segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Silêncio transcendental

 



Inquietação no palácio da literatura

 

Transcender é exceder em alguma qualidade. É elevar-se. É ir além dos limites. Mas, calma, muita calma, nada existe de elevado nesta prosa. A menos que considere elevado o acúmulo de mesmices.

Ficcionar não é enrolar. Ficcionar é pensar. E pensar não é o mesmo que refletir. Ficcionar – ou escrever – é a forma mais profunda de pensar. Refletir – ou ler – é a forma mais profunda de entender. Daí que quem escreve pensa e quem lê reflete.

Ficção é uma narrativa inconsistente com a realidade. Falam assim os teóricos da literatura. Ficção, nesse caso, é um conceito dinâmico, já que o fato hoje inconsistente pode amanhã não ser mais. Um texto escrito há setenta anos, cujo enredo é uma eleição presidencial no Brasil, e em que o eleito é conhecido duas horas depois de encerrada a votação, seria considerado inconsistentíssimo. Ficcional, portanto.

Com relação ao sistema eleitoral brasileiro, como seria escrever hoje um texto ficcional? Teria o autor a coragem de substituir urnas eletrônicas por urnas orgânicas e nos dar a opção de votar envolto em lençóis, visto a cabine eleitoral estar a um estirar de mãos? Será que vamos poder votar de botecos, nos quais chamaríamos de mesários os indivíduos que nos atendem?

Bom. Os fatos a seguir se passam com uma presidente da República. Essa presidente tinha a aprovação de 80% do país, sua reeleição era dada como favas contadas, mas impetuosa declaração dela fez a oposição potencializar o açodamento. Resultado: a média das pesquisas assegura que 59% dos eleitores não votam mais nela.

Agora peço-lhes cumplicidade na leitura deste conto. Em razão do receio de cair em armadilhas literárias, optei por omitir algumas informações:  entra no conchavo o nome da presidente, o nome do país e o ano em que os fatos acontecem. Apertemos as mãos?

 

Alvoroço no palácio do governo

 

Meia noite. A presidente dorme. O marido

lê no computador. Meia noite e um minuto. Chega o 1º de março. O marido da presidente se assusta com a estridência do aviso de que acaba de chegar um e-meio.

Brincadeira de extremo mau gosto, pensa, pensando em quem teria enviado   tamanho desatino, já que pouca gente conhece o e-meio dele. Olha pro WhatsApp. O desatino está nele também. Surpreende-se com a gargalhada no cangote. É a presidente beijando-lhe a cabeça:

“Acordei com o barulho do zap. Tá vendo? Feche esses troços e vamos pra cama. Só tenho 15 dias de vida, meu amor. Vou morrer no dia de meu aniversário”, disse a presidente, dobrando a risada.

A presidente é da turma que perde o amigo mas não perde a piada. Ri de tudo e de tudo ri. O eleitorado adora a presidente, pois vê nesses gestos a humana naturalidade. Mas o voto popular é misterioso: a cinco meses da eleição, a desastrada declaração da presidente ameaça a tranquila reeleição. A oposição estica a corda da impensada declaração a um ponto tal que 59% dos eleitores dizem não votar mais nela, apesar da elevada aprovação de seu governo.

“Você e suas tiradas. Diverte-se até com o anúncio da própria morte. Isso só pode ter vindo do Azulão”, especula o marido.

Foi o que logo pensei. Mas pensa, Gonçalo. O Azulão (o Azulão, gente, é o candidato da oposição à presidência) é um cabra de peia, mas não é burro. O que o Azulão ganha dizendo que vou morrer no dia 15? Agora, essas letras alternando a cor formam um espetáculo e tanto, Gonçalo.

Não imaginava que fosse tão fácil enviar mensagens sem identificar o remetente. E quem diabo é Lya? E o que significa missão? É verdade, querida. O Azulão não é burro, Mas sabe o que estou pensando? Penso que o Azulão jogou uma isca. O Azulão postou essa merda e aguarda que você divulgue dizendo que ele quer a sua morte. Aí ele vai alegar que a sua derrota eleitoral é tão esperada que até inventou uma história para se fazer de vítima e assim ganhar votos de compaixão.

Pode ser, Gonçalo. Mas o Azulão vai quebrar o focinho. Essa coisa vai ficar só entre nós três, já que a Viviane precisa descobrir de qual máquina saiu a merda. Quer saber? Vamos lanchar e cair na cama. Minha morte me deu fomes.

