamente emocionais. Esse galho é o da
emoção. Precisei criar os libertários a partir da emoção a fim de que sentissem
o que eu estava sentindo em virtude do cosmos. Resultado disso é que todas as
atitudes humanas são decididas pelo emocional. Quando não a emoção instantânea,
mas, por certo, a esperada no desfecho da atitude.
Os
dois ramos do galho da emoção que, na sua avaliação, parecem orelhas, querida, representam
os locais da vida.
O
ramo da nossa esquerda chama-se consciente. É por intermédio dele que você
pensa, percebe, namora. Esse ramo é a vida material.
O
ramo da direita chama-se inconsciente. Nele estão arquivadas suas memórias de
longo prazo, suas experiências ficcionais, seus desejos secretos. Todos os
registros de sua vida, enfim. E o primeiro registro desse ramo sou eu. Esse
ramo é a vida espiritual.
É
naquele ramo ali, ó, o ramo do inconsciente, onde os humanos me encontram. E,
como lhe disse, amada, não cobro rituais, sacrifícios; não exijo formalidades, cerimônias;
não peço fidelidade, constância; não solicito religião, adoração. E não me
interessa a hora e o lugar. Só espero que viajem ao fundo da alma, nutram-se de
fé, dispam-se de preconceitos; desfaçam-se do egoísmo. De ruídos ouçam apenas o
do coração. Procurem-me e os orientarei. Por vezes, nem precisam pedir. O
silencio da súplica é suficiente para eu escutar o grito da angústia.
Não
há mistério no socorrer. Sou o registro inaugural do nascimento humano. Sou a presença
infinita que vive no inconsciente de vocês. Sou a presença infinita que sabe
tudo sobre tudo e sobre todos. Estou pronto para guiá-los, curá-los, protegê-los.
Mas alguns humanos usam a liberdade egoísta para me ignorar. Verdade, querida. Existem
irmãos seus que vivem feitos sabugos do caos egoísta. São seres sinistros.
Tiram a liberdade da própria sombra. Jogaram no lixo a compaixão que lhes dei
com tanto amor. Deixam-me triste, esbravejo e tal, mas não os posso punir, tampouco
corrigi-los, já que a eles concedi a liberdade.
Paizão,
paizão, você é o cão chupando manga, realmente. Ah, paizão, desculpa, desculpa.
Perdoe-me, paizão. Você me perdoa? É que acho nossa conversa tão informal que chego
a duvidar, duvidar, duvidar...
Entendo
a sua oralidade, filha. Normalíssimo duvidar deste presente. Duvidar é
liberdade pura. De tanto falar em liberdade, permita-me uma provocação. O que
você entende por liberdade? Qual é a sua liberdade?
Ah,
paizão. Minha liberdade é eu não fazer com os outros o que espero que não façam
comigo.
Isso
é tão só um cheirinho de liberdade, presidente. Precisa abrir o frasco. Abra-o
e sentirá cheiros diversos. Abra o do costume. Viver é se acostumar. O costume
forma cultura, que vira liberdade. Lá na frente, essa liberdade pode ser
invalidada pelo sistema de leis de cada país. Vou ilustrar com uma coisinha bem
atual. A proibição do celular em sala de aula.
Veja.
O celular é um costume universal. Chegou à sala de aula. Considere, querida, a
educação uma necessidade coletiva. Considere, ainda, que o uso do celular em
sala de aula tira a concentração do aluno e da professora. Conclusão: a
liberdade de usar o celular ali é nociva. Então, em nome do bem comum, o
sistema de leis de vários países extinguiu o uso do celular no decorrer da
aula. Nada mais justo.
Um
cheirinho alternativo, presidente. O aluno está na sala de aula com o celular,
silencioso, na mochila. Ele tem a liberdade de portá-lo, certo? Mas, de vez em
quando, esse aluno dá uma corujada nele. Pode ser para se divertir ou para pesquisar
alguma coisa. Qual é o problema? O problema é que o professor entende que esse
aluno não está prestando atenção na aula. Solução: proibir o uso do celular, já
que o celular inibe a liberdade de o professor ensinar.