O plural de fome faz o Gonçalo esboçar um sorriso, mas que logo vai se desfazendo em razão de um zap da Viviane, a chefe da segurança institucional do palácio governamental:

Bom dia, senhora presidente. Vi que a senhora acessou o WhatsApp há meia hora. Preciso falar com a senhora. Pode ser?

Bom dia, Viviane. Quero falar com você também. Podemos conversar pela manhã?

É sobre a mensagem da morte, presidente? Se for, nosso assunto é o mesmo. Precisamos tratar dele pessoalmente agora. Posso ir aí?

Nossa, Viviane. Parece nervosa. Como soube da mensagem? Vou pedir que alguém traga você aos meus aposentos. Pode vir.

Viviane vai. Conversam por cerca de duas horas. Resumo da conversa:

Viviane está fechando um relatório, por isso fica até meia noite no palácio. Quando vai saindo é surpreendida com o barulho na caixa de e-meios. Abre o e-mail, pesquisa e percebe que a mensagem está também no Facebook e no WhatsApp de todos os dispositivos eletrônicos do palácio. Dá pouca importância ao caso da presidente, pois a atenção se volta para algo nunca visto na internet: as letras, coloridas numa fonte inusitada, mudando de cor num espetáculo extasiante. Viviane nada descobre sobre o remetente do e-meio. Pior. Aquela fonte não existe. Sua certeza é corroborada pela IA: “Impossível letras mudarem de cor em postagens”.

Apesar disso, os três concordam que a melhor estratégia é a presidente atribuir ao Azulão a autoria do agouro, tão logo a imprensa noticie o fato. A própria presidente redige a nota de defesa. Nota pronta, a acusação ao adversário fica apenas nas entrelinhas, por lógico.

Vamos dormir, gente. Veremos onde vai dar isso amanhã, diz a presidente.

Dá pano pra manga â vontade. As redes sociais bombam a notícia. Só perdem para a repercussão da mensagem do primeiro minuto do dia seguinte, 2 de março. Está na hora de conhecerem as mensagens. Vejam:

A do 1º de março:

Senhora presidente. A senhora precisa conhecer a Lya. A senhora vai morrer no dia 15 deste março.

DC

Deus

A de 2 de março:

Faltam 13 dias para a senhora morrer, senhora presidente.

DC

Deus

Aqui, os peritos já estão de queixo no chão pelo inusitado. O povão, porém, se limita a fazer mangoça nas redes sociais. No 3 de março – no lembrete de que faltam 12 dias – quem fica de queixo no chão e coçando a cabeça é o mundo: descobre-se que a postagem atual exclui a anterior. Não é simples exclusão. Não fica nos dispositivos nenhum registro de que houve mensagem anterior.

Simplesmente impossível, asseguram os donos das digitais. É o fim do mundo, alardeia a imprensa sensacionalista, pois alguém que engana assim a internet pode muito bem usá-la para fins criminosos. Ou mesmo extingui-la. Mas quem é esse alguém? O alguém se chama alienígena, falam abertamente as pessoas que no início da coisa apenas cochichavam. Da morte da presidente quase não se fala. O foco é a chegada dos alienígenas. Das manchetes jornalísticas do mundo inteiro, a do norte-americano USA Today é a mais assustadora: GET OUT. DON'T WAIT TO BE DEPORTED TO THE BEYOND.  A do brasileiríssimo Tribuna do Norte é jocosa: Ô DE CASA!

É dispensável descrever o dia a dia de alguém com a morte na porta. Em especial a morte da presidente da República de um país continental. A presidente oscila entre o bom humor e a resignação. “Deus está no comando”, diz, na mais eloquente das ironias. Chega o 15 de março. A mensagem fúnebre é esta:

 

É hoje, presidente.

Eu e a Lya a esperamos de braços abertos.

DC

Deus

 

Oito horas da manhã. A imprensa está de plantão no entorno do palácio residencial. A presidente soluça nos braços do marido, o Gonçalo. Estão apenas os dois na suíte presidencial. A presidente para de soluçar. Fala rindo:

Vamos tomar café. A morte não vai gostar de me levar com fome, querido. Gonçalo, amor, se você for um deles, faça-me a gentileza de me matar sem sofrimento.

Gonçalo continua circunspecto. Isso mesmo. Gonçalo vive sisudo. A alegria tem ido embora com a chegada da agenda funesta.

Bom. Café de frutas. Todas inspecionadas pelo serviço sanitário da presidência, por lógico. Terminado o café, deitam-se e vão ler a bíblia. Coisa de uma hora:

Tá me dando umas pontadas na barriga, diz a presidente, correndo pro banheiro.

Deixe a porta aberta, querida.

Será que suporta a coisa, Gonçalo? Isso é que é amor, viu?

Dali a instantes, Gonçalo escuta a presidente imitando Elis Regina. A presidente adora tomar banho cantarolando Águas de Março: “É pau, é pedra, é o fim do caminho...” Gonçalo escuta um barulho de queda. Corre. As lágrimas chegam lentamente: A presidente está estirada no piso do banheiro. Não se mexe. Tem um galo na testa. A presidente está desacordada. E o alívio. “Nada demais”, diz o serviço médico do palácio. A presidente fica desacordada em razão das circunstâncias emocionais. 5 minutinhos e ela volta a si.  

Mas passam 5 minutos, mais 5, mais 5 e nada. Os médicos ficam assustados. Os sinais vitais estão normalíssimos. Não há sangue na cabeça da presidente. O galo na testa está sumindo, sinal de que ela bateu apenas de raspão na pia do banheiro. Os médicos decidem fazer exames complementares. Levam a presidente para um hospital militar. A imprensa se contorce de orgasmos. Certo instantâneo digital pergunta:

A PRESIDENTE MORREU?  

Outro faz o leitor se ligar aos alienígenas com a indagação:

SERÁ O COMEÇO DO FIM?

 

Deslumbramento no palácio do céu

 

A presidente se vê num deslumbrante jardim, embaixo de exótica e perfumada árvore. Absorta com tamanha beleza, não percebe um meia-idade se aproximando dela:

“Bem-vinda ao céu, presidente’, diz o meia-idade, beijando-lhe a face. Sou o Jesus. O paizão a espera no Departamento Cristão. Acompanhe-me. Sou o caminho

A presidente entra num chalé de piso de areia colorida. Nos fundos, um garoto dirige uma camionete de madeira:

Olá. Cadê seu pai, garoto? Você é irmão do Jesus? Sua camionete é linda, viu?  E esse PC da placa quer dizer o quê?

Olá, presidente. Vou lhe dar o beijo de parabéns antes de responder. Chegou jovial e linda aos cinquenta, filha. PC significa Povo Cristão, presidente.  Não. Não sou irmão de Jesus. Sou o pai de Jesus.

A presidente despeja incontida gargalhada. Fala com sobejos de risos:

Como assim. Você é um garoto. Como pode ser pai de um bonitão daqueles?

Não sou um garoto, filha. Sou como você quis me ver. Ou diferente de como acostumou-se a me imaginar. Acontece que filhos e filhas botaram na cabeça que sou um ser masculino, ancião de barba branca e morador de um mundo suspenso. Vocês criam nome para as coisas, mas esquecem que esse nome não é a coisa. Você chamou de camionete aquela coisa ali. Mas aquela coisa não é uma camionete. É o povo cristão a quem tanto amo.

A presidente se estremece com a fala do garoto. A ficha da verdade acaba de cair. Atordoada, só agora percebe que o Jesus que a trouxera ali era realmente Jesus. As mensagens recebidas no palácio vinham de Deus, sim. Nada a ver com alienígenas. O colorido das mensagens era igualzinho ao colorido em que estava pisando. Tudo se encaixava. Deus ia entrevistá-la a fim de saber se a mandaria pro inferno. Estava morta.

A presidente se ajoelha e implora:

Misericórdia, paizão. Saiba que nunca tive maldades no coração. Mas se assim não entender e quiser me enviar pro inferno, por favor, por tudo que é sagrado, não me jogue no piscinão. Piscinão, não. Por que me matou, paizão?

É a vez do paizão cair na risada.

Não, filha. Você não morreu. Está aqui porque quero que se torne íntima da Lya a fim de cumprir especial missão na Terra. Não existe inferno, presidente. Seu temido piscinão é uma bem bolada piada de vocês. Só não sei se a sua versão é a que conheço. Conte a sua. Adoro piadas. Piadas são prenúncios de bom humor. E só tem bom humor quem é sensível. Por isso é que você não vê déspotas criando piadas ou rindo das piadas alheias.