Pergunto:
o aluno tirou a liberdade do professor ou o professor apenas se sentiu
desconfortável com a situação? Ser interrompido por alguém é uma atitude
desconfortável para o falante, mas não significa tirar a liberdade de o falante
se expressar. A vida é dinâmica, querida. Não fazer com os outros o que espera
que não façam com você é uma expressão vaga. É apenas um desconforto, no mais
das vezes. E desconfortos acontecem frequentemente. O aluno pode estar usando o
celular porque está se sentindo desconfortável com a chatice da aula. Se a
postura do professor – pessoal e pedagógica – for de estimulante interesse,
será que não faria o aluno jogar a mochila pra debaixo da cadeira e aboticar os
olhos pro professor? Enfim, presidente, será que não é o aluno quem está com a
liberdade ferida por causa da proibição de ele usar algo legitimamente seu?
Certo
é, querida presidente, que dos galhos conhecimento e interesse brotaram bilhões
de “coisinhas”. A vida tornou-se a
maravilha de hoje, mas vocês ficaram perdidos num emaranhado de liberdades e de
não liberdades. A liberdade virou um artigo de segunda mão. Mas estou pronto
para fazê-los entendê-la e para recolocá-la no nobre e primeiro ato da vida. Procurem-me.
Procurei
você, amada, a fim de lhe explicar misteriosa faceta da liberdade, ao mesmo
tempo em que a nomeio para especialíssima missão na terra.
Paizão,
paizão, não estou entendendo nada. Você me procurou? Missão? Quanta honra. Que
devo fazer, paizão?
Não
fará nada, filha. Fará só a população sentir.
Agora
torou dentro. Ah, paizão, desculpa, desculpa. Desculpa de novo, tá?
Está
desculpada, filha. Preste atenção. Forcei a barra a fim de deixá-la neste estágio
do inconsciente para que bem internalizasse a divina liberdade por intermédio
da Lya. Deve se lembrar das mensagens que lhe enviei em nome do Departamento
Cristão, o DC.
Sim,
sim. Lembrei-me quando aqui cheguei. Pensava que estava morta. Que faceta da liberdade
falta você me explicar, paizão?
Tem
a ver com a tragédia das 28 crianças carbonizadas naquela creche, filha. Você se
expressou assim nas redes sociais:
“Que
espécie de Deus é essa que deixa 28 crianças de 7 a 9 anos morrerem queimadas? Podia
ter evitado. Não é Deus. É o diabo. Desconjuro esse Deus”.
Aí
vieram as reações: “Era o destino das crianças, Deus sabe o que faz, chegou o
dia delas”, essas coisas.
Mas
você podia ter evitado, não podia, paizão?
Posso
tudo, filha. Mas não devia. Sabe por quê?
Não
sei, paizão. Quero saber, sim. Mas agora quero saber, se não vou explodir de
ansiedade, como enviou as mensagens agendando a minha morte. Quem postava
aquilo, paizão? Deixou o mundo em polvorosa, pois achavam que era coisa dos alienígenas.
Ninguém
postava nada, querida. Entenda. Os humanos podem fazer o que quiserem, mas
apenas eu posso querer o que quero. Eu queria que o seu palácio lesse aquelas
mensagens. Então fiz o consciente de vocês enxergarem o que eu queria. Em seguida,
dei-lhe um empurrãozinho no banheiro. Os médicos estão assombrados com a sua demorada
inconsciência, mas você está com toda a inconsciência consciente. Simples, não?
Por
que não evitei a tragédia? Porque estaria quebrando a simetria da liberdade.