É sério? Deus adora piadas? Assim, paizão. Um boêmio morre. Aí você, o senhor, quero dizer, o acolhe. Acontece que o boêmio não se acostuma com a quietude daqui e pede que o senhor o transfira para o vizinho.

Aqui é um saco, senhor. É tudo muito parado, morgadão. No vizinho é uma animação só. Vivo escutando a gritaria da galera avisando “lá vem ela, lá vem ela, lá vem ela”. Deve ser uma gostosa e tanto, né? Já tentei escalar o muro, mas não consegui. O senhor pode pedir que um anjo me deixe lá?

Deixar, não, diz você, o senhor, quero dizer. Mas posso mandar os anjos jogá-lo por cima do muro. Ali é o inferno, sabia? Ninguém mora aqui contra a vontade, filho. Jogaram. O infeliz cai de mergulho num piscinão. Mal levanta a cabeça, escuta o “lá vem ela, lá vem ela” e mergulha de novo. Era uma onda de 5 metros de merda. Passam dois minutinhos e eis que volta a gritaria do lá vem ela, lá vem ela. Essa é versão que você, senhor, quero dizer, conhece?

É, querida. Falta só o “deu merda”. É assim que vocês falam quando um plano dá errado. Bem. Vamos pra Lya. Quero que a conheça bem.

Ah, paizão. Pensava que a Lya fosse uma anja. É esse pé de pau? Fiquei um tempo debaixo dele. É esplendoroso e perfumado. Bem cuidado, viu? Amei a arquitetura. Esse galhão na vertical que parece não ter fim é um espetáculo à parte. Os dois ramos no topo parecem orelhas. Por que Lya, paizão?

Este pé de pau simboliza a origem do mundo, amada presidente. Esta árvore chama-se liberdade. Fui eu que a plantei. Lya é a expressão de meu amor por ela. Jesus é quem cuida da Lya.

Sabe, paizão, estou fazendo um esforço danado para me convencer de que não morri, mas, mas...

Mas o quê, filha? Você está viva, criatura. Está no Departamento Cristão. Ali pro oeste ficam o Departamento Islâmico e o Budista. São vizinhos. Pro leste ficam os menores. Dou expediente em todos, querida. Sou Deus. Sou o criador do universo, lembre-se.

Mas, mas, mas... Veja só. O senhor diz que é o criador do universo. Tudo bem. Mas o Budas, o Maomé, e o próprio Jesus, eles, eles, em certo sentido, não são Deus também, não? E o Allah? Não é Deus não, é?

Filha, filha, o Allah é tido como o Deus dos muçulmanos, é certo. Mas Jesus e o Maomé foram profetas. Deus, porém, só existe eu. Já imaginou a confusão que daria com três, quatro, cinco criaturas criando o mundo? Sou o Deus único porque somente eu, Deus, fui capaz de criar os humanos por meio da liberdade. O Budas, amada, criou o budismo, assim como o Jesus criou o cristianismo e o Maomé criou o islamismo. Cada um usando a liberdade que eu lhes havia proporcionado, mas a interpretando de formas diferentes.

Juro, paizão, juro, mas não estou entendendo bulhufas do que está me dizendo. Liberdade é liberdade e ponto final. O Maomé, por exemplo, não deixa a mulherada mostrar um centímetro de coxa. Se isso for liberdade, sou obrigada a admitir que açoitar também é. Outra coisa. Se o paizão plantou o pé da liberdade, a Lya, donde pegou a semente? Mais uma, paizão. Qual é a sua religião?

Peguei a semente da Lya em virtude da liberdade que dei ao caos. Não tenho religião. Minha religião é o incondicional amor que acompanha vocês, amada.

Imaginem a gargalhada da presidente. Deus sem religião? Liberdade ao caos? A presidente chorou de tanto rir. O paizão riu de volta e explicou:

Filha amada, deixe-me lhe explicar umas coisinhas. Fique à vontade para me interromper, tá? Começo desfazendo um equívoco dos humanos. É equivocada a ideia de que o caos é a origem de tudo. Não. A natureza veio antes do caos. Agora, o que veio antes da natureza só posso lhe revelar quando você morrer. No caos, querida, já existiam insetos, riachos, tempestades, essas coisas. E outras. Mas era uma bagunça completa. Nada respeitava nada. Do nada brigavam.

Eu era um caoszinho, é evidente. Então pensei em pôr ordem na bagunça. Uma catitinha se encontrava com outra, por exemplo, ficavam se encarando, já que nenhuma delas queria ceder a passagem à outra. Comecei a domesticá-las no sentido de que uma podia deixar livre um dos lados a fim de que a colega passasse. “Libere um lado”, dizia. Deu certo. Aí abreviei o “libere um lado” para liberado. Tempos depois as brigas desapareceram. Sem brigas, o caos foi se entediando e cedeu lugar ao cosmos. Esse fenômeno me fez substituir o liberado por liberdade. Curiosidade. As formigas foram as últimas a aceitar a convivência pacífica. Ainda hoje, ao ficarem frente a frente, demoram um tempinho se encarando antes de se desviarem.

O cosmos, amada, era cheiroso, harmônico, florescente. Eu não podia ser o único a contemplar aquele espetáculo. Precisava criar um ser a fim de compartilhar tamanha emoção. Então peguei uma plantinha, dei-lhe o nome de liberdade e criei os libertários. Milênios passados, vocês se rebatizaram para humanos, o que adorei, acrescento.

 Então. Sempre de olho na plantinha, a liberdade, comecei a operação de criar os libertários. Primeira providência foi escolher a Terra como morada deles. Escolha feita, levei pra lá 12 primatinhos e 12 primatinhas, na casa dos 18 anos, ungi-os de dignidade, bravura e injetei-lhes no sexo o prazer supremo. Eu estava preservando a espécie libertária, haja vista o caráter insaciável do prazer supremo.

Agora, amada, note o nivelamento dos dois primeiros galhos da Lya. Essa dupla representa o conhecimento e o interesse. O conhecimento é o suporte de tudo. Nenhum libertário iria nascer sabendo, não é verdade? Então dei aos primatinhos o saber primário a fim de que o conhecimento fosse repassado para a espécie. Ocorre que, por si só, o conhecimento não faz nada acontecer. É o segundo galho, o interesse, que fez a vida dos libertários florescer de verdade. Desses dois galhos brotaram ramos, flores, folhas e nervuras que ora lhe enchem de prazer. Ramos, flores, folhas e nervuras representam o que vocês foram achando necessário para viver. E tudo graças à liberdade criativa brotada de mim. Tudo de produtivo, amada, se deve à liberdade. E tudo de destrutivo se deve à deturpação da liberdade.

Nossa, paizão. Sabe tudo, viu? Você foi genial. Agradeço em nome dos humanos.

 O amor não pede agradecimento, querida. Bom. Vou desfazer mais um equívoco humano. O da existência do inferno que você tanto temia ao chegar aqui. Criei vocês em razão de um propósito, o do compartilhamento da emoção emanada do cosmos. Para criá-los, usei o princípio da liberdade. Você e seus irmãos são livres, independentes, autônomos.  A liberdade é inegociável. A liberdade é o meu amor por vocês. Daí que os humanos são a minha semelhança. Vocês são eu. É absurdo incomparável julgar que condicionei liberdades a vontades minhas. Que liberdade é essa, querida? Seria eu o crápula-mor do universo? Desminto, portanto, a sequência maligna: nem pecado, nem punição, nem inferno.

Sabe, paizão, uma coisinha não se encaixa na sua fala. Se não existe pecado - e você é Deus único - por que cargas d’água você não interfere naquela região onde a mulherada não pode mostrar um palmo de coxa? Elas vivem assim por que têm medo de pecar, não é verdade? Então aquela mulherada não goza da liberdade. Estou certa, paizão?

Querida presidente. Precisa analisar a estrutura social da região. O Maomé criou aquele perfil de comportamento há cerca de 1300 anos. Outros tempos, outras realidades. No coletivo, foi aquele condicionamento que acabou se instalando como liberdade. Agora, quando você compara a sua liberdade com a daquelas moças vê um absurdo sem limites. Da mesma forma que as moças de lá acham um absurdo você se espichar praticamente pelada na areia das praias. Preciso respeitar a liberdade do povo daquela região. Mas está certíssima quando põe o medo como fogo do pecado. Botar o medo do inferno nos seguidores é prática comum nas religiões. Seja por nociva estratégia de certos líderes religiosos, seja pela aceitação ingênua de muitos praticantes.

A pergunta que deve se fazer, amada, é a razão pela qual inúmeros indivíduos não temem o suposto pecado. A resposta é simplória e risível: liberdade. Esses indivíduos têm a liberdade de não acreditarem na existência do inferno.