Estaria abrindo o precedente do privilégio. As crianças daquela creche não eram
melhores do que as que já morreram ou vão morrer em condições similares. Adoro
você e todos os humanos com a mesma intensidade, filha. Isso nos leva à criança
que escorregou na entrada da creche, fraturou a perninha, hospitalizou-se e assim
livrou-se de morrer queimada. Livramento, disseram, na presunção de que eu interferira
no salvamento da Paulinha. Por que teria eu um amor maior pela Paulinha?
Acontece,
filha, e aqui entra a faceta da qual lhe falei... Acontece que naquela tragédia
houve o uso de liberdades transgressoras. O sistema de gás explodiu porque a
creche usou a liberdade do descaso. O sistema de extintores não funcionou
porque a creche usou a liberdade da displicência. Não existia a porta nos
fundos da creche porque a creche usou a liberdade da imprudência.
As
tragédias acontecem – todas, filha - por meio do uso de liberdades desse nível.
Os humanos não têm ideia dos riscos que os acompanham diariamente. Vocês são inteligentíssimos
no usufruir da folhagem do conhecimento, mas estupidíssimos no combinar as
folhas do interesse. O urubu causar uma tragédia aérea não entra na insensatez
dos humanos, por óbvio, mas entra na liberdade, sim. Tudo no universo é regido,
presidente, pela liberdade outorgada por mim. Ocorre que o urubu não conhece a
Lya. A árvore do urubu é de outra natureza. Daí que a liberdade dele se situa
em patamar distinto da dos humanos. Entendeu tudo, amada presidente?
Entendi
tudo. É tudo muito lógico. Mas tudo muito louco, paizão. Bom. Pelo que entendi,
minha missão será difundir essas coisas. Agora, quem vai acreditar que me
encontrei com você, paizão?
Sua
missão será, sim, explicar o poder divino da liberdade. Você não precisa
informar que se encontrou comigo, amada. O povo vai sentir esse encontro, da
mesma forma que vai absorver a sabedoria que involuntariamente você vai
transmitir.
Vou
lhe dar uma coisinha, disse o paizão, pegando da Lya uma frutinha colorida.
Tome. O gostinho nunca sairá de sua boca. Autêntico
maná. Pegue. chupe, criatura.
Euforia no palácio da saúde
Vejam,
vejam, disse o médico chefe ao notar a presidente mexendo os lábios. Não passaram
3 minutos para a presidente se sentar na cama:
Nossa.
Deem-me uma taça de vinho. Mexam-se.
Calma,
presidente. Não tem vinho aqui. A senhora está no hospital.
Será
que não sei, é? Cadê o Gonçalo? Ah, Gonçalo, vamos pro palácio, amor.
Vamos
já, querida. Dr. Osair deve fazer alguns procedimentos protocolares antes de
liberá-la.
Agora
imaginem mais um orgasmo jornalístico na saída do hospital.
Calma,
gente. Não precisa se atropelarem. Vou resumir os acontecimentos. Bom. Tomamos
café, eu e o Gonçalo, dali a um tempo sinto umas pontadas na barriga. Normal,
avalio, sem ligar o fato às postagens de Deus. Então. Fui tomar banho. Termino
o banho, vou pegar a toalha, entrelaço os pés e caio. Aí...
Aí...
eu, eu...
Aqui,
a presidente está com a voz embargada. Ela tenta controlar a emoção:
Aí...
aí... aí me vi...
Aqui,
a presidente já chora. Faz uma pausa e nova tentativa de controle.
Me
vi, me vi...
Aqui,
a presidente está aos prantos. A algazarra da imprensa se transforma em respeitoso
silêncio. Algumas pessoas também choram.
A
presidente não tem condições de falar. Gonçalo abraça a presidente e a leva pro
carro. Mas o silêncio fica.
O
Estadão foi preciso:
SILÊNCIO
TRANSCENDENTAL
No
2 do 25,
TC
2 comentários:
Parabéns, Tião! Muito criativa, e curiosa esta crônica. Um misto de ficção e realidade. Repleta de conceitos reais, nada de transcendentais...
Boa tarde meu amigo Tia!. Muito bom. Genial!
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