Nossa. Posso inferir da sua fala, paizão, que você é contra as religiões?

Não sou contra religião nenhuma, filha. São abençoados os ritos, dogmas, eventos, cânticos, seja lá o que for, que ajudem os assíduos dessas práticas a se conectar comigo. Mas esses fiéis devem ficar cientes de que tais procedimentos são dispensáveis. Mais: fiquem de olhos abertos nos camelôs da fé. Esse camelô faz muitos adeptos sacrificarem o bem-estar, por vezes até o familiar, para obter lucro, mas nem sempre o monetário. Você prepara supimpa garoupa, aí chega o camelô e lhe diz que só na garoupa do restaurante dele é que você terá a satisfação plena. Mesma garoupa, mesmo tempero. Mas você vai pro restaurante.

Sabe, querida, venho notando a sua afeição pelos temas religiosos. Acredito que algumas coisas deixam a sua cabecinha com dúvidas. Não sou contra religiões, já disse. Grave isto: não posso ser contra nada, posto eu ter dado aos humanos a liberdade de tudo. Agora, nem tudo goza da minha aprovação. Desaprovo o preceito islâmico de obrigar as muçulmanas a se vestirem assim, assim e assim, assim como desaprovo o preceito cristão de as cristãs não comerem isso, isto e aquilo em determinados dias. Em resumo, aprovo a espontânea prática de crenças religiosas, mas desaprovo a obrigação moral e o dever sagrado impostos por essas crenças.

Mudemos de assunto. Você tem ideia do que simboliza na Lya o galhão vertical que lhe pareceu não ter fim?

Amor? Não, espere, espere. Razão, já que somos racionais?

Não. Vocês são racionais, sim, mas são primariamente emocionais. Esse galho é o da emoção. Precisei criar os libertários a partir da emoção a fim de que sentissem o que eu estava sentindo em virtude do cosmos. Resultado disso é que todas as atitudes humanas são decididas pelo emocional. Quando não a emoção instantânea, mas, por certo, a esperada no desfecho da atitude.

Os dois ramos do galho da emoção que, na sua avaliação, parecem orelhas, querida, representam os locais da vida.

O ramo da nossa esquerda chama-se consciente. É por intermédio dele que você pensa, percebe, namora. Esse ramo é a vida material.

O ramo da direita chama-se inconsciente. Nele estão arquivadas suas memórias de longo prazo, suas experiências ficcionais, seus desejos secretos. Todos os registros de sua vida, enfim. E o primeiro registro desse ramo sou eu. Esse ramo é a vida espiritual.

É naquele ramo ali, ó, o ramo do inconsciente, onde os humanos me encontram. E, como lhe disse, amada, não cobro rituais, sacrifícios; não exijo formalidades, cerimônias; não peço fidelidade, constância; não solicito religião, adoração. E não me interessa a hora e o lugar. Só espero que viajem ao fundo da alma, nutram-se de fé, dispam-se de preconceitos; desfaçam-se do egoísmo. De ruídos ouçam apenas o do coração. Procurem-me e os orientarei. Por vezes, nem precisam pedir. O silencio da súplica é suficiente para eu escutar o grito da angústia.

Não há mistério no socorrer. Sou o registro inaugural do nascimento humano. Sou a presença infinita que vive no inconsciente de vocês. Sou a presença infinita que sabe tudo sobre tudo e sobre todos. Estou pronto para guiá-los, curá-los, protegê-los. Mas alguns humanos usam a liberdade egoísta para me ignorar. Verdade, querida. Existem irmãos seus que vivem feitos sabugos do caos egoísta. São seres sinistros. Tiram a liberdade da própria sombra. Jogaram no lixo a compaixão que lhes dei com tanto amor. Deixam-me triste, esbravejo e tal, mas não os posso punir, tampouco corrigi-los, já que a eles concedi a liberdade.

Paizão, paizão, você é o cão chupando manga, realmente. Ah, paizão, desculpa, desculpa. Perdoe-me, paizão. Você me perdoa? É que acho nossa conversa tão informal que chego a duvidar, duvidar, duvidar...

Entendo a sua oralidade, filha. Normalíssimo duvidar deste presente. Duvidar é liberdade pura. De tanto falar em liberdade, permita-me uma provocação. O que você entende por liberdade? Qual é a sua liberdade?

Ah, paizão. Minha liberdade é eu não fazer com os outros o que espero que não façam comigo.

Isso é tão só um cheirinho de liberdade, presidente. Precisa abrir o frasco. Abra-o e sentirá cheiros diversos. Abra o do costume. Viver é se acostumar. O costume forma cultura, que vira liberdade. Lá na frente, essa liberdade pode ser invalidada pelo sistema de leis de cada país. Vou ilustrar com uma coisinha bem atual. A proibição do celular em sala de aula.

Veja. O celular é um costume universal. Chegou à sala de aula. Considere, querida, a educação uma necessidade coletiva. Considere, ainda, que o uso do celular em sala de aula tira a concentração do aluno e da professora. Conclusão: a liberdade de usar o celular ali é nociva. Então, em nome do bem comum, o sistema de leis de vários países extinguiu o uso do celular no decorrer da aula. Nada mais justo.

Um cheirinho alternativo, presidente. O aluno está na sala de aula com o celular, silencioso, na mochila. Ele tem a liberdade de portá-lo, certo? Mas, de vez em quando, esse aluno dá uma corujada nele. Pode ser para se divertir ou para pesquisar alguma coisa. Qual é o problema? O problema é que o professor entende que esse aluno não está prestando atenção na aula. Solução: proibir o uso do celular, já que o celular inibe a liberdade de o professor ensinar.

Pergunto: o aluno tirou a liberdade do professor ou o professor apenas se sentiu desconfortável com a situação? Ser interrompido por alguém é uma atitude desconfortável para o falante, mas não significa tirar a liberdade de o falante se expressar. A vida é dinâmica, querida. Não fazer com os outros o que espera que não façam com você é uma expressão vaga. É apenas um desconforto, no mais das vezes. E desconfortos acontecem frequentemente. O aluno pode estar usando o celular porque está se sentindo desconfortável com a chatice da aula. Se a postura do professor – pessoal e pedagógica – for de estimulante interesse, será que não faria o aluno jogar a mochila pra debaixo da cadeira e aboticar os olhos pro professor? Enfim, presidente, será que não é o aluno quem está com a liberdade ferida por causa da proibição de ele usar algo legitimamente seu?

Certo é, querida presidente, que dos galhos conhecimento e interesse brotaram bilhões de “coisinhas”.  A vida tornou-se a maravilha de hoje, mas vocês ficaram perdidos num emaranhado de liberdades e de não liberdades. A liberdade virou um artigo de segunda mão. Mas estou pronto para fazê-los entendê-la e para recolocá-la no nobre e primeiro ato da vida. Procurem-me.

Procurei você, amada, a fim de lhe explicar misteriosa faceta da liberdade, ao mesmo tempo em que a nomeio para especialíssima missão na terra.

Paizão, paizão, não estou entendendo nada. Você me procurou? Missão? Quanta honra. Que devo fazer, paizão?

Não fará nada, filha. Fará só a população sentir.

Agora torou dentro. Ah, paizão, desculpa, desculpa. Desculpa de novo, tá?

Está desculpada, filha. Preste atenção. Forcei a barra a fim de deixá-la neste estágio do inconsciente para que bem internalizasse a divina liberdade por intermédio da Lya. Deve se lembrar das mensagens que lhe enviei em nome do Departamento Cristão, o DC.

Sim, sim. Lembrei-me quando aqui cheguei. Pensava que estava morta. Que faceta da liberdade falta você me explicar, paizão?

Tem a ver com a tragédia das 28 crianças carbonizadas naquela creche, filha. Você se expressou assim nas redes sociais:

“Que espécie de Deus é essa que deixa 28 crianças de 7 a 9 anos morrerem queimadas? Podia ter evitado. Não é Deus. É o diabo. Desconjuro esse Deus”.

Aí vieram as reações: “Era o destino das crianças, Deus sabe o que faz, chegou o dia delas”, essas coisas.

Mas você podia ter evitado, não podia, paizão?

Posso tudo, filha. Mas não devia. Sabe por quê?

Não sei, paizão. Quero saber, sim. Mas agora quero saber, se não vou explodir de ansiedade, como enviou as mensagens agendando a minha morte. Quem postava aquilo, paizão? Deixou o mundo em polvorosa, pois achavam que era coisa dos alienígenas.

Ninguém postava nada, querida. Entenda. Os humanos podem fazer o que quiserem, mas apenas eu posso querer o que quero. Eu queria que o seu palácio lesse aquelas mensagens. Então fiz o consciente de vocês enxergarem o que eu queria. Em seguida, dei-lhe um empurrãozinho no banheiro. Os médicos estão assombrados com a sua demorada inconsciência, mas você está com toda a inconsciência consciente. Simples, não?

Por que não evitei a tragédia? Porque estaria quebrando a simetria da liberdade. Estaria abrindo o precedente do privilégio. As crianças daquela creche não eram melhores do que as que já morreram ou vão morrer em condições similares. Adoro você e todos os humanos com a mesma intensidade, filha. Isso nos leva à criança que escorregou na entrada da creche, fraturou a perninha, hospitalizou-se e assim livrou-se de morrer queimada. Livramento, disseram, na presunção de que eu interferira no salvamento da Paulinha. Por que teria eu um amor maior pela Paulinha?

Acontece, filha, e aqui entra a faceta da qual lhe falei... Acontece que naquela tragédia houve o uso de liberdades transgressoras. O sistema de gás explodiu porque a creche usou a liberdade do descaso. O sistema de extintores não funcionou porque a creche usou a liberdade da displicência. Não existia a porta nos fundos da creche porque a creche usou a liberdade da imprudência.

As tragédias acontecem – todas, filha - por meio do uso de liberdades desse nível. Os humanos não têm ideia dos riscos que os acompanham diariamente. Vocês são inteligentíssimos no usufruir da folhagem do conhecimento, mas estupidíssimos no combinar as folhas do interesse. O urubu causar uma tragédia aérea não entra na insensatez dos humanos, por óbvio, mas entra na liberdade, sim. Tudo no universo é regido, presidente, pela liberdade outorgada por mim. Ocorre que o urubu não conhece a Lya. A árvore do urubu é de outra natureza. Daí que a liberdade dele se situa em patamar distinto da dos humanos. Entendeu tudo, amada presidente?

Entendi tudo. É tudo muito lógico. Mas tudo muito louco, paizão. Bom. Pelo que entendi, minha missão será difundir essas coisas. Agora, quem vai acreditar que me encontrei com você, paizão?

Sua missão será, sim, explicar o poder divino da liberdade. Você não precisa informar que se encontrou comigo, amada. O povo vai sentir esse encontro, da mesma forma que vai absorver a sabedoria que involuntariamente você vai transmitir.

Vou lhe dar uma coisinha, disse o paizão, pegando da Lya uma frutinha colorida.

 Tome. O gostinho nunca sairá de sua boca. Autêntico maná. Pegue. chupe, criatura.

 

Euforia no palácio da saúde

 

Vejam, vejam, disse o médico chefe ao notar a presidente mexendo os lábios. Não passaram 3 minutos para a presidente se sentar na cama:

Nossa. Deem-me uma taça de vinho. Mexam-se.

Calma, presidente. Não tem vinho aqui. A senhora está no hospital.

Será que não sei, é? Cadê o Gonçalo? Ah, Gonçalo, vamos pro palácio, amor.

Vamos já, querida. Dr. Osair deve fazer alguns procedimentos protocolares antes de liberá-la.

Agora imaginem mais um orgasmo jornalístico na saída do hospital.

Calma, gente. Não precisa se atropelarem. Vou resumir os acontecimentos. Bom. Tomamos café, eu e o Gonçalo, dali a um tempo sinto umas pontadas na barriga. Normal, avalio, sem ligar o fato às postagens de Deus. Então. Fui tomar banho. Termino o banho, vou pegar a toalha, entrelaço os pés e caio. Aí...

Aí... eu, eu...

Aqui, a presidente está com a voz embargada. Ela tenta controlar a emoção:

Aí... aí... aí me vi...

Aqui, a presidente já chora. Faz uma pausa e nova tentativa de controle.

Me vi, me vi...

Aqui, a presidente está aos prantos. A algazarra da imprensa se transforma em respeitoso silêncio. Algumas pessoas também choram.

A presidente não tem condições de falar. Gonçalo abraça a presidente e a leva pro carro. Mas o silêncio fica.

O Estadão foi preciso:

SILÊNCIO TRANSCENDENTAL  

 

No 2 do 25,

TC

 

 

 

 

 

 


2 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns, Tião! Muito criativa, e curiosa esta crônica. Um misto de ficção e realidade. Repleta de conceitos reais, nada de transcendentais...

Anônimo disse...

Boa tarde meu amigo Tia!. Muito bom. Genial